A LUTA CONTRA O VÍCIO

Como funcionam os grupos anônimos
que ajudam pessoas a se livrar da dependência

Foto: Sergio Divitiis
Reunião dos Dependentes de Amor e Sexo Anônimos: luta contra o sexo compulsivo e a incapacidade de manter relacionamentos firmes
Foto: Antonio Milena  

Na Quarta-feira de Cinzas, por volta das 8 horas da noite, enquanto muita gente ainda voltava da folia do Carnaval, dez pessoas se acomodaram numa sala apertada de uma igreja no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. É uma rotina que elas cumprem, religiosamente, todas as semanas. Embora participem da mesma reunião há algum tempo, nenhuma delas sabe a verdadeira identidade da outra. Conhecem-se apenas pelo primeiro nome e não dizem de onde vêm ou o que fazem na vida. O único ponto em comum nesse grupo é um problema. Os freqüentadores têm graves problemas afetivos ou são viciados em sexo mesmo que a palavra vício, considerada pejorativa, não seja utilizada. Ali, emprega-se o termo "dependente". Como no caso dos dependentes de álcool, cigarro ou drogas, o sexo para esse grupo já foi um prazer corriqueiro. Com o tempo, contudo, tornou-se uma obsessão, a ponto de criar dificuldades no emprego, no relacionamento com a família e com outras pessoas. Alguns passaram por tratamentos médicos e psicológicos sem resultados efetivos, até participar das reuniões do grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, Dasa, uma entidade de auto-ajuda espalhada pelo mundo, com seis grupos no Brasil e encontros regulares no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Um terço dos brasileiros adultos tem algum tipo de vício ou compulsão

"Cheguei a fazer sexo com três mulheres por dia, a qualquer hora, em qualquer lugar", conta o publicitário Rodolfo*, 35 anos. No início, essa voracidade sexual era algo de que ele se vangloriava diante dos amigos. Quando o sexo tomou por completo sua vida, a ponto de procurar indigentes na rua para se satisfazer, Rodolfo percebeu que precisava de ajuda. Esse não é um problema exclusivo dos homens. Antes de entrar para o grupo, Berenice, uma artista gráfica de 32 anos, chegou a perder um emprego, prejudicada pelas noitadas em que percorria bares à procura de parceiros. "Tive muitos amantes, cheguei a um ponto em que nem perguntava mais o nome deles", conta. Bebia muito e, em busca de auxílio, começou a freqüentar as reuniões do Dasa e de outro grupo de apoio, o dos Alcoólicos Anônimos, AA. Aos poucos, passou a se abster de álcool e sexo. Hoje, diz que sua vida melhorou muito. "Estou bem no trabalho, recuperei minha vida familiar e tenho amigos que me ajudam muito", afirma ela. "Mas ainda não me sinto preparada para um envolvimento afetivo."

"Eu passava a noite nos bares à procura de novos parceiros."
Berenice,
artista gráfica, 32 anos, ex-viciada em sexo

Neuróticos e introvertidos Grupos como o Dependentes de Amor e Sexo Anônimos são um fenômeno que se propaga de forma acelerada na sociedade brasileira. Em todo o país, funcionam hoje pelo menos dezessete grandes associações de auto-ajuda, com centenas de filiais nas maiores cidades. Entre elas estão os Narcóticos Anônimos, os Jogadores Anônimos e os Adictos do Açúcar. As reuniões do Dasa abrigam, além dos dependentes de sexo, pessoas viciadas em práticas como voyerismo, exibicionismo e cônjuges que julgam depender de maneira doentia do marido ou da esposa. Há ainda grupos dedicados a ajudar pessoas com distúrbios psicológicos ou dificuldades emocionais, como Neuróticos Anônimos, Psicóticos Anônimos, Emocionais Anônimos e Introvertidos Anônimos (veja quadro). Ali se reúnem pessoas de diferentes idades e classes sociais em busca de apoio mútuo para superar vícios ou comportamentos compulsivos que as levaram a uma vida destrutiva e socialmente malvista.

Foto: Raul Junior
Jogadores Anônimos:
a expectativa do
resultado provoca
efeitos equivalentes
aos da cocaína
  Foto: Antonio Milena

O funcionamento de todos esses grupos se inspira no dos Alcoólicos Anônimos, a mais antiga e bem organizada associação do gênero. Fundado em 1935 por dois alcoólatras em Akron, nos Estados Unidos, o AA possui hoje cerca de 2 milhões de ativistas em 146 países. No Brasil, estima-se que existam 6.000 grupos, com 200.000 freqüentadores. Para auxiliar as pessoas próximas ao alcoólatra surgiram outros grupos de apoio: o Al-Anon, que reúne amigos e familiares, e o Alateen, para os filhos mais jovens. Graças a seu sucesso na recuperação de muitos alcoólatras, o AA passou a servir como modelo para o combate a outros tipos de dependência, das drogas ao fumo e ao jogo. O Narcóticos Anônimos, que dá apoio aos dependentes de drogas, tornou-se uma das maiores irmandades em escala planetária. Atende 1 milhão de pessoas em 150 países. Só a cidade de Nova York possui 1.000 grupos para viciados em drogas. No Brasil funcionam 400 grupos, freqüentados por 20.000 dependentes em recuperação. "A gente não promete nada a ninguém", diz Pedro, anônimo porta-voz da entidade no Brasil. "Mas a maior parte das pessoas que vêm aqui permanece no tratamento."

A receita das casas de bingo é infalível para desenvolver a dependência

Ajuda divina A terapia dos grupos anônimos consiste em doze passos que o dependente deve seguir em busca da recuperação. O primeiro é admitir o vício e a necessidade de ajuda. O último, transmitir sua experiência aos freqüentadores novatos das reuniões, como forma de estimulá-los a ir em frente. A esses encontros nunca são convidados psicólogos, médicos ou outros especialistas. Apenas dependentes. Nas reuniões dos Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, cada participante fala por até sete minutos e ouve o relato de quem conseguiu superar a compulsão. Sobre uma mesa, uma placa adverte: "Quem você vê aqui, o que você ouve aqui, deixe que fique aqui". Fala-se em Deus e reza-se a Oração da Serenidade, na qual os participantes pedem sabedoria para discernir entre o que podem e o que não podem mudar em sua vida. Apesar disso e de a reunião geralmente ser realizada numa igreja, seus integrantes dizem que o encontro não tem vínculo algum com religião.

Foto: Antonio Saggesi
Comedores Compulsivos:
entre os
freqüentadores,
pessoas que já passaram
por outros grupos anônimos
Foto: Moreira Mariz  

O Alcoólicos Anônimos é um dos poucos grupos de auto-ajuda cujas reuniões muitas vezes são realizadas em sedes próprias. São salas simples e despojadas que, ao contrário de outros grupos de auto-ajuda, possuem placa bem visível na rua. Nas paredes há tabuletas com os doze passos para largar o copo. Na semana passada, um quadro negro no AA do bairro do Jabaquara, em São Paulo, mostrava uma agenda intensa de atividades. "Os freqüentadores não gostam muito de Carnaval, porque a festa os aproxima da bebida", explica Franco, 62 anos, funcionário público, um dos participantes. "Comecei a beber depois que me casei, aos 21 anos, e logo já estava bebendo desde manhã", conta Paulo, um tapeceiro de 45 anos. De lá para cá, chegou a perder o emprego e tentou o suicídio. Como? Ingerindo dúzias de garrafas de cachaça. Depois que sua mulher o levou às reuniões do AA, recuperou-se e voltou a estudar hoje está na 8ª série. "Até freqüentar o grupo de apoio, nunca tinha ouvido falar que alcoolismo era doença", afirma.

A química cerebral que leva alguém a fumar ou comer demais é a mesma

Do ponto de vista da saúde pública, a luta contra o vício assume proporções epidêmicas. Os psiquiatras estimam que entre dez e quinze pessoas em cada grupo de 100 adultos desenvolvem algum tipo de dependência em relação a substâncias como álcool ou drogas. Isso corresponde a um total de cerca de 13 milhões de pessoas no Brasil. Essa conta mais que dobra se nela forem incluídos os fumantes. Pelo menos 27 milhões de brasileiros (um terço da população adulta) fumam, segundo o Instituto Nacional do Câncer. Deles, 70% querem parar de fumar, mas apenas 3% ao ano conseguem. Dois em cada 100 dólares de riquezas produzidas no país são gastos no tratamento de doenças decorrentes do tabagismo, segundo o Ministério da Saúde. Essa despesa é três vezes maior que o faturamento anual da Souza Cruz, a maior fabricante de cigarros no país. Outra fatia substancial do orçamento da saúde no Brasil é destinado ao tratamento do alcoolismo. Pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, estima que no Brasil o número de liçencas médicas no trabalho devido ao alcoolismo seja o triplo do causado por outras doenças, o que leva a família a utilizar três vezes mais a assistência médica e social.

"Acordava no meio da noite para ir ao bingo. Não podia me controlar."
Patrícia, secretária, 47 anos, ex-viciada em jogo

Desvio de caráter Descobertas científicas recentes estão mudando a forma de entender o comportamento dos dependentes. Até algum tempo atrás, o vício era considerado um desvio de personalidade, próprio de pessoas fracas de caráter e com dificuldade para se relacionar socialmente. Aos poucos, os cientistas estão chegando à conclusão de que a raiz do problema é muito mais biológica do que social. Suas pesquisas conseguem explicar por que determinadas substâncias têm o poder de propiciar momentos tão intensos e fugazes de felicidade artificial. E também por que algumas pessoas caem mais facilmente nas tentações do álcool, do cigarro, da cocaína e de outras drogas, enquanto outras conseguem livrar-se delas sem grande sofrimento.

Foto: Pedro Martinelli
Paulo, no Alcoólicos
Anônimos:
um emprego
perdido e tentativa
de
suicídio bebendo cachaça
  Foto: Marcos Hermes

Tudo isso está relacionado com a química do cérebro. É a produção de uma substância natural chamada dopamina que rege todas as formas de compulsão. Assim como a serotonina, cuja falta é associada às sensações de tristeza e abatimento, a dopamina é a molécula produzida no cérebro para transmitir a sensação de prazer. Ela é liberada a partir de estímulos externos, como um elogio, um beijo, uma boa mão de pôquer ou o consumo de álcool e cigarro (veja quadro). A ciência também está descobrindo que pessoas cujas células cerebrais têm alguma dificuldade em produzir ou liberar dopamina são as mais predispostas ao vício. Elas teriam uma tendência genética a recorrer ao estímulo das drogas ou das emoções fortes, como forma de compensar as deficiências na química natural do cérebro. Esse mesmo mecanismo químico seria capaz de induzir uma pessoa ao vício nas mesas de jogo ou à dependência da cocaína. Isso explica, também, por que muitas pessoas circulam por diferentes formas de vício: abandonam o alcoolismo e se tornam dependentes do fumo, depois largam o cigarro e se tornam comilões compulsivos.

O vício tem raiz biológica

A substituição de uma compulsão por outra é uma peculiaridade marcante no comportamento dos dependentes. Um dos grupos de auto-ajuda que mais recebem migrantes de outras entidades do gênero é o Comedores Compulsivos Anônimos, CCA. Nascido em 1960 em Los Angeles, nos Estados Unidos, o grupo chegou ao Brasil na década passada e expandiu-se rapidamente. Hoje existem 138 CCA espalhados no país, com 1.500 freqüentadores. "Essas pessoas comem muito para preencher algum vazio, que muitas vezes é um outro vício que abandonaram", afirma o endocrinologista Antônio Vieira Gabriel, da Associação Brasileira de Estudos da Obesidade. A maior parte dos comedores compulsivos é obesa e não consegue controlar seus impulsos por meio de remédios. Nas reuniões, são estimulados a fixar o número diário de refeições e a abster-se de determinados alimentos pelos quais têm compulsão. "O contato com outros comedores compulsivos que souberam contornar o problema faz com que aquele que está entrando no grupo melhore e seja incentivado", afirma a assistente administrativa Fernanda, de 33 anos, coordenadora, em Belo Horizonte, da Junta de Serviços Gerais de Comedores Compulsivos do Brasil. "Das pessoas que freqüentam nossas reuniões, 80% aprendem a comer moderadamente."

"Não há dependente mais fiel ao vício do que o tabagista."
João, músico, 36 anos, ex-fumante

Além dos limites Nos grupos de auto-ajuda, as pessoas com tendência natural à compulsão encontram forças para superar seus próprios limites. "Essas entidades dão uma rede de apoio para pessoas que, sozinhas, não teriam estrutura para vencer suas dificuldades", diz o psiquiatra Hermano Tavares, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um caso exemplar é o Jogadores Anônimos, uma organização que só existe há três anos no Brasil. Embora o jogo seja legalmente proibido no país, estima-se que só as casas de bingo sejam freqüentadas por 1 milhão de pessoas. A grande maioria vai a esses lugares apenas para se divertir e encontrar amigos. Uma boa parte, no entanto, acaba viciada em jogo. Em São Paulo existem três grupos de Jogadores Anônimos freqüentados principalmente por dependentes de bingo. São, geralmente, homens e mulheres na meia-idade, que faltam ao trabalho ou deixam os filhos em casa para passar tardes e noites inteiras jogando. "Antes, acordava no meio da noite só para ir ao bingo", afirma Patrícia, uma secretária de 47 anos, que fez sua estréia numa reunião do Jogadores Anônimos antes do Carnaval. "Não conseguia me controlar. Agora, estou há uma semana sem jogar."

Em geral, os viciados em jogatina falam mais abertamente sobre seu problema do que os participantes de outros grupos de ajuda. Fazem piadas envolvendo cartelas de apostas, bolinhas de bingo e cartas de baralho. Mas, na maioria dos casos, estão muito preocupados com dívidas. O problema é alarmante. André, empresário paulista de 40 anos e hoje freqüentador do Jogadores Anônimos, era viciado em videopôquer. Costumava tomar dinheiro emprestado do banco e de amigos para jogar. Para que a família não desconfiasse que estava viciado em jogo, abriu em segredo quatro diferentes contas bancárias. Só decidiu procurar ajuda quando devia cerca de 700 000 reais e começou a receber ameaças dos agiotas. Reuniu a família, contou o que estava acontecendo e prometeu parar de jogar. Vendeu alguns bens para cobrir as dívidas de jogo e, depois de algum tempo, achou que estava curado. Não estava. André convivia com a mulher e os filhos normalmente, mas por dentro só pensava no jogo. "Pensei que tivesse aprendido a lição e que poderia jogar moderadamente", diz. "Voltei ao videopôquer e, um ano e meio depois, já estava novamente devendo 600 000 reais." André só parou de jogar depois de conhecer o grupo Jogadores Anônimos. Há seis meses luta para pagar dívidas pendentes daquele período. "Hoje, se eu vender todos os meus bens, só consigo pagar um terço do que estou devendo."

Receita infalível Nos Estados Unidos, onde há estatísticas mais precisas sobre o vício, os próprios cassinos promovem campanhas e serviços assistenciais contra o jogo compulsivo. Cerca de 5 milhões de americanos são viciados em jogo. Na Holanda, existem 140.000 jogadores classificados como patológicos, quase 1% da população do país. Como as drogas químicas, a compulsão pelo jogo também está relacionada à sensação física que ele produz. "As casas de bingo usam uma receita infalível para criar dependência", diz o psiquiatra Hermano Tavares. "A fórmula combina um jogo de azar, em que novas rodadas se sucedem rapidamente, com um ambiente fechado, onde a luz do sol nunca entra. O ritmo das apostas não deixa tempo para que o jogador calcule o quanto já perdeu. O lugar fechado impede que ele se dê conta de quantas horas já passou ali dentro". Estudos do Hospital das Clínicas de São Paulo mostram que, nas rodadas mais decisivas de bingo, por exemplo, um jogador tem sua freqüência cardíaca e respiratória acelerada na mesma proporção de quem disputa uma corrida de 100 metros rasos ou cheira uma carreira de cocaína. Uma súbita descarga de dopamina no cérebro é a recompensa pela vitória no jogo, enquanto uma eventual derrota obriga o jogador a tentar novamente, em busca dessa sensação prazerosa. "Essas alterações abruptas no metabolismo são fatais para criar dependência", explica o psiquiatra.

Os estudos mostram que cada tipo de droga age de maneira diferente no cérebro. A cocaína bloqueia a absorção da dopamina produzida no organismo. O excesso de neurotransmissor acelera o número de descargas elétricas entre os neurônios e produz sensação de euforia. As anfetaminas obtêm efeito semelhante acelerando a liberação de dopamina, a um ritmo que o cérebro não tem tempo de reabsorvê-la normalmente. A nicotina do cigarro faz as duas coisas simultaneamente: tanto acelera a produção de dopamina quanto cria uma enzima que impede a quebra das moléculas do neurotransmissor. Em todos os casos, o resultado final é sensação artificial de prazer e bem-estar, ainda que momentânea. São sensações tão agradáveis e recompensadoras que o dependente tende a procurá-las cada vez mais, não importa a que preço.

Uma nova vida Pelo efeito químico que provoca e por sua fácil difusão entre os consumidores, o cigarro concorre com o álcool para o posto de vício mais perigoso do planeta. "Não existe viciado mais fiel que o tabagista", afirma João, um músico de 36 anos, freqüentador do grupo Fumantes Anônimos, em São Paulo. Ele fumou durante vinte anos e foi levado ao desespero por crises agudas de falta de ar, durante uma gripe. "Tentei de tudo para largar o cigarro", conta. "Acupuntura, simpatias, nada deu certo." Hoje, com a ajuda do Fumantes Anônimos, João está sem fumar há três anos. Mas ainda não esqueceu o vício. "A sensação de prazer proporcionada pelo cigarro é incomparável." Criados no Brasil em 1980, os grupos Fumantes Anônimos têm ex-dependentes engajados na organização das reuniões em todo o país e na transmissão de sua experiência. Na primeira vez que comparecem a esses encontros, os fumantes que tentam livrar-se do vício recebem um toco de madeira para que possam ocupar as mãos e ter a sensação de estar segurando o cigarro. "Ouvindo histórias de outros fumantes, percebi que era um dependente químico e precisava do apoio do grupo para mudar minha vida", diz João. Esse é um dos aspectos mais animadores das associações de auto-ajuda. Elas têm-se fortalecido tanto no Brasil, e no mundo inteiro, porque exercem um duplo papel de ajuda aos dependentes. Primeiro, conseguem fazê-lo interromper o uso de substâncias viciantes ou desistir de determinadas atividades compulsivas. Depois, dão-lhe suporte e orientação para recompor laços familiares e sociais. Como o próprio nome desses grupos indica, são pessoas anônimas, que nunca se tinham visto antes. E que, uma vez juntas, encontram forças umas nas outras para dar uma guinada no rumo da própria vida.

O sucesso do divã coletivo

Fotos: Claudio Rossi  
Roberto, do Introvertidos Anônimos, e uma reunião
do grupo: a terapia do espelho contra a timidez

A receita de auto-ajuda anônima se mostrou tão útil na recuperação de dependentes químicos que fez surgir grupos para cuidar de uma vasta gama de problemas humanos. Muitos deles se ocupam de problemas emocionais, que antes só eram tratados por psicólogos e psiquiatras. Essas associações adotam a chamada terapia do espelho, em que cada freqüentador conta o próprio drama e se identifica na história do outro. Gente que tem medo de ficar sozinha, não relaxa diante de estranhos, tem dificuldade para falar em público, sofre de insônia ou anda à procura de sentido para a vida lota as salas de reunião desses grupos.

São pessoas como o economista Paco, 59 anos, que há nove procurou ajuda no Emocionais Anônimos no Rio de Janeiro e, mais tarde, levou a experiência do grupo para Cascavel, no Paraná, onde mora hoje. Criado dentro de padrões rígidos de comportamento, ele desenvolveu um perfeccionismo exagerado e sentimento constante de medo e indecisão. Seu desequilíbrio emocional se manifestava especialmente no trabalho. Paco discutia constantemente com os colegas e, em razão do comportamento agressivo, perdeu amigos e oportunidades de promoção. "Os outros eram obrigados a suportar meus erros, mas eu jamais aceitava a falha de alguém", conta. Paco diz que as reuniões do Emocionais Anônimos o ajudaram a controlar a ansiedade e respeitar os limites dos outros. Ainda vai aos encontros do grupo porque não se considera curado. "Doença emocional não tem alta médica", afirma.

Ajudar as pessoas a recuperar a auto-estima e a vontade de viver também é o objetivo do Neuróticos Anônimos, NA, entidade surgida em 1964 nos Estados Unidos e que já tem 450 grupos no Brasil. Foi no NA que a professora Florência, 40 anos, diz ter encontrado meios para livrar-se da depressão. Ela resolveu procurar ajuda quando começou a ter crises de choro constantes e dificuldade para levantar pela manhã. "Demorei um ano para aderir ao grupo porque associava o termo neurótico a coisa de maluco", relata. Hoje comparece religiosamente às reuniões. "Para mim foi mais interessante falar com pessoas que passam por dificuldades iguais às minhas do que recorrer a um tratamento especializado", diz Florência.

Depois de dois anos de pouco progresso em sessões de psicanálise, Roberto, um escrevente de 27 anos, também recorreu ao NA. "Eu estava muito confuso", conta. "Não entendia meus próprios sentimentos nem conseguia falar com as pessoas." No trabalho, andava de cabeça baixa, cumpria passivamente as tarefas que lhe eram determinadas e tinha medo do chefe. Saía sempre sozinho porque não conseguia fazer amigos. Com o tempo, descobriu que suas dificuldades nada tinham a ver com as dos integrantes do Neuróticos Anônimos. Seu problema era outro: a timidez excessiva. Descobriu também a existência do Introvertidos Anônimos, um grupo de auto-ajuda que nasceu em São Paulo há cinco anos e hoje reúne cerca de cinqüenta participantes. "Eu me identifiquei muito com as histórias que ouvi nas reuniões e já progredi bastante", comemora. "Até consigo paquerar sem ficar nervoso."

A auto-ajuda está dando bons resultados até na recuperação de doentes mentais. As reuniões do grupo Psicóticos Anônimos, PA, fundado três anos atrás por Luiz de Barros, ele próprio um doente mental que preferiu sair do anonimato, funcionam como um poderoso instrumento de ressocialização. Mestre em educação pela Universidade de São Paulo, Barros já passou por dez internações psiquiátricas desde o primeiro surto da doença, há 21 anos. Com o envolvimento no PA, passou a ter uma vida mais produtiva e diz não ter perdido mais o controle. "O grupo de auto-ajuda ensina doentes mentais crônicos e incuráveis a conviver com as crises", afirma. "Mas não substituímos os médicos. Eles continuam a ter papel fundamental no tratamento."


 





 


* Todos os personagens desta reportagem são identificados por pseudônimos.

Reportagem de Juliana De Mari, Daniel Hessel Teich e
Pablo Nogueira, de São Paulo, Daniella Camargos,
de Belo Horizonte, e Márcio Pimentel, de Cascavel (PR)




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line