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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
O
tempo do desenvolvimento
"Quanto
mais tempo se perde por
desorganização ou esperando pelos outros,
menos tempo se utiliza produzindo e menos
riqueza é gerada"
Levei
minha moto para ser consertada em uma pequena oficina no centro
de Genebra. O mecânico abriu uma agenda (como as de médico)
e me instruiu para que em oito dias voltasse com a moto às
2 horas e que fosse buscá-la às 3h15. E assim foi.
Ainda naquela região, procurei um carpinteiro. Sem olhar
a agenda, ele foi logo dizendo que estava ocupado pelos próximos
três meses. Contudo, havia uma chance no fim de semana seguinte.
Se chovesse, nada feito, não se abre telhado com chuva. Se
fizesse sol, ele ia escalar um pico próximo. Mas, se o tempo
estivesse nublado, aí talvez fosse possível. As cartas
estavam na mesa, com toda a sinceridade.
Um
professor chinês em Yale, segurando a xícara de café,
ficava olhando o ponteiro de segundos do relógio da sala
de aula. Quando marcava 8 horas em ponto, começava a aula.
T. Watson, o legendário presidente da IBM, marcava reuniões
para começar em horas quebradas, como 1h58. Quem chegasse
depois pagava uma multa proporcional aos minutos de atraso. Na mesma
IBM, um alto funcionário brasileiro quis apresentar um projeto
na reunião de diretoria da sede. Recebeu uma alocação
de, exatamente, 48 segundos para sua "conferência". Freqüentemente
sou convidado para participar de seminários na Europa. Os
convites chegam quase sempre com mais de um semestre de antecedência
Nos
Estados Unidos é prática corrente lojas e oficinas
darem um prazo máximo para a entrega dos serviços.
Em geral, terminam antes. Mas o cliente planeja sua vida para o
prazo máximo.
Ilustração Ale Setti
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Aqui em Pindorama vivemos numa sociedade que mescla o melhor e o
pior do respeito pelo tempo. Eu tinha um amigo radicado nos Estados
Unidos. Na época em que morou no Rio, ele costumava marcar
com seus colegas de tênis partidas para o dia seguinte. Não
apareciam ou chegavam atrasados. Voltando a Washington, passou a
marcar partidas com mais de três meses de antecedência.
Na hora aprazada, estavam todos lá.
Na
Esplanada dos Ministérios, em Brasília, a conferência
marcada para as 10 horas começará em horas diferentes,
dependendo do ministério. No Itamaraty, começa na
hora. Na área econômica, cabem alguns minutos de tolerância.
Na área social, estão todos muito ocupados, e meia
hora de atraso não é incomum. Curioso, os ministérios
mais eficazes são aqueles em que as reuniões começam
na hora.
Quem
marca com o consertador do computador, da televisão, da pia
ou da máquina de lavar terá uma surpresa se a criatura
vier e mais ainda se chegar na hora marcada. Já nas
empresas modernas, a chance de andar no horário é
bem maior.
Mas
o esplendor da irresponsabilidade com o tempo dos outros está
nas burocracias públicas. Quanto comerá do PIB o tempo
perdido por esperas e complicações desnecessárias?
Muitas empresas brasileiras deixaram de financiar tecnologia com
dinheiro mais barato da Finep pelo risco fatal de atrasos nos desembolsos.
E os prazos erráticos do Judiciário? Na Educação,
os alunos esperam pelos professores e vice-versa, malversando o
tempo da educação.
Tais
exemplos dizem o que todos já sabem, pelo menos na teoria:
tempo é dinheiro. A riqueza é resultante do trabalho.
O trabalho é a aplicação do tempo em atividades
produtivas. Quanto mais tempo se perde por desorganização
ou esperando pelos outros, menos tempo se utiliza produzindo e menos
riqueza é gerada. E isso sem ganhar em lazer.
Alguém
disse a Akio Morita o fundador da Sony que o Brasil
era pobre porque os brasileiros eram malandros. A sua resposta é
que via os brasileiros trabalhar até mais do que os japoneses.
Mas eram pobres pelo mau uso do tempo.
É
interessante notar que a famosa técnica japonesa do "just
in time" não passa de uma forma de sincronizar o trabalho
de um com o de outro, de tal forma que nem trabalhador nem matéria-prima
fiquem parados esperando.
O
respeito pelo tempo dos outros aumenta a produtividade social, pois
o tempo de todos não é desperdiçado pelas esperas.
Aliás, fazer com antecedência é mais rápido
e mais barato. Planejamento é isso. O tempo do desenvolvimento
é o aprendizado social de estruturar o tempo de cada um e
cada um não atrapalhar o tempo dos outros.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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