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Carta
ao leitor
O
Estado como patrão
Ricardo Stuckert
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| Brasília:
a carreira pública atrai mais os jovens em um país
de vida empresarial asfixiada |
Uma
reportagem da presente edição de VEJA mostra que fazer
carreira no serviço público voltou a ser uma forte
aspiração da classe média brasileira. Os salários
são bons e a estabilidade no emprego é vital em um
período de incertezas na economia. É positivo que
a máquina do Estado esteja sendo valorizada e apresente condições
de atrair para seus quadros servidores competentes e talentosos,
restaurando em parte uma situação predominante no
Brasil dos avós dos atuais postulantes. Pela alta qualificação
exigida para obter uma vaga, essa nova geração de
funcionários pode ser decisiva para aumentar a eficiência
e a qualidade dos serviços públicos prestados aos
brasileiros, atualmente entre os piores e os mais caros do mundo.
Esse é o lado luminoso do fenômeno que a reportagem
descreve. Há também um lado obscuro e preocupante.
O súbito sucesso das carreiras públicas decorre principalmente
da atrofia da atividade econômica privada no país,
submetida há anos às maiores provações,
como as taxas reais de juros mais altas, o crédito mais escasso
e caro do mundo e a carga de impostos mais pesada entre todos os
países emergentes.
Não
é apenas o Estado que se tornou um empregador cobiçado.
É a vida empresarial sadia que está, em boa parte,
se inviabilizando em um processo alarmante gerado pelas distorções
do Estado brasileiro. O mal não se restringe ao fato de que
as grandes empresas não encontram meios de crescer e oferecer
mais empregos. A perversidade maior é que, ao tornar o emprego
público a opção mais viável para
muitos a única , o Brasil está desviando do
empreendedorismo seus jovens mais talentosos. Ao fazer isso, mata
neles a única energia criativa que reconhecidamente produz
a riqueza das nações, a combinação de
investimento de tempo e dinheiro em projetos empresariais de sucesso.
Os países que estão progredindo com mais rapidez no
mundo são aqueles cujos governos cuidam de criar ambientes
favoráveis à atividade privada. Não é
por acaso que justamente eles são os países onde a
democracia é mais forte e efetiva. Entre uma crise e outra,
eis uma boa reflexão para o governo brasileiro fazer.
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