Roberto Pompeu de Toledo
Será a felicidade necessária?
Os
pais costumam dizer que importante é que os filhos
sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. Não há
encargo mais pesado
para a pobre criança
Felicidade
é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada.
Diante da pergunta "Você é feliz?", dois fardos são
lançados às costas do inquirido. O primeiro é procurar uma
definição para felicidade, o que equivale a rastrear uma escala
que pode ir da simples satisfação de gozar de boa saúde até
a conquista da bem-aventurança. O segundo é examinar-se, em busca
de uma resposta. Nesse processo, depara-se com armadilhas. Caso se tenha ganhado
um aumento no emprego no dia anterior, o mundo parecerá belo e justo; caso
se esteja com dor de dente, parecerá feio e perverso. Mas a dor de dente
vai passar, assim como a euforia pelo aumento de salário, e se há
algo imprescindível, na difícil conceituação de felicidade,
é o caráter de permanência. Uma resposta consequente exige
colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa
futura. Dá trabalho, e a conclusão pode não ser clara.
Os
pais de hoje costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes.
É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias
dos anos 1960.
É irrelevante que entrem na faculdade,
que ganhem muito ou pouco dinheiro, que sejam bem-sucedidos na profissão.
O que espero, eis a resposta correta, é que sejam felizes. Ora, felicidade
é coisa grandiosa. É esperar, no mínimo, que o filho sinta
prazer nas pequenas coisas da vida. Se não for suficiente, que consiga
cumprir todos os desejos e ambições que venha a abrigar. Se ainda
for pouco, que atinja o enlevo místico dos santos. Não dá
para preencher caderno de encargos mais cruel para a pobre criança.
"É
a felicidade necessária?" é a chamada de capa da última
revista New Yorker (22 de março) para um artigo que, assinado por
Elizabeth Kolbert, analisa livros recentes sobre o tema. No caso, a ênfase
está nas pesquisas sobre felicidade (ou sobre "satisfação",
como mais modestamente às vezes são chamadas) e no impacto que exercem,
ou deveriam exercer, nas políticas públicas. Um dos livros analisados,
de autoria do ex-presidente de Harvard Derek Bok (The Politics of Happiness:
What Government Can Learn from the New Research on Well-Being), constata que
nos últimos 35 anos o PIB per capita dos americanos aumentou de 17 000
dólares para 27 000, o tamanho médio das casas cresceu 50%
e as famílias que possuem computador saltaram de zero para 70% do total.
No entanto, a porcentagem dos que se consideram felizes não se moveu. Conclusão
do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário:
se o crescimento econômico não contribui para aumentar a felicidade,
"por que trabalhar tanto, arriscando desastres ambientais, para continuar
dobrando e redobrando o PIB?".
Outro livro, de autoria
de Carol Graham, da Universidade de Maryland (Happiness Around the World: The
Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires), informa que os nigerianos,
com seus 1 400 dólares de PIB per capita, atribuem-se grau de felicidade
equivalente ao dos japoneses, com PIB per capita 25 vezes maior, e que os habitantes
de Bangladesh se consideram duas vezes mais felizes que os da Rússia, quatro
vezes mais ricos. Surpresa das surpresas, os afegãos atribuem-se bom nível
de felicidade, e a felicidade é maior nas áreas dominadas pelo Talibã.
Os dois livros vão na mesma direção das conclusões
de um relatório, também citado no artigo da New Yorker, preparado
para o governo francês por dois detentores do Nobel de Economia, Amartya
Sen e Joseph Stiglitz. Como exemplo de que PIB e felicidade não caminham
juntos, eles evocam os congestionamentos de trânsito, "que podem aumentar
o PIB, em decorrência do aumento do uso da gasolina, mas não a qualidade
de vida".
Embora embaladas com números e linguagem
científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito
de que dinheiro não traz felicidade, não fosse que ambicionam influir
na formulação das políticas públicas. O propósito
é convidar os governantes a afinar seu foco, se têm em vista o bem-estar
dos governados (e podem eles ter em vista algo mais relevante?). Derek Bok, o
autor do primeiro dos livros, aconselha ao governo americano programas como estender
o alcance do seguro-desemprego (as pesquisas apontam a perda de emprego como
mais causadora de infelicidade do que o divórcio), facilitar o acesso a
medicamentos contra a dor e a tratamentos da depressão e proporcionar atividades
esportivas para as crianças. Bok desce ao mesmo nível terra a terra
da mãe que trocasse o grandioso desejo de felicidade pelo de uma boa faculdade
e um bom salário para o filho.
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