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• Música: O clipe de Lady GagaDemografiaA classe média e seus papéisA elevação do padrão
de vida nos países emergentes,
como
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Aijaz Rahi/AP![]() |
| NOVAS AMBIÇÕES Universitários em Mysore, na Índia: a educação é um dos investimentos preferidos da classe média. Outro é consumir. |
O destino da classe média nos próximos anos é
cumprir duas missões. A primeira, econômica, consiste em pôr
o seu poder de compra a serviço da recuperação do crescimento
do PIB mundial, prejudicado pela pior crise financeira desde a década
de 30. A segunda missão é pressionar por transformações
políticas em países onde a democracia e o respeito às leis
ainda são valores exóticos. O requisito demográfico para
que esses dois papéis possam ser desempenhados está praticamente
garantido: segundo estudo recente da Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países
ricos, a população de classe média está aumentando
rapidamente e pode mais do que dobrar nos próximos vinte anos, chegando
a 4,9 bilhões de habitantes. Todos os novos membros da camada social
intermediária do mundo viverão em países emergentes -
principalmente nos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Em termos
proporcionais, a classe média em 2030 representará, pela primeira
vez, mais da metade dos habitantes do mundo. No Brasil, isso já é
verdade desde o ano passado. Há diversas maneiras de definir quem faz
parte desse estrato populacional. A OCDE considera uma renda familiar de 10
a 100 dólares por dia. Por esse critério, a classe média
brasileira é mais rica do que a chinesa, por exemplo. Outra forma de
classificação é a capacidade de gastar um terço
da renda em qualquer coisa que não seja comida e moradia. Essa é,
justamente, a característica que faz a classe média ser tão
especial do ponto de vista político e econômico.
Ben Curtis/AP![]() |
| ARMA DIGITAL Manifestações no Irã, em 2009: celular e computador a serviço da democracia |
Ao deixar para trás a pobreza - o que significa parar
de se preocupar apenas com a sobrevivência diária -, o cidadão
passa a pensar no futuro e a desejar melhorias constantes em seu padrão
de vida. Isso o leva, quase sempre, a valorizar políticas que lhe permitam
progredir, como aquelas que reforçam o direito de propriedade, a segurança
jurídica e as liberdades individuais. Eis aí a razão para
a afinidade da classe média com os valores democráticos. "Como
essa parcela da população tem uma renda razoável, é
muito mais difícil para um político populista comprar o seu apoio
com medidas assistencialistas", disse a VEJA o economista indiano Abhijit
Banerjee, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.
O fortalecimento da classe média, contudo, não é condição
suficiente para derrubar ditaduras, como bem demonstra o caso da China, onde
três em cada quatro integrantes do Partido Comunista pertencem a essa
camada. "São raros os exemplos históricos como esse, em que
a classe média apoia sistemas totalitários. Conforme se torna
mais numerosa, ela costuma ficar mais liberal e empreendedora, o que é
bom para a democracia", diz o sociólogo Bolívar Lamounier,
autor do livro A Classe Média Brasileira (Editora Campus/Elsevier).
Por trás de todo movimento popular que reivindica mudanças políticas
de cunho democrático, quase sempre está a classe média.
A mobilização de massa que, antes e depois das eleições
presidenciais iranianas do ano passado, varreu as ruas de Teerã pedindo
o fim do regime radical liderado pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo,
era basicamente formada por ativistas de classe média. Eles usavam seus
celulares - o principal símbolo de consumo da nova classe C dos
países emergentes - para organizar os protestos e difundir fotos
da repressão policial. Um estudo do instituto americano Pew Research
Center comparou a maneira de pensar das camadas baixas e médias em treze
países. Conclusão: os membros da classe média são
mais propensos a exi-gir eleições limpas e multipartidárias
e a defender
a liberdade de imprensa do que os pobres.
Marcio Fernandes/AE![]() |
| CONSUMO EM ALTA Loja em São Paulo: metade da população brasileira já é classe média |
As mesmas características que dão relevância
política à classe média também definem o seu papel
econômico. A preocupação pessoal com o futuro e a ambição
social refletem-se, por exemplo, no investimento na educação dos
filhos e em gastos com academia de ginástica, turismo e ingressos de
cinema. A entrada no mercado de consumo dos ex-pobres tem impacto direto no
crescimento da economia. Estima-se que, para cada aumento de 10 pontos porcentuais
na parcela de classe média de um país, o PIB anual suba meio ponto.
Isso explica, em parte, por que os economistas americanos e europeus apostam
tanto nos mercados emergentes como motor do crescimento global nas próximas
décadas. Aturdidos pela crise financeira, os países ricos ainda
têm alguns fantasmas dessa fase ruim para exorcizar. O PIB global, após
desempenho negativo em 2009, deve crescer cerca de 3% neste ano, abaixo dos
5% registrados em 2006 e 2007. A estimativa para a Índia, a China e o
Brasil, no entanto, é de crescimento médio de 6% em 2010. A participação
da nova classe consumidora nessas cifras é evidente. Em dez anos, os
gastos dos cidadãos de classe média dos países asiáticos
(sem contar o Japão) serão superiores aos de seus equivalentes
americanos e europeus. O mercado doméstico da China já compra
hoje mais carros e a Índia tem mais gente conectada à internet
que os Estados Unidos. Um estudo publicado neste ano pela consultoria americana
Accenture, que entrevistou 16.000 pessoas em oito
países, concluiu que mais da metade dos cidadãos de classe média
nos países emergentes pretende comprar um smartphone, contra 20% nos
países ricos. "A avidez no consumo de eletrônicos deve-se
ao fato de que a maioria dos moradores dos países em desenvolvimento
nunca teve acesso a esse tipo de produto. Na Europa e nos Estados Unidos, com
uma classe média estável, as pessoas preferem adiar uma compra
quando percebem que a situação econômica não é
tão boa", diz Olavo Cunha, sócio do Boston Consulting Group,
em São Paulo.
O mundo vive agora a terceira onda da classe média. A primeira ocorreu no século XIX, na Europa, quando uma camada social formada por pequenos comerciantes e funcionários públicos começou a preencher o abismo que separava ricos de pobres. A segunda onda se deu após a II Guerra Mundial nos países que, grosso modo, hoje compõem o clube das nações ricas. O melhor exemplo é o dos baby boomers, que urbanizaram os subúrbios americanos com casas dotadas de carro na garagem, eletrodomésticos e, mais recentemente, computador. A onda atual ocorre nos países emergentes, cujo desenvolvimento econômico inicialmente estava baseado na exportação de produtos baratos e, agora, passa a se beneficiar também do crescente mercado interno. É a classe média no cumprimento de sua missão.
Foto Jerome Favre/Getty Images ![]() |