Maílson da
Nóbrega
Um duplo atentado
"O
preconceito marxista contra a propriedade sobrevive
nos corações
e mentes do Movimento dos Trabalhadores
Sem Terra (MST) e dos formuladores do
malsinado programa de Lula"
No Terceiro
Programa Nacional de Direitos Humanos, do governo Lula que contém
um amontoado de ideias autoritárias , há um duplo atentado
ao direito de propriedade: (1) aceita-se como natural a invasão de imóveis
rurais e urbanos; e (2) viola-se a independência dos juízes, que
não mais poderiam emitir liminares determinando a desocupação.
De fato, antes de adotar sua decisão, o juiz teria
de realizar "audiência coletiva com os envolvidos, com a presença
do Ministério Público, do poder público local, órgãos
públicos especializados e Polícia Militar". Ou seja, uma assembleia
que poderia intimidar o magistrado.
O direito de propriedade
começou a surgir no século XVI sob o impulso do liberalismo e dos
ideais iluministas. É parte do conjunto que inclui a liberdade do indivíduo
perante a sociedade e o estado. Antes, a propriedade privada já era reconhecida.
A novidade foi o estabelecimento de regras que a defendiam do arbítrio
e dos predadores.
Levou algum tempo para que o direito de
propriedade se firmasse como um dos grandes avanços da civilização.
No século XVIII, Rousseau dizia que propriedade é que seria roubo,
e não a sua espoliação. No século seguinte, Proudhon
falava que ela seria a causa dos crimes e de misérias provocadas pelo homem.
Influenciado por essas ideias, Karl Marx atribuiu à propriedade a origem
de todos os males.
Por isso, Marx pregou a abolição
da propriedade privada e sua coletivização sob controle do proletariado.
Foi um desastre. Cerca de 100 milhões pereceram sob o tacão do totalitarismo
comunista. Mesmo assim, o preconceito marxista contra a propriedade sobrevive
nos corações e mentes do MST e dos formuladores do malsinado programa
de Lula.
A entronização do direito de propriedade
nas sociedades avançadas (e agora também na China) tem seu marco
institucional mais relevante na Revolução Gloriosa inglesa, de 1688,
que destronou o rei James II. A queda do monarca contou com amplo apoio popular,
que se deveu, entre outras razões, a atos atentatórios à
propriedade.
Em obra monumental (1688 The First
Modern Revolution), Steve Pincus assinala inúmeras queixas da população
contra esses atos. O Judiciário não era garantia. James II demitiu
doze juízes em seu reinado de menos de quatro anos, tanto quanto seu antecessor,
Charles II, em 25 anos. Nomeava apenas juízes favoráveis ao absolutismo.
Com a revolução, os reis perderam o poder de
demitir juízes. O poder supremo passou da monarquia para o Parlamento,
que concedeu independência ao Judiciário e se dedicou intensamente,
nos anos seguintes, a rever as restrições à hipoteca de bens
e ao uso da propriedade em atividades econômicas.
Nos
150 anos posteriores a 1688, mais da metade das leis aprovadas normatizava o direito
de propriedade. Regras medievais que inibiam o investimento foram substituídas
por outras que permitiram a agricultores, industriais e comunidades aproveitar
as oportunidades que surgiam com o novo ambiente.
Até
hoje se discute por que a Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra
e não na França, na China ou no Japão. Não há
dúvida, todavia, quanto ao papel do direito de propriedade no processo
e à sua contribuição para a ascensão inglesa à
condição de potência mundial no século XIX.
O
direito à propriedade foi consagrado na Declaração Universal
dos Direitos Humanos da ONU (1948). "Toda pessoa tem direito à propriedade,
só ou em sociedade com outros. Ninguém será arbitrariamente
privado de sua propriedade." Direito de propriedade e Judiciário independente
são, assim, faces da mesma moeda. O programa de Lula investe contra essas
duas conquistas.
A infeliz ideia foi criticada pela Associação
dos Magistrados Brasileiros (AMB). A entidade repudia o cerceamento da autoridade
do juiz, que ficaria condicionada "à realização de uma
audiência pública com viés não raras vezes político,
postergando ainda mais a prestação jurisdicional pretendida".
Por tudo isso, se não for abortada, a proposta nos levará às
trevas.
P.S. Eu concluía este texto quando se
anunciou a possível revisão dessa e de outras propostas autoritárias.
Mesmo assim, dado que seus defensores continuam no governo, vale manter o alerta.
Maílson
da Nóbrega é economista |