Diogo Mainardi
A história
em inquéritos
"Júlio César foi
retratado por Plutarco. Lorenzo de Medici
foi retratado por Maquiavel. Frederico
II foi retratado
por Thomas Carlyle. Lula será eternamente recordado
pelos
depoimentos de Roberto Jefferson, Hélio Malheiro
e Lúcio Bolonha
Funaro"
A biografia de Lula será
escrita nos tribunais. O julgamento histórico de seus oito anos no poder
estará estampado numa série de inquéritos penais. Ele permanecerá
na memória nacional através do testemunho daqueles que rapinaram
em seu nome. Júlio César foi retratado por Plutarco. Lorenzo de
Medici foi retratado por Maquiavel. Frederico II foi retratado por Thomas Carlyle.
Lula? Lula será eternamente recordado pelos depoimentos de Roberto Jefferson,
Hélio Malheiro e Lúcio Bolonha Funaro. Quem precisa de Plutarco,
se tem o presidente do PTB? Quem precisa de Maquiavel, se tem um técnico
da Bancoop? Quem precisa de Thomas Carlyle, se tem o doleiro da Garanhuns?
Lula,
até recentemente, ainda podia esperar que as ilegalidades praticadas em
seu governo passassem impunes. As reportagens publicadas em VEJA, nas duas últimas
semanas, demonstraram que isso nunca vai acontecer. No futuro, quando alguém
quiser relatar os fatos deste período, terá de recorrer necessariamente
aos processos judiciais, que detalharam o modo lulista de se organizar, de se
acumpliciar, de se infiltrar e de fazer negócios. Está tudo lá:
dos adesivos da campanha eleitoral de 2002, pagos com o dinheiro dos mutuários
da Bancoop, às propinas dos parlamentares mensaleiros, pagas com o dinheiro
do Banco Rural. As tramas, os nomes dos personagens e as mentiras repetem-se continuamente.
Alguns
dos processos contra os lulistas podem desandar. Alguns dos réus podem
ser inocentados. Mas um depoimento como o de Lúcio Bolonha Funaro assombrará
para sempre a memória de Lula, como o fantasma do pai de Hamlet, que vem
do purgatório para delatar seu assassino, o rei Cláudio:
FANTASMA
Escuta, Hamlet! Conta-se que o diretor-presidente da Portus, indicado
pelo senhor José Dirceu, me picou quando eu me achava a dormir num shopping
de Blumenau. Assim, todo o povo da Dinamarca foi ludibriado por uma notícia
falsa da ASM Asset Management. Mas escuta, nobre mancebo! O pagamento "por
fora" de 500 000 reais ao Partido dos Trabalhadores, que lançou
veneno na vida de teu pai, agora cinge a coroa dele.
HAMLET
Vilão! Vilão que ri! Vilão maldito!
Hamlet
sai dali e, muitas páginas depois, acaba se vingando do assassino de seu
pai. Mesmo que os procuradores engavetem todas as provas contra os lulistas, mesmo
que Dilma Rousseff seja eleita, a história de Lula será contada
a partir dos depoimentos desses fantasmas.
Hamlet
diz um monte de frases que podem ser aplicadas a Lula. A melhor delas é
dirigida a Ofélia: "Vai embora. Vai depressa. Adeus".

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