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Em
foco: Sérgio Abranches
O
complexo de Creonte
"É
uma lei da política: quem começa forte,
poderoso e autoritário tem de ser forte, poderoso e autoritário
todo o tempo, não
pode errar. Se ficar em posição de fragilidade,
será alvo de fogo amigo e adversário"
Bertolt
Brecht, em sua versão para Antígona, interpõe
um diálogo que não consta do original
de grande perspicácia política. A tragédia
de Sófocles é sobre o confronto entre Antígona,
filha de Édipo e Jocasta, e Creonte, rei de Tebas, irmão
de Jocasta, em torno do limite legítimo entre a autoridade
pública e a liberdade privada. Ela desobedece à ordem
do rei para que deixem insepulto seu irmão Polinices, que
se voltara contra Tebas e por isso fora morto. Na pólis grega,
religião é assunto doméstico, pertence a cada
casa familiar, responsabilidade das mulheres. Os homens tratavam
dos assuntos públicos e da guerra. Antígona, portanto,
defendia o sagrado direito de dar "justos funerais" a seu irmão
morto. Na versão de Brecht, Creonte interpela Antígona,
dizendo que o conflito dos dois poderia debilitar Tebas e levá-la
a cair diante dos inimigos. A Antígona brechtiana responde
que os homens no poder sempre ameaçam com a queda do Estado,
quando deles dissentimos, para que nos submetamos a sua vontade.
Mas é quando nos submetemos a eles que levamos nossa terra
à perdição.
Lembrei-me
dessa passagem de Brecht ao ouvir o discurso do ministro José
Dirceu aos prefeitos, no qual ele diz que setores da oposição
"namoram com o perigo tentando desestabilizar o governo". Proponho
que denominemos de "complexo de Creonte" esse mal que acomete todos
os que chegam ao poder governamental, de imputar à oposição
e à crítica, com destaque para a imprensa, o desejo
de derrubar o governo e ferir as instituições democráticas.
Ilustração Ale Setti
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O PT foi acusado disso todas as vezes que atacou mais duramente
o governo FHC ou tentou instalar CPIs julgadas problemáticas.
Conseguiu destruir algumas reputações, mas nunca abalou
governo ou instituição alguma. É a mesma coisa
agora. Acusa de desestabilizadora uma oposição muito
mais moderada nos ataques do que jamais foi, quando oposição.
Mudar de política econômica é uma coisa, renegar
valores democráticos que o serviram e protegeram, outra.
Esse
argumento deslegitima e censura o exercício da oposição
e da crítica, elementos essenciais à ordem democrática.
A qualidade da democracia se julga sobretudo pela existência,
independência e qualidade da oposição. Quanto
à imprensa, creio que Alberto Dines tem a melhor definição
de seu papel como instrumento da liberdade de expressão:
deve ser o contrapoder. É por meio da antecipação
da possibilidade de tiranias, hegemonias, absolutismos, autoritarismos
que se mobilizam os corações e as mentes para que
resistam e reneguem qualquer ameaça às liberdades,
por menores e mais circunstanciais. O ministro sabe disso, já
esteve do outro lado.
O
desejo de não ter oposição e essa confusão
sistemática entre atos de dissentimento e conspiração
contra as instituições já representam ameaça
suficiente a nossa curta experiência democrática: apenas
sete presidentes eleitos pelo voto direto entre 1945 e 2002; só
três transmitiram o cargo a um sucessor igualmente eleito.
Essa atitude cria uma cultura de parcialidade democrática,
pela qual as regras da democracia seriam unilaterais. Só
um lado seria suficientemente bom e certo para ser oposição,
não sendo governo; e para não ter oposição
quando é governo. Não pode ser assim. Democracia é
sempre multilateral: todas as regras valem para todos, todos os
direitos valem para todos. Não existe governo democrático
sem transparência, crítica, fiscalização,
imprensa livre e autônoma nem diálogo.
O
chefe do Gabinete Civil disse, também, que o objetivo de
todos "é desarrumar a política econômica e desarrumar
o núcleo dirigente do governo, o centro do governo". Aí
ele tem razão. Não o exime da responsabilidade por
ter levado Waldomiro Diniz para o Palácio do Planalto, mas
revela parte da "microdinâmica" da crise. O objetivo de desarrumar
a política econômica está claro na ação
do PT e do PL, não na oposição. Agora, todos,
aliados e oposição, querem desarrumar o núcleo
dirigente do governo. Ele centraliza todo o poder, esvazia os ministérios,
passa o trator no Congresso, nomeia e demite. Claro que todos querem
atingi-lo. É uma lei da política: quem começa
forte, poderoso e autoritário tem de ser forte, poderoso
e autoritário todo o tempo, não pode errar. Se ficar
em posição de fragilidade, será alvo de fogo
amigo e adversário.
Deixo
aos meus caros leitores outro ensinamento que Sófocles pôs
na boca do próprio Creonte: "Não é possível
conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo de sua alma,
seus sentimentos e seus pensamentos mesmos antes de o vermos no
exercício do poder, senhor das leis".
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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