Edição 1846 . 24 de março de 2004

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Carta ao leitor
O Estado como patrão


Ricardo Stuckert
Brasília: a carreira pública atrai mais os jovens em um país de vida empresarial asfixiada

Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra que fazer carreira no serviço público voltou a ser uma forte aspiração da classe média brasileira. Os salários são bons e a estabilidade no emprego é vital em um período de incertezas na economia. É positivo que a máquina do Estado esteja sendo valorizada e apresente condições de atrair para seus quadros servidores competentes e talentosos, restaurando em parte uma situação predominante no Brasil dos avós dos atuais postulantes. Pela alta qualificação exigida para obter uma vaga, essa nova geração de funcionários pode ser decisiva para aumentar a eficiência e a qualidade dos serviços públicos prestados aos brasileiros, atualmente entre os piores e os mais caros do mundo. Esse é o lado luminoso do fenômeno que a reportagem descreve. Há também um lado obscuro e preocupante. O súbito sucesso das carreiras públicas decorre principalmente da atrofia da atividade econômica privada no país, submetida há anos às maiores provações, como as taxas reais de juros mais altas, o crédito mais escasso e caro do mundo e a carga de impostos mais pesada entre todos os países emergentes.

Não é apenas o Estado que se tornou um empregador cobiçado. É a vida empresarial sadia que está, em boa parte, se inviabilizando em um processo alarmante gerado pelas distorções do Estado brasileiro. O mal não se restringe ao fato de que as grandes empresas não encontram meios de crescer e oferecer mais empregos. A perversidade maior é que, ao tornar o emprego público a opção mais viável – para muitos a única –, o Brasil está desviando do empreendedorismo seus jovens mais talentosos. Ao fazer isso, mata neles a única energia criativa que reconhecidamente produz a riqueza das nações, a combinação de investimento de tempo e dinheiro em projetos empresariais de sucesso. Os países que estão progredindo com mais rapidez no mundo são aqueles cujos governos cuidam de criar ambientes favoráveis à atividade privada. Não é por acaso que justamente eles são os países onde a democracia é mais forte e efetiva. Entre uma crise e outra, eis uma boa reflexão para o governo brasileiro fazer.

 
 
 
 
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