Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Livros
Miopia autoral

José Saramago perde o rumo em seu
novo romance, Ensaio sobre a Lucidez


Carlos Graieb

Trechos do livro

Nove anos atrás, José Saramago lançou um romance magistral, Ensaio sobre a Cegueira, no qual os habitantes de uma metrópole perdiam repentinamente a visão, atacados por uma "cegueira branca", e regrediam a um estado social caótico. A mesma cidade sem nome serve agora de cenário a Ensaio sobre a Lucidez (Companhia das Letras; 325 páginas; 39,50 reais), que também começa com um evento insólito. Num dia eleitoral, a maioria da população sai de casa junta para abarrotar as urnas com votos em branco. O sistema político entra em colapso, mas desta vez o que se segue não é uma queda na loucura e na bestialidade. Pelo contrário, as pessoas são tomadas por uma inquebrantável sensatez, que lhes permite manter as engrenagens do cotidiano funcionando de maneira perfeita, mesmo na falta de um governo dotado de autoridade. Ou melhor: apesar das autoridades e do governo corrupto. Como seu título sugere, o novo Ensaio serve de continuação e de contraponto ao anterior. Mas está longe de ser uma obra tão coerente.

Comunista renitente, não há dúvida de que Saramago consideraria um gesto de lucidez a rejeição sumária a "todo o sistema que aí está". Pode-se concordar ou não. O problema de seu romance não é ideológico, mas literário. Ensaio sobre a Lucidez é um livro fendido em dois. A primeira e a melhor parte consiste numa fábula política sobre as conseqüências de uma revolta popular que não se dá com violência, mas por uma maciça votação em branco que solapa a legitimidade de um regime. Diante da crise, o governo procura saídas. Nos debates maquiavélicos entre ministros, o estilo inconfundível de Saramago, que comprime os diálogos em parágrafos apinhados de vírgulas, ressalta a desorientação dos personagens (veja trecho). Na tentativa de trazer os eleitores de volta à praxe, o Estado vai lançando mão de estratégias cada vez mais opressivas. Subitamente, porém, a história sofre uma guinada.

Na busca por um bode expiatório, o governo esbarra numa das personagens centrais de Ensaio sobre a Cegueira: a única mulher que mantivera a visão em meio ao inferno narrado naquele livro. Os políticos se agarram a um raciocínio absurdo: se por algum sortilégio a mulher foi poupada naquela ocasião, ela deve ser culpada agora. Ensaio sobre a Lucidez converte-se a partir daí numa espécie de thriller paródico, em que a polícia investiga a mulher para, talvez, eliminá-la. A intenção de Saramago parece ser a de zombar dos romances de espionagem, mas o feitiço se volta contra o feiticeiro e há momentos em que ele soa como um sub-John Le Carré. Além disso, a segunda parte do livro se encaixa mal na primeira. O impacto de Ensaio sobre a Cegueira devia-se ao modo implacável como Saramago perseguia a lógica de sua história até as últimas e terríveis conseqüências. Ensaio sobre a Lucidez começa com igual fôlego – mas se perde bem antes do fim.

Chamado à razão

"Falemos seriamente, senhor ministro, estará o governo disposto a acabar com a farsa do estado de sítio, mandar a avançar o exército e a aviação, pôr a cidade a ferro e fogo, ferir e matar dez ou vinte mil pessoas para dar um exemplo, e depois meter três ou quatro mil na prisão, acusando-as não se sabe de que crime quando precisamente crime não existe. Não estamos em guerra civil, o que queremos, simplesmente, é chamar as pessoas à razão, mostrar-lhes o engano em que caíram ou as fizeram cair, isso é o que falta averiguar, fazer-lhes perceber que um uso sem freio do voto em branco tornaria ingovernável o sistema democrático. Não parece que os resultados, até agora, tenham sido brilhantes, Levará o seu tempo, mas por fim as pessoas verão a luz..."

Trecho de Ensaio sobre a Lucidez

 

 
 
 
 
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