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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Uma
nau sem
rumo e
sem carga
Eis
o retrato do governo Jango, quarenta
anos após o golpe que o depôs, tal qual
ressalta de um novo livro
Que
reforma agrária era aquela? O decreto preparado pelo governo
João Goulart, em fins de 1963, prevendo a desapropriação
das terras situadas numa faixa de 10 quilômetros de cada lado
das rodovias e ferrovias federais, causava não só
a apreensão dos conservadores, mas uma geral estranheza.
Para começar, aquilo não era assunto que pudesse ser
equacionado pela via de um simples decreto. Também não
se compreendiam a ausência de estudos técnicos a embasá-lo
e a falta de atenção às diferenças regionais.
Dois dirigentes do PSD, Tancredo Neves e Amaral Peixoto, foram ao
líder do governo, deputado Doutel de Andrade, pedir explicações.
Doutel riu. "Mas os senhores acreditam na reforma agrária
do Jango?! No dia em que ele fizer uma reforma agrária, que
vai fazer depois?"
Passados
quarenta anos do golpe que o depôs, João Goulart ganha
seu juízo definitivo num livro que chega às livrarias
nesta semana Jango: um Perfil (1945-1965), do historiador
Marco Antônio Villa (Editora Globo). Já se vê,
pelo episódio em que é ridicularizado por seu próprio
líder na Câmara, que tipo de juízo é
esse. As conclusões de Villa são devastadoras tanto
para o governo quanto para a pessoa Jango. O governo, tão
carente de direção quanto de conteúdo, toma
a forma de uma nau sem rumo e sem carga. A pessoa reúne a
falta de convicções e a tibieza à ausência
de escrúpulos com os recursos públicos e, tanto quanto
os adversários, a tendência ao namoro com as soluções
golpistas. "Apesar do exercício de tantos cargos no Legislativo
e no Executivo, é difícil encontrar alguma frase,
uma idéia, uma lei, enfim, algo de relevante para a posteridade
que João Goulart tenha produzido", escreve o autor. Os propósitos
reformistas contidos na bandeira das "reformas de base" encontraram
menos resistência no Congresso ou em setores conservadores
da sociedade, conclui-se da leitura do livro, do que na incompetência
do próprio governo, incapaz de "construir uma proposta coerente
de transformações".
Villa
começa o livro afirmando ser "muito difícil" escrever
sobre Jango: "Afinal, minha geração ficou com a imagem
de um presidente jovem e valente que foi deposto quando quis fazer
as reformas de base". Jango foi abatido por um golpe, do qual resultaram
vinte anos de trevas ditatoriais: eis um fato que toldou, durante
longo período, o juízo sobre ele. Se a ditadura era
o Mal, e era o Mal mesmo, com sua truculência e seu obscurantismo
quanto a isso, nenhuma dúvida , Jango tinha
de ser o Bem. Essa é a lógica de todos os enredos,
dos contos de fadas às novelas de televisão. Quem
ousasse falar mal de Jango seria tido por aliado da ditadura.
Quarenta
anos passados, para bem da inteligência, podem ser removidos
os filtros que nublavam a apreciação do período.
É a essa tarefa que Villa se entrega, num livro ao mesmo
tempo singelo e revelador. É singelo porque tem como proposta
a simples enunciação dos fatos. A um capítulo
inicial dedicado à fase anterior à Presidência,
dominada por um Jango mais chegado ao futebol e às vedetes
de teatro de revista (uma paixão da vida inteira) do que
à política, segue-se uma minuciosa reconstituição
dos 31 meses de governo. E é revelador pela luz desmistificadora
que a simples enumeração dos fatos joga sobre eventos
que tanta controvérsia geraram na época. Tome-se a
Lei de Remessa de Lucros, pela qual o governo derramou tanta retórica
quanto pela reforma agrária. A lei, cujo objetivo era regular
os lucros enviados às matrizes pelas empresas estrangeiras,
foi aprovada pela Câmara em agosto de 1962. Subiu então
à sanção presidencial, mas o presidente não
a assinou. Acabou promulgada pelo presidente do Congresso. A omissão
do governo deslocou-se em seguida para a regulamentação
da lei. Jango só veio a cuidar do assunto em janeiro de 1964,
mais de quinze meses depois. E essa era uma prioridade de seu governo...
O
ambiente da época não era propício à
racionalidade. A política se fazia no grito, e mais do que
a opinião pública ou os votos no Congresso valiam
a posição dos generais e seus tanques. O cálculo
do golpe era onipresente. O que se espera de um presidente, nesse
panorama, é que manobre para diminuir o mais possível
seus efeitos nocivos. Jango os agravava. "Ele era uma rolha balançando
na água. Ia sempre pela última opinião que
ouvia", escreveu o embaixador americano, Lincoln Gordon. No extremo
oposto, o deputado Leonel Brizola, cunhado de Jango, desistiu de
conversar com ele: "Conversar para quê? O presidente não
decide. O presidente ama o poder, mas detesta o governo". Um erro
mortal que caracterizou o período, ao qual o livro de Villa
empresta toda a ênfase possível, era a descrença
na democracia. "Jango, Brizola, Prestes, a maior parte da oficialidade
das Forças Armadas, quase toda a UDN, parte do PSD, jornalistas,
empresários, todos não só não acreditavam
na democracia como a consideravam um empecilho ao progresso econômico",
escreve o autor. Cada um semeava a própria ditadura. Uma
delas acabou vingando.
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