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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Lotação para o buraco
A história de
Valéria, uma das vítimas
da tragédia de São Paulo,
até parece
inventada, de tão típica
A cena tem algo de... pode parecer
esquisito mas, vá lá... tem algo de Serra Pelada.
Um enorme buraco, misterioso, indecoroso, a exibir os intestinos
do planeta. Em Serra Pelada procurava-se ouro. No buraco aberto
na obra do metrô de São Paulo procuravam-se cadáveres.
São dois objetivos diferentes, mas os dois lugares têm
em comum o fato de tocar em certas cordas primitivas. Serra Pelada,
com aquele montão de gente a fuçar suas entranhas,
retomava um espetáculo bíblico em versão amazônica.
O buraco de São Paulo mexe com temores ancestrais de a terra
se abrir e o que estiver ao redor ser tragado para as profundas
do inferno. Ou com ameaças de castigos bíblicos como
os infligidos aos construtores da torre de Babel ou aos habitantes
de Sodoma e Gomorra.
O buraco de São Paulo
esteve dia após dia, na semana passada, nas imagens da televisão
e nas fotos dos jornais e revistas. Era uma figura entre o absurdo
e o aterrorizante. Ainda mais que o buraco aumentava, como uma bocarra
insatisfeita, e suas paredes se mexiam como coisa viva como,
mal comparando, um estômago mostrado num ultra-som. De vez
em quando retiravam um corpo do buraco. "Foi retirado hoje o corpo
de fulano", noticiava-se. "Corpo de fulano" é expressão
em que carnes e ossos são dissociados da pessoa propriamente
dita, na suposição piedosa de que a pessoa subsiste
no que tinha de mais ela-mesma, a "alma".
Na terça-feira, foi retirado
o corpo de Valéria Alves Marmit, de 37 anos, três filhos.
Junto, emergiu sua história. A história de Valéria
até parece inventada, de tão típica. Soa a
criação de ficcionista interessado em reunir num tipo
único as características de uma ampla parcela da população.
Ela nasceu no Rio de Janeiro. Ainda pequena, ficou órfã
de pai e mãe e foi levada para Aracaju, para ser criada pela
avó. Mais alguns anos e, ainda criança, muda-se para
São Paulo. Ei-la inserida no quadro das migrações
brasileiras. Continuava a ir gente para Serra Pelada mesmo quando
ali não havia mais ouro. Continua-se a ir para São
Paulo mesmo não havendo ali mais empregos.
Valéria foi tratada pela
imprensa como "advogada", mas na verdade ainda não era bem
uma advogada. Terminou o curso de direito em 2005, mas para poder
exercer a profissão faltava ser aprovada no exame da OAB,
e sabe-se como é difícil passar no exame da OAB. Enquanto
isso, ia prestando "serviços externos" a um escritório
de advocacia, segundo explicou um parente. Valéria fez o
curso de direito na Uniban Universidade Bandeirante. É
uma universidade paga, naturalmente as públicas são
para pessoas mais bem aquinhoadas no nascimento. Valéria
pagou a faculdade a duras penas. No 4º ano parou de pagar,
e a faculdade quis impedi-la de freqüentar o curso. Conseguiu
continuar graças a um recurso na Justiça. Por aí
se deduz o valor que dava ao diploma de direito. É o que
corre entre os brasileiros um diploma vale tanto quanto uma
pepita de ouro. (Nota: o curso de direito da Uniban não consta
da relação de cursos recomendados divulgada na semana
passada pela OAB.)
Valéria era dessas pessoas
que moram longe. É uma mania dos brasileiros, essa de morar
longe. E era uma mulher que criava os filhos sem marido. É
uma mania das brasileiras, criar os filhos sozinhas. Morava em Carapicuíba,
uma das mais pobres cidades-dormitório dos arredores de São
Paulo, num apartamento da Cohab. Tinha uma filha de 17 anos e dois
filhos gêmeos de 11, os três dividindo com ela os 40
metros quadrados do apartamento. A filha era de um casamento, os
gêmeos de outro.
Valéria deixa de ser típica
em duas coisas. Primeiro, que tinha um ex-marido de quem continuava
amiga e que lhe prestava assistência tanto que ele,
Wagner Marmit, ficou de plantão no buraco, enquanto não
achavam o corpo, e depois tomou as providências necessárias.
Segundo, que gostava de poesia. Ultimamente andava lendo García
Lorca, de acordo com o ex-marido. Ela volta a ser típica
na mania de tomar múltiplas conduções, a cada
dia. Na sexta-feira 12, ao sair do emprego, tomou uma van. Pensou
que fosse a mesma lotação que, habitualmente, a deixaria
perto da estação onde embarcaria no trem para Carapicuíba.
Em vez disso, era uma lotação para o buraco.
A chance de alguém, entre
os 20 milhões de habitantes da Grande São Paulo, mais
os que estivessem de passagem na região, estar ali, exatamente
na hora em que a terra se abriu e engoliu vans e caminhões,
era provavelmente menor do que ganhar na loteria. Valéria
foi contemplada com essa premiação ao contrário.
Morreu instantaneamente, de politraumatismo, segundo indicaram os
exames do Instituto Médico Legal. Como ocorre em geral com
as vítimas de tragédias, especialmente tragédias
tão incomuns como essa de uma cratera se abrir no asfalto,
saiu do anonimato pela porta errada.*
*As informações
sobre Valéria Marmit foram extraídas de textos das
repórteres Laura Capriglione, na Folha de S.Paulo, e
Adriana Carranca, em O Estado de S. Paulo.
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