Maílson da Nóbrega
Inflação: lições não aprendidas
"Aprendemos que a inflação inibe o investimento,
conspira contra
o crescimento e é cruel com os pobres. É a mais
perversa forma
de tributar. Resta aprender como manter a estabilidade"
A estabilidade de preços tem sido a regra em praticamente
todo o mundo, mas a inflação foi recorrente nos anos 1960 a 1980.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, chegou perto de 20% anuais. No Brasil,
passou de 100% em 1979.
Duas escolas explicavam o fenômeno, a estruturalista e a
monetarista. Para a primeira, a inflação era uma questão
distributiva em que grupos sociais mais poderosos se apropriavam da renda criada
pelo desenvolvimento. A saída seria enfrentar esse processo. Para a segunda,
a inflação tinha origem monetária. A expansão da
moeda - provocada por um déficit público financiado pelo
Banco Central - aumentava a demanda em um ritmo mais rápido que
o da produção. Era preciso controlar a oferta de moeda.
A visão estruturalista era a de economistas que pensavam
como os da Cepal. Entre os monetaristas, pontificava Milton Friedman. Os estruturalistas,
de esquerda, chamavam os monetaristas de direita. Monetarista era xingamento
hoje equivalente a neoliberal.
A esquerda adorava as "políticas de renda", que
permitiriam combater a inflação sem dor, preservando o crescimento.
Em vez de contrair a moeda, o que provocava recessão, o governo reduziria
a demanda via negociação de salários, lucros e aluguéis.
As políticas de renda fracassaram. Não dava para
coordenar tantos interesses. Nos anos 1980, os países ricos derrotaram
a inflação com medidas monetárias. Os bancos centrais foram
fundamentais. Na década seguinte, foi a vez dos países em desenvolvimento.
O caso brasileiro era singular. Aqui havia a inflação
inercial. Com a indexação generalizada, a inflação
de hoje determinava a de amanhã, que determinava a de depois de amanhã,
e assim por diante. Se os períodos de indexação se reduziam,
a roda se acelerava e a inflação subia sempre.
Para vencer a inércia, havia que quebrar a indexação
para eliminar essa infernal cadeia de transmissão. O recurso ao congelamento
de preços e salários não deu certo. Inventamos uma saída:
convergir todos os preços a um único indexador, que viraria a
própria moeda. Esse foi o desenho do Plano Real (1994), que funcionou.
Antes desse plano, o Brasil esteve próximo dos estruturalistas.
O combate à inflação incluía controle de preços,
intervenções nos mercados agrícolas e no comércio
exterior. Subsidiariamente, havia limites aos empréstimos do Banco do
Brasil e do Banco Central. Depois do plano, a estabilidade foi mantida com medidas
que antes seriam tachadas de monetaristas.
Em 1999, o Brasil adotou o regime em que o governo fixa metas
para a inflação e o BC tem autonomia para persegui-las via manejo
da taxa de juros. Tem dado certo. Outros países latino-americanos fizeram
o mesmo. A inflação alta está hoje restrita aos casos da
infeliz Venezuela e da incompreensível Argentina, onde o BC virou caso
de polícia.
Meio século de tolerância à inflação
formou aqui uma cultura leniente à subida dos preços, que ainda
sobrevive. Nos anos 1950 e 1960, dizia-se que expandir moeda, via crédito,
para aumentar a produção não era inflacionário.
Tese furada, mas muito aceita. Antes de a produção acontecer,
o crédito permitia pagar salários e insumos, elevando a demanda.
Nem todos aprenderam a realidade. Outro dia, conhecido político
paulista assinou artigo em que condenou o combate à alta dos preços
"via diminuição da demanda". O certo seria o "aumento
da produção". Um comentarista defendeu uma tese incrível:
o BC aumenta os juros não para combater a inflação, mas
porque é contra o crescimento.
Um crítico do BC ressuscitou a "política de
rendas". A inflação seria combatida mediante "coordenação
entre as políticas monetária, fiscal, cambial e outras, para que
sejam coerentes entre si e se subordinem conjuntamente a fins econômicos
e sociais definidos pelo poder político da nação".
Bonito, mas errado.
O BC vive sob tiroteio intenso. Sugere-se que receba ordens para
diminuir os juros. Na Fazenda, onde deveria imperar o silêncio sobre juros,
fala-se nisso o tempo todo.
Aprendemos que a inflação inibe o investimento,
conspira contra o crescimento e é cruel com os pobres. É a mais
perversa forma de tributar. Resta aprender como manter a estabilidade. Não
é com ações voluntaristas nem com ideias velhas.
Maílson da Nóbrega é economista |