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Vinte e poucos anos

A literatura está cheia de autores precoces
como o poeta romântico Álvares de
Azevedo.
E você, o que está esperando?

Flávio Moura

Ilustração Wander Mendes


Se você tem veleidades literárias, cuidado para não adiar demais aquele projeto de escrever um livro. Esperar pela tal "maturidade" pode ser apenas uma forma de enferrujar boas idéias. Um breve exame da história da literatura confirma: estantes inteiras de obras-primas foram criadas por autores em seus "vinte e poucos anos". Ou até menos. Um caso emblemático é o do francês Arthur Rimbaud. Seus textos fundamentais, que definiram novos rumos na poesia moderna, saíram de sua pena entre os 15 e os 21 anos. A partir dessa idade, ele achou que já não tinha mais nada a dizer. Largou os livros e foi vender armas na África. Outro excelente exemplo é o do brasileiro Álvares de Azevedo. Ele não teve a chance de abandonar a literatura: morreu aos 21 anos, vítima de um tumor na região da bacia. Antes, porém, escreveu algumas centenas de páginas de poesia e prosa, que estão entre as mais importantes do romantismo nacional e podem ser encontradas na nova edição de suas Obras Completas (organização de Alexei Bueno: Nova Aguilar; 849 páginas; 90 reais).

Aos 13 anos, Azevedo dominava francês, inglês e latim. Aos 17, traduziu Shakespeare e Byron e já se exercitava com desenvoltura em prosa, drama e principalmente na poesia. Seus versos eram melancólicos, cheios de presságios lúgubres e antecipações da morte. Um de seus poemas mais famosos chama-se justamente Lembrança de Morrer e basta uma estrofe para que se tenha uma boa idéia de sua arte: Descansem o meu leito solitário/ Na floresta dos homens esquecida,/ À sombra de uma cruz, e escrevam nela:/ – Foi poeta – sonhou – e amou na vida. Nos melhores momentos, de acordo com o crítico Sílvio Romero, ele conseguiu ser lírico e sarcástico ao mesmo tempo – e isso era inédito entre os poetas brasileiros. Todos os românticos que lhe sucederam acabaram influenciados por sua obra. Entre eles o baiano Castro Alves, que acabou se tornando o principal nome da poesia do período. Aliás, Alves foi outro que não precisou viver muito para encontrar seu caminho literário: morreu aos 24 anos.

A precocidade não é privilégio dos românticos. Muitos dos melhores modernistas também começaram cedo. Aos 25 anos, o alemão Thomas Mann escreveu Os Buddenbrooks, romance sobre a decadência de uma família aristocrática que deixou muitos autores experientes no chinelo. O Sol Também Se Levanta, pilar da literatura norte-americana, foi escrito por Ernest Hemingway quando ele contava 26 aninhos. Também não faltam exemplos brasileiros. O Quinze, marco do regionalismo que retrata a seca no Nordeste, foi escrito por uma menina de 19 anos chamada Rachel de Queiroz. Perto do Coração Selvagem, livro de uma maturidade espantosa e alto grau de elaboração literária, Clarice Lispector escreveu antes dos 20 anos. E Ferreira Gullar, talvez o mais importante poeta brasileiro em atividade, já tinha virado o idioma de cabeça para baixo aos 24. "Se eu tivesse começado depois, minha poesia seria muito mais pobre", acredita o poeta. "Há coisas que só a juventude dá." O que seriam essas coisas? O ânimo para organizar movimentos de vanguarda, a coragem de negar o trabalho da geração anterior, o ímpeto de bradar contra a opressão dos costumes e a disposição para manifestar revolta e engajamento político. Se tudo isso for acrescido de uma pitada de genialidade, tanto melhor.

É claro que nem tudo está perdido para os candidatos a escritor mais maduros. Juventude, hoje em dia, é um conceito bem mais elástico do que no tempo de Álvares de Azevedo, quando a expectativa de vida das pessoas não ia muito além dos 40 anos. Além disso, a história da literatura também traz alguns exemplos curiosos de escritores que já eram vetustos senhores quando se consagraram. O português José Saramago é um caso típico. Seu primeiro romance importante saiu quando ele já tinha 54 anos. O mesmo vale para um brasileiro como Pedro Nava, que só começou a publicar para valer depois da curva dos 40. Mas, de maneira geral, se você está na faixa dos 20 e quer entrar para o mundo da literatura pela porta da frente, tenha sempre em mente a frase do pensador francês Michel de Montaigne: "Todas as pessoas que fizeram algo que valesse a pena o fizeram antes dos 30 anos". A menos, é claro, que você seja um Montaigne. Ele já era um quarentão quando começou a escrever os seus famosos ensaios.

 

Outros prodígios

Abaixo, mais razões para um aspirante a escritor deprimir-se com a demora em estrear nas letras

Fotos: Roger Viollet, reprodução Rogério Montenegro, AP, Sérgio Zalis, Ricardo Chvaicer
J.W. Goethe: tinha 24 anos quando escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther. O livro impressionou a juventude européia e causou uma onda de suicídios no continente Arthur Rimbaud: escreveu O Barco Bêbado aos 16 anos. Se tivesse escrito apenas esse poema, já poderia ser considerado um dos autores mais influentes na poesia moderna Castro Alves: escreveu O Navio Negreiro aos 22 anos. O texto é um marco do romantismo brasileiro e o mais célebre poema sobre o tema da abolição

Sylvia Plath: publicou seu primeiro poema aos 8 anos. Cometeu suicídio aos 30, mas deixou textos que fazem dela uma das autoras mais discutidas da atualidade Rachel de Queiroz: publicou O Quinze aos 19 anos. O livro se tornou de imediato uma das principais obras da literatura regionalista
no Brasil
Ferreira Gullar: publicou A Luta Corporal aos 24 anos. Com esse livro, o poeta começou a busca de uma linguagem que desembocaria no concretismo

 

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