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Professor Schechter e grupo de voluntários: mudança de comportamento |
| foto: Oscar Cabral |
Foi como duelar com o HIV que, eu suspeitava, corria em minhas veias. Nunca havia tido tanta consciência de que esse vírus existia, era fatal e que eu poderia ser a próxima vítima. Fiz dois exames. Ambos deram negativo. Agora vou redobrar a prevenção.
Os cuidados futuros do estudante carioca Anderson Alves, de 21 anos, não se explicam pelo susto. Não se justificam pelo medo de que pudesse estar contaminado pelo vírus da Aids depois que o preservativo arrebentou durante uma relação sexual com o namorado. Não era a primeira vez que um incidente desse tipo acontecia. A consciência da importância da prevenção veio para Anderson sob a forma de duas pílulas diárias que ele tomou durante 28 dias. Feitos à base de duas drogas anti-Aids, os comprimidos são chamados de "pílula do dia seguinte". Ela deve ser empregada por pessoas sadias que acreditam ter sido expostas ao HIV, no máximo, 48 horas antes. O estudante é um dos 100 voluntários todos homossexuais de uma pesquisa inédita no mundo, coordenada pelo infectologista Mauro Schechter, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Carregar no bolso algumas pílulas que evitariam a infecção do organismo pelo vírus significaria uma volta aos tempos de liberdade sexual pré-Aids? Não, a julgar pelo depoimento de Anderson e de outros voluntários do projeto.
Não são raros os casos de pessoas que tomam consciência do risco a que se expõem quando dispõem de um medicamento para combater justamente esse risco. É como se os remédios lembrassem o tempo inteiro o perigo a que as pessoas estão sujeitas. Na década de 60, a discussão sobre a pílula anticoncepcional gerou entre as mulheres a conscientização sobre a gravidez indesejada. Recentemente aconteceu o mesmo com o Xenical, o remédio contra a obesidade. O simples fato de levar a cartela de Xenical na bolsa tem feito muita gente mudar os hábitos alimentares.
A idéia da "pílula do dia seguinte" surgiu nos Estados Unidos
em 1993, quando foram realizadas pesquisas com médicos e enfermeiros que
entraram acidentalmente em contato com o HIV. O grande receio, porém,
era que se criasse uma idéia de que, a partir de agora, os procedimentos
de prevenção seriam desnecessários, gerando um clima de "liberou
geral". Como o trabalho do professor da Universidade Federal do Rio
de Janeiro está demonstrando, esse receio é infundado. A pílula tem reforçado
o ditado de que, em Aids, é melhor prevenir do que remediar.
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Copyright © 1999, Abril S.A. |