Roberto
Pompeu de Toledo
A personagem
do momento
Entre
os excessos
de
Covas e as maldades
da
imprensa, há
um fator que
traz de
volta
o
equilíbrio
Estar
ao lado é uma especialidade das mulheres, como se sabe. Não
que sejam todas iguais. Algumas desenvolvem mais, outras menos,
essa característica. Algumas nem a possuem. E há homens,
embora isso seja raro, que a possuem tanto quanto as mulheres. Mas
há algo intrínseco à condição
feminina, algo de sua natureza profunda, que as torna por excelência
os seres com quem mais se conta, e para os quais mais se volta,
quando o que se requer é uma presença ao lado. Por
"presença ao lado" deve-se entender aqui a presença
física, mas não apenas. É também o ato
de pôr-se disponível, solidarizar-se, entregar-se.
Há uma palavra que resumiria isso tudo, mas pronunciá-la
quem há de? O risco é grande de cair no mau gosto,
no território minado dos dramalhões de folhetim, ou
das pregações de padre. Quem há de? Vá
lá, ousemos dizer o que se deve calar. A palavra é
amor. Dar amor é com as mulheres mesmo. Isso nada tem a ver
com submissão, ou subserviência, ou outro nome que
lembre a opressão que as persegue. Tem a ver com fatores
mais radicais e primitivos. Talvez com o fato de darem à
luz, e depois ainda amamentarem. Cuidar dos outros é um imperativo
que, mais que aos homens, a natureza lhes reservou.
A
que propósito vêm essas considerações
vai-se perceber a seu tempo. Antes, detenhamo-nos no drama do governador
Mário Covas, atacado por um câncer que na semana passada
redobrou de gravidade. Há dois erros de cálculo, nessa
história, tal qual vem se desenrolando aos olhos do público.
O primeiro é do próprio governador, que, a partir
do desejo de não esconder a doença, nem esconder-se
dela, foi longe demais. Contrariando o que até há
pouco era a regra, entre os políticos, ele foi admirável
ao deixar tudo às claras. No país de Tancredo Neves
e de Petrônio Portella, para citar os dois casos mais notórios,
foi um exemplo e tanto. Foi igualmente um exemplo e tanto num mundo
onde os presidentes franceses, de Pompidou a Mitterrand, ou os russos,
de Brejnev a Ieltsin, tentaram, cada qual a seu modo, fixar a doutrina
de que doenças de governantes são segredo de Estado,
e onde o Vaticano, contra todas as evidências, nega que o
papa esteja doente.
Se
Covas cumpriu um dever de honestidade para com os governados, ao
não lhes esconder a doença, excedeu-se no entanto
ao imaginar que, isso posto, cumpria exibi-la. Não precisava
comparecer a eventos arrastando-se, nem discursar com a cabeça
estourando de dor. A esse seu erro de cálculo correspondeu
outro, da imprensa, ou de parte da imprensa, ao aproveitar-se da
situação no que ela tinha de mais constrangedor. Quando
o governador, com problemas de fala, não conseguiu articular
o discurso, numa cerimônia, houve jornal que, com prazer sádico,
registrou fonema por fonema a torrente de expressões sem
sentido que lhe saía da boca. Com Covas insistindo em expor-se,
de um lado, e a imprensa em seu encalço, de outro, caminhava-se
para uma previsível crise e a crise eclodiu na última
terça-feira. O governador, numa cerimônia no Palácio
dos Bandeirantes, irritou-se com o assédio dos repórteres.
"Estou para morrer, podem escrever", disse, ríspido. Depois
tentou caminhar e quase caiu. Foi amparado por assessores. No dia
seguinte, alguns jornais, ignobilmente, publicaram a foto de um
Covas descomposto, os joelhos dobrados, pendurado pelos braços.
Entre
um erro de cálculo e outro, o do governador, submetido a
uma tormenta física e psicológica que só remotamente
se pode calcular, é de caráter benigno. Compreende-se
e releva-se. O da imprensa é maligno. Presa da velha hesitação
entre a informação e o espetáculo, ela cedeu,
nos casos citados, à tentação do espetáculo,
mesmo sendo o espetáculo em questão do mesmo nível
dos programas de vulgar voyeurismo da TV. Mas sigamos em frente.
Não é com uma avaliação dos erros que
se pretende encerrar esse assunto. É com outro de seus aspectos.
Um fator que, entre as destemperanças de um lado e as ignomínias
de outro, tem servido como ponto de equilíbrio.
Esse
fator atende pelo nome de Lila Covas, a mulher do governador. Ela
se tem feito presente como jamais. Em geral fica quieta. Só
intervém em casos extremos, como na ocasião em que
o marido não conseguia articular a fala. Foi ela quem o fez
calar-se. Mesmo quieta, porém, e longe, muito longe, de querer
chamar a atenção, é uma presença de
peso esmagador, nas circunstâncias. Ali não se percebe
apenas Lila Covas. Identifica-se, para além dela, a figura
arquetípica da mulher ao lado, tão visceralmente amarrada
à condição feminina e agora o leitor
compreende por que se demorou tanto em considerações
a respeito. Às vezes ela não agüenta. Até
chora. Em outras fica de mãos dadas com o marido. Na última
quinta-feira, a Folha de S.Paulo publicou uma foto em que,
a uma brincadeira de Covas, ela dá risada. É uma bela
imagem, rara como diamante. Quanto não vale uma risada para
Lila Covas, nos dias que correm? Esta página, mesmo sem autoridade
nem mandato para tanto, elege Lila Covas a personagem do momento,
na cena brasileira.
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