Aqui não
tem bobo
Condenados
nos discursos, os subsídios
às exportações são a norma no comércio
internacional

Denise
Ramiro
Wilson Pedrosa/AE
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FHC
chega ao Canadá: sorrisos, elogios e reclamação
explícita
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Rumo
à Ásia, na semana passada, o presidente Fernando Henrique
Cardoso fez uma escala em Vancouver, no Canadá. Sorriu, fez
comentários sobre os totens dos antigos habitantes e elogiou
as paisagens da Colúmbia Britânica, a inóspita
região voltada para o Oceano Pacífico. Mas os anfitriões
vão lembrar-se mesmo é de outro comentário
do presidente brasileiro. Uma reclamação explícita.
"O Canadá está agindo de forma flagrantemente contrária
às normas internacionais de comércio", disse Fernando
Henrique. Comportou-se como os visitantes de países ricos
que costuma receber no Brasil. Fez com que os canadenses percebessem
que está disposto a defender a fabricante brasileira de aviões
Embraer. Ela se sente prejudicada, na concorrência pelo mercado
internacional, por uma ajudinha de 300 milhões de dólares
que o governo canadense liberou para a Bombardier, produtora de
aviões em seu país. Embraer e Bombardier disputam
uma encomenda americana de jatos para vôos regionais no valor
de 2 bilhões de dólares. O recado de FHC não
resolve o problema. É até provável que, desta
vez, a Bombardier ganhe a parada. Mas o Brasil sinalizou que não
é menos esperto que seus concorrentes.
Em debates, congressos e reuniões, os negociadores internacionais
são todos muito corteses, gentis, diplomáticos. Parecem
colegas sinceramente dispostos a se ajudarem mutuamente. Mas é
só aparência. Todos os países querem a mesma
coisa: vender muito e comprar pouco. Para isso, não medem
esforços. De uma forma ou de outra, todos encontram uma maneira
de escapar às recomendações da Organização
Mundial do Comércio (OMC), criada para regular e policiar
o bom comportamento no mercado global. "A OMC é um exercício
internacional de hipocrisia", diz Luiz Olavo Baptista, advogado
especializado em comércio internacional da Universidade de
São Paulo.
Na
quarta-feira passada, uma empresa secular, a Chiquita, foi à
bancarrota porque os europeus se recusaram, silenciosa mas obstinadamente,
a obedecer à OMC. Eles sempre foram grandes importadores
de banana. Isso estimulou a formação de conglomerados
nos Estados Unidos, que se dedicavam a cultivar bananais na América
Latina. Ocorre que, em 1993, os plantadores caribenhos da fruta
se organizaram para pedir preferência no mercado europeu.
Argumentavam que, como ex-colônias, deveriam ser favorecidos.
Os europeus toparam, o que tirou as empresas americanas do negócio.
A Chiquita, a maior exportadora de banana do planeta, já
se chamou United Fruit Company e seus executivos mandaram na América
Central como se fossem vice-reis. Numa ação ousada
em 1954, eles se uniram à CIA, a arapongagem internacional
americana, para derrubar o presidente Jacobo Arbenz, da Guatemala.
Intelectual de centro-esquerda, mas nem de longe um comunista, Arbenz
tivera o desplante de estatizar a empresa-mãe da Chiquita
no país. A justificativa para o golpe foi o suposto apoio
do presidente a uma guerrilha marxista no interior. Anos mais tarde,
descobriu-se que a guerrilha fora armada pela CIA com o apoio da
Chiquita. Foi preciso uma guerra mundial de comércio para
derrotar a poderosa companhia, meio século depois de ela
derrubar presidentes. "Na guerra do comércio internacional,
vencem os mais espertos e os mais fortes. O Brasil está começando
a entender as regras do jogo global em que se meteu", diz Michel
Alaby, vice-presidente da Associação de Empresas Brasileiras
para a Integração do Mercosul.
A
OMC estimula os governos a abrir seus mercados e a jogar limpo.
Por esse receituário, os países podem favorecer seus
exportadores com incentivos fiscais (cujos limites são estabelecidos
caso a caso) e financiamentos compatíveis com as taxas de
juros internacionais. Os subsídios são aceitos desde
que não prejudiquem ninguém. Também se permite
a concessão de benefícios a empresas que estejam relacionadas
a projetos militares, à segurança nacional ou à
preservação do meio ambiente. Inaceitável é
que um governo entregue dinheiro vivo a um empresário para
que seu produto seja vendido a preço menor.
Assim,
sem desobedecer a ninguém, o Japão consegue ser um
dos mais competitivos exportadores de equipamentos eletrônicos
e automóveis. Está certo que suas fábricas
são eficientes, mas, para garantir sucesso, o governo dá
uma mãozinha. Devolve aos exportadores o dinheiro que eles
gastam com o frete. Isso explica por que o transporte de mercadorias
do Japão para a América Latina custa a metade do preço
da mesma rota no sentido inverso. O Jumbo, jato da Boeing lançado
na década de 70, teve seu projeto financiado pelo governo
americano como se fosse um protótipo militar. A história
é velha? Pois atualmente os Estados Unidos subsidiam suas
empresas de telecomunicações com a desculpa de que
satélites são estratégicos para a segurança
nacional.
Outras
formas de protecionismo nem sequer são mencionadas no regulamento
e por isso vêm sendo muito utilizadas. A Europa recusa-se
a comprar produtos geneticamente modificados, alegando que eles
podem prejudicar a saúde de sua população.
Sob o mesmo guarda-chuva sanitário, os americanos fecham
seus portos à carne brasileira e até o Chile regula
a importação de trigo. A proteção à
saúde é um princípio nobre que está
sendo usado para fins escusos. O mesmo ocorre com o direito dos
inventores. Para protegê-los, grande parte dos países
estabeleceu leis de patentes que lhes conferem monopólio
com tempo determinado. O Brasil garante exclusividade ao fabricante
de um novo remédio, desde que ele seja produzido no país.
Caso contrário, a fórmula pode ser copiada por fabricantes
nacionais. Na sexta-feira o governo americano reclamou na OMC contra
o que chamou de "ladrões legalmente autorizados que atuam
no Brasil". A proteção a quem investe em pesquisa
é positiva. Difícil é acreditar que o motivo
da zanga seja esse.
Lamentavelmente
o mundo está longe de ser uma aldeia sem fronteiras. No final
do ano passado a União Européia dispôs-se a
eliminar barreiras aos produtos de países subdesenvolvidos
até 2004. Na última semana adiou o ato de generosidade
para 2008. No universo dos negócios globais, assim como na
quitanda da esquina, não há bobos. Cada um defende
seus interesses.

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