Seções
• VEJA.comPanorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Crime: A loucura e o daimeInternacional
• Oriente Médio: Lula, o mensageiro da pazGeral
• GenteArtes e Espetáculos
• Música: O clipe de Lady GagaEntrevista: Robert ShillerA psicologia das bolhasO professor de Yale afirma que os economistas caíram
|
Thiel Christian/Sipa Press |
"A economia é instável, e o governo tem um
papel relevante na tentativa de estabilizá-la. É essa a contribuição
essencial de Keynes" |
Na visão do inglês John Maynard Keynes (1883-1946), os ciclos de euforia e depressão da economia não podem ser entendidos sem levar em conta o papel das emoções nos processos de tomada de decisão dos consumidores, das empresas e dos investidores. A lição deixada por ele foi que as oscilações da economia decorrem em boa parte da própria natureza humana, regida menos pela lógica e mais pelo "espírito animal" - ou seja, pelos impulsos irracionais. Em outras palavras, o Homo economicus não rasga dinheiro, mas está longe de ser um contabilista sereno e previsível no trato com suas economias. "A lição foi esquecida, e os economistas levaram ao extremo a ideia oposta, a de que os mercados são sempre racionais e eficientes", lembra o americano Robert Shiller, professor da Universidade Yale, autor, em parceria com o Nobel de Economia George Akerlof, do livro O Espírito Animal (Campus/Elsevier).
Por que a recente crise econômica só foi percebida
quando já era tarde demais?
Os profissionais da área econômica
foram aos poucos desprezando
a natureza humana, para que ela não atrapalhasse seus modelos. Isso implicou
ignorar aspectos psicológicos das causas subjacentes dos fenômenos
econômicos e financeiros. Sabe-se que os economistas menosprezam a psicologia,
por considerá-la uma disciplina inferior. Ao se renderem a esse preconceito,
eles subtraíram de suas análises componentes vitais da realidade.
Tornaram-se vítimas do autoengano de que a sua profissão pudesse
funcionar com a precisão da física. Passaram a enxergar os mercados
como instituições perfeitas e previsíveis. Keynes tinha
ensinado que não é bem assim. Os indivíduos, dizia ele,
são animados, ou movidos, por forças muitas vezes irracionais.
Sem essa dimensão humana, a economia, como profissão, saiu dos
trilhos. George Akerlof e eu buscamos retomar a ideia esquecida do "espírito
animal", a motivação interior dos homens sujeita a ciclos
imprevisíveis de confiança exagerada ou pânico injustificado.
Mas os modelos econômicos não foram fundamentais
para dar mais objetividade à economia e para tornar mais eficiente a
regulagem dos mercados?
Minha crítica diz respeito aos rumos tomados recentemente pela economia.
Mas não sou radical a ponto de defender que se comece tudo do zero. George
criou modelos econômicos e ganhou um Nobel por isso. Eu mesmo ajudei a
desenvolver diversos modelos e tenho uma empresa que ganha dinheiro com isso.
Não propomos a execração da profissão. Mas consideramos
que certos ramos da economia levaram os seus modelos a um extremo perigoso.
Esses economistas ignoraram fatos que estavam diante de seu nariz, apenas porque
esses fatos não cabiam em seus modelos. A prática científica
clássica estabelece justamente o contrário. Se a evidência
não corrobora a teoria, essa última é que precisa ser mudada
- mesmo que a evidência venha do ramo da psicologia. Os economistas
têm ignorado esse tipo de evidência, digamos, não numérica.
O que, afinal, move a economia? Essa pergunta, tão simples quanto essencial,
tornou-se um estorvo para os economistas obcecados por modelos matemáticos
em que não há lugar para atitudes irracionais.
O "espírito animal" é superior à
famosa "mão invisível" dos mercados preconizada por
Adam Smith?
Eu acredito nos mercados e no capitalismo. Adam Smith diagnosticou
corretamente que, ao buscarem o lucro em seus negócios, os padeiros,
açougueiros e cervejeiros de seu tempo eram os responsáveis pelo
bom funcionamento da economia. Eles não agiam por altruísmo, mas
por interesse próprio. Na soma dessas ações egoístas,
Smith viu uma "mão invisível" que produzia a prosperidade
geral da sociedade. Por ser correta, não significa que essa visão
seja totalmente abrangente. Essa ideia não considera as razões
não econômicas que também impelem as pessoas a agir. Quando
Keynes publicou sua Teoria Geral, em 1936, o mundo estava dividido entre
capitalistas e comunistas. Keynes argumentou que o capitalismo era o melhor
modelo, desde que regulado. Sua conclusão foi que o capitalismo era guiado
pelo "espírito animal" e, portanto, não poderia ser
facilmente previsto ou controlado. Então, respondendo a sua pergunta,
diria que os dois conceitos são corretos e complementares. O ideal keynesiano
de dotar a economia de meios para tentar diminuir a brutalidade
dos ciclos econômicos não implica
a supressão do capitalismo.
Como os governos podem contribuir para disciplinar o "espírito
animal"?
Um ponto essencial é aprimorar a proteção
ao direito dos consumidores. É inconcebível que os governos permitam
a comercialização de certos papéis que embutem riscos sobre
os quais os compradores não foram suficientemente informados. Outra questão
incontornável é a reforma do setor financeiro. Por mais complexa
e difícil que seja essa tarefa, ela precisa ser levada a cabo. De maneira
alguma os governos podem se limitar a fazer pacotes de estímulos. Eles
foram necessários para evitar que as crises financeiras se transformassem
em trágicas e prolongadas depressões econômicas. Mas só
estímulo não resolve o problema.
Keynes tem sido citado com muita
ligeireza por defensores do aumento
da intervenção estatal na economia.
É esse o caminho?
Não. Sou contra o estado onipresente, o estado-empresário.
É preciso ficar claro que fazer as reformas no setor financeiro não
significa - ou não deveria significar - a ampliação
do papel do estado
na economia. Não se trata de dar maiores responsabilidades e poderes
ao estado. O que é preciso é fazer benfeito. Não precisamos
de regras mais estritas, mas de uma regulação que funcione. A
economia é instável, e o governo tem um papel relevante na sua
estabilização. Essa é a contribuição essencial
de Keynes. Atribuir
a ele a tese de que o governo deve administrar a economia de um país
é uma fraude.
Não existe o risco de criar regras que enrijeçam
o sistema financeiro e impeçam que o crédito flua livremente?
Não serão reformas fáceis de ser feitas. É dificílimo
administrar sabiamente a economia de um país. Não propomos argumentar
o contrário.
O que defendemos, no entanto, é que não se pode desconsiderar
a instabilidade psicológica que caracteriza os agentes econômicos,
sejam eles empresários, investidores ou consumidores. Ao definirem suas
políticas,
os governantes eleitos, seus ministros das finanças e presidentes de
bancos centrais precisam pesar o comportamento e a mentalidade das pessoas.
É um erro imaginar que basta determinar o nível adequado e seguro
de capital próprio das empresas financeiras. Tentar desvendar os humores
do "espírito animal" dos agentes de mercado tornou-se essencial.
É preciso tentar antecipar como ele se move.
É possível perceber quando uma bolha especulativa
está em formação?
Não é algo trivial nem
óbvio, senão nunca haveria bolhas. Mas há alguns sinais
que, se estivermos atentos, podem nos dar pistas de que estamos diante de uma
bolha. Um bom indicador é quando começam a pulular explicações,
que se pretendem absolutamente coerentes, para justificar a rápida
elevação no preço de algum ativo, seja a ação
de uma empresa, seja o valor dos imóveis. Conforme a bolha avança,
as pessoas são tomadas por
sensações que cancelam a racionalidade. Na bolha da internet,
que estourou em 2000, só se falava das maravilhas da revolução
na tecnologia da informação, de como isso traria um extraordinário
novo mundo, onde
todos ficariam mais ricos e poderosos. Havia um elemento de verdade
em parte daquilo. Mas a euforia
superou a realidade e os exageros tomaram conta.
Os Estados Unidos estarão diante de grandes desafios nos
próximos anos, como conter o aumento da dívida pública
em meio a uma economia ainda frágil. O país vai perder vigor e
reduzir seu ritmo de crescimento?
Não acho que seja útil tentar
prever essas coisas. O que posso dizer com certeza é que os Estados Unidos
possuem uma tradição de respeito aos direitos humanos e à
liberdade. Essa tradição nasceu antes mesmo de a palavra capitalismo
ter aparecido. Ela data de George Washington (o primeiro presidente americano,
entre 1789 e 1797). Em seu discurso de despedida, quando deixou a Presidência,
Washington sugeriu que o governo agisse com "delicadeza" na regulação
das empresas. Essa é uma longa e arraigada tradição dos
Estados Unidos. Essa tradição não passará. Faz parte
da cultura americana manter o governo afastado da vida privada e dos negócios.
A imagem dos Estados Unidos como líder do capitalismo sobreviverá
aos danos provocados pela crise e aos remédios estatais ministrados para
diminuir sua duração.
Quais as perspectivas para a economia americana na próxima
década?
Não é um cenário confortável. Acabamos
de passar por uma pequena depressão.
O mercado imobiliário ainda não se recuperou, só sobrevive
com o financiamento indireto do governo.
Os bancos não voltaram a emprestar como antes. É o tipo de problema
que tivemos na Grande Depressão: as empresas não conseguem tomar
dinheiro emprestado, não fazem investimentos, e a economia não
cresce. A dívida pública está em alta. É uma situação
administrável no momento, mas que no futuro poderá limitar novos
estímulos econômicos. Será uma década difícil.
Há incertezas também no resto do mundo. Até mesmo na China
existem riscos, como o do estouro de uma bolha imobiliária. No fundo,
o problema é que fomos longe demais com a ideia fundamentalista de que
os mercados são infalíveis. Ainda hoje, enquanto conversamos,
estudantes estão ouvindo de seus professores que a ausência total
do estado é benéfica à economia, como se nada tivesse
acontecido.
A britânica Margaret Thatcher e o
americano Ronald Reagan, dois grandes reformadores do estado, são muito
criticados no livro que o senhor escreveu com Akerlof. Por quê?
Não há dúvida de que as reformas liberais de ambos tiveram
um
impacto considerável na abertura dos
mercados mundiais. Foi algo muito
positivo. Mas isso não quer dizer que tudo o que fizeram deva ser aplaudido.
Não sou filiado a nenhum partido político. O fundamental é
sermos pragmáticos, não aferrados a dogmas. Necessitamos de governos
com
noção de proporção e realidade.
Thatcher fez coisas vitais, como abrir a economia e privatizar. Os sindicatos
estavam arruinando a competitividade da economia inglesa. Ela acertou. Apenas
não considero que os acertos de Thatcher e Reagan, chancelados pelo contexto
histórico em que
viveram, possam ser vendidos
hoje de forma simplista como a solução para todos os problemas
econômicos atuais e futuros. É preciso sempre fugir das simplificações.
Tome o caso atual do Brasil.
Ouço dizer que o presidente Lula
é um líder pragmático. Isso é ótimo para
os brasileiros. Mas quando
estive no Brasil em 2007 ouvi muitas queixas sobre o excesso de impostos.
A justificativa parece ser a redução das desigualdades sociais.
O combate à iniquidade é fundamental, mas
é um suicídio sufocar os negócios
em nome dele.
Não é utopia esperar que o estado regule bem e não
asfixie o setor privado?
A questão central é ter regras para o
jogo econômico que estimulem a competição e sejam justas
aos olhos de todos os envolvidos. O embate econômico é tenso e
se assemelha a uma guerra. Mas é preciso ter regras consensuais que ponham
limite a essa guerra. Se as regras forem adequadas e respeitadas, a prosperidade
virá como resultado. Sem limites, as economias não vão
a lugar nenhum.