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Livros
Miopia
autoral
José
Saramago perde o rumo em seu
novo romance, Ensaio sobre a Lucidez

Carlos
Graieb
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Nove
anos atrás, José Saramago lançou um romance
magistral, Ensaio sobre a Cegueira, no qual os habitantes
de uma metrópole perdiam repentinamente a visão, atacados
por uma "cegueira branca", e regrediam a um estado social caótico.
A mesma cidade sem nome serve agora de cenário a Ensaio
sobre a Lucidez (Companhia das Letras; 325 páginas;
39,50 reais), que também começa com um evento insólito.
Num dia eleitoral, a maioria da população sai de casa
junta para abarrotar as urnas com votos em branco. O sistema político
entra em colapso, mas desta vez o que se segue não é
uma queda na loucura e na bestialidade. Pelo contrário, as
pessoas são tomadas por uma inquebrantável sensatez,
que lhes permite manter as engrenagens do cotidiano funcionando
de maneira perfeita, mesmo na falta de um governo dotado de autoridade.
Ou melhor: apesar das autoridades e do governo corrupto. Como seu
título sugere, o novo Ensaio serve de continuação
e de contraponto ao anterior. Mas está longe de ser uma obra
tão coerente.
Comunista
renitente, não há dúvida de que Saramago consideraria
um gesto de lucidez a rejeição sumária a "todo
o sistema que aí está". Pode-se concordar ou não.
O problema de seu romance não é ideológico,
mas literário. Ensaio sobre a Lucidez é um
livro fendido em dois. A primeira e a melhor parte consiste numa
fábula política sobre as conseqüências
de uma revolta popular que não se dá com violência,
mas por uma maciça votação em branco que solapa
a legitimidade de um regime. Diante da crise, o governo procura
saídas. Nos debates maquiavélicos entre ministros,
o estilo inconfundível de Saramago, que comprime os diálogos
em parágrafos apinhados de vírgulas, ressalta a desorientação
dos personagens (veja trecho). Na tentativa de trazer os
eleitores de volta à praxe, o Estado vai lançando
mão de estratégias cada vez mais opressivas. Subitamente,
porém, a história sofre uma guinada.
Na
busca por um bode expiatório, o governo esbarra numa das
personagens centrais de Ensaio sobre a Cegueira: a única
mulher que mantivera a visão em meio ao inferno narrado naquele
livro. Os políticos se agarram a um raciocínio absurdo:
se por algum sortilégio a mulher foi poupada naquela ocasião,
ela deve ser culpada agora. Ensaio sobre a Lucidez converte-se
a partir daí numa espécie de thriller paródico,
em que a polícia investiga a mulher para, talvez, eliminá-la.
A intenção de Saramago parece ser a de zombar dos
romances de espionagem, mas o feitiço se volta contra o feiticeiro
e há momentos em que ele soa como um sub-John Le Carré.
Além disso, a segunda parte do livro se encaixa mal na primeira.
O impacto de Ensaio sobre a Cegueira devia-se ao modo implacável
como Saramago perseguia a lógica de sua história até
as últimas e terríveis conseqüências. Ensaio
sobre a Lucidez começa com igual fôlego
mas se perde bem antes do fim.
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Chamado
à razão
"Falemos
seriamente, senhor ministro, estará o governo
disposto a acabar com a farsa do estado de sítio,
mandar a avançar o exército e a aviação,
pôr a cidade a ferro e fogo, ferir e matar dez
ou vinte mil pessoas para dar um exemplo, e depois meter
três ou quatro mil na prisão, acusando-as
não se sabe de que crime quando precisamente
crime não existe. Não estamos em guerra
civil, o que queremos, simplesmente, é chamar
as pessoas à razão, mostrar-lhes o engano
em que caíram ou as fizeram cair, isso é
o que falta averiguar, fazer-lhes perceber que um uso
sem freio do voto em branco tornaria ingovernável
o sistema democrático. Não parece que
os resultados, até agora, tenham sido brilhantes,
Levará o seu tempo, mas por fim as pessoas verão
a luz..."
Trecho
de Ensaio sobre a Lucidez
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