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O governo federal tentou minimizar o problema abrindo um banco, o BNH, para financiar projetos habitacionais. Os Estados criaram as Cohabs para executá-los e as prefeituras contribuíram com a abertura de enormes loteamentos. Por muitos anos, a construção de casas populares foi plataforma obrigatória dos políticos. Vendia-se a idéia de que a solução fora encontrada, mas o que não se falava é que ao empurrar centenas de milhares de pessoas para conjuntos na periferia os governantes estavam apenas adiando a solução real do problema. De um dia para o outro surgiram bairros enormes sem transporte, sem lazer, sem posto médico. Nos últimos trinta anos, a área das metrópoles aumentou muito. No caso de São Paulo e Porto Alegre, por exemplo, a mancha urbana que ocupam ficou cinco vezes maior no período. Mas o grosso dos equipamentos públicos ficou restrito àquele pequeno núcleo original que definia as capitais nos anos 70. Não se distribuiu pela enorme mancha urbana que se foi espalhando em volta das metrópoles.


Caio Guatelli/AE
Carros só circulam em uma parte das ruas. As vias são estreitas


Toda vez que os povos mudam de lugar, ou seja, migram, o impacto social é brutal. E existe uma ligação umbilical entre as transformações que atingem um país e as correntes migratórias. A História registra migrações nos casos de transformação política nas sociedades: colonização, guerras e trocas de regime político. As correntes também ocorreram quando a transformação tinha origem econômica. Quando os povos mudam de lugar, fica para trás a estrutura que montaram ao longo de uma vida. À frente, há apenas barro, mosquito e a esperança de um amanhã melhor. Com a Revolução Industrial, as cidades inglesas passaram a drenar a população do campo. Surgiram os distritos industriais e os bairros-dormitório. Em 1801, Londres tinha 864.000 habitantes. Em 1891, ultrapassou a casa dos 4 milhões de pessoas. Em menos de um século sua população havia quintuplicado. Em toda a Inglaterra, o número de cidades com mais de 100.000 habitantes passou de duas para trinta entre 1800 e 1895. O processo se repetiu por toda a Europa, principalmente na Alemanha e na França – e atingiu os Estados Unidos. Como o crescimento é desordenado, ele ocorre quase sempre em velocidade superior à capacidade das autoridades de contê-lo.

 
Edson Ruiz
Em Salvador, até dez bares disputam espaço na mesma rua

 

O lazer

Os estudiosos dizem que ir ao bar é uma das únicas distrações dos moradores da periferia. O quadro mostra quais são as principais características desses locais

A maioria dos bares da periferia são clandestinos

A bebida mais consumida é a cachaça

Uma dose de pinga é cotada a 15 centavos

Nos finais de semana, os índices de violência dobram nos bares da periferia

Um terço dos crimes no Brasil é cometido por pessoas embriagadas

No caso de Londres, que se transformou na maior cidade do mundo na virada do século XX, com 6,6 milhões de habitantes, contabilizava-se 1 milhão de pessoas vivendo em condições miseráveis. Famílias inteiras, com até oito pessoas, ocupavam um único quarto. As taxas de crime eram preocupantes. Bandidos e pivetes atacavam os transeuntes nas principais ruas da cidade, como a Regent e a Oxford Street. Ganhavam num dia de roubo o mesmo que ganhariam se conseguissem vender 1.300 caixas de fósforo. Londres era um lugar tão ruim no final do século passado que um editorial de jornal escreveu sobre o horror dos cortiços: "O grande problema doméstico que a religião, o humanitarismo e as instituições políticas da Inglaterra têm o imperativo dever de resolver". O assunto virou tema de uma Comissão Real para o Problema das Classes Trabalhadoras, uma espécie de CPI daquele tempo. Descobriu-se o que hoje se considera óbvio. Os ingredientes daquela miséria eram uma mistura de pobreza, aluguéis altos, governo incompetente, corrupção e falhas no que diz respeito aos valores morais. No caso de Londres, o inchaço da cidade não fez surgir a periferia. Ao contrário, ela apareceu como uma forma de redistribuir as pessoas, tirando os miseráveis dos cortiços. Foram acomodados em casas decentes longe do centro.

 
Ricardo Benichio
São Paulo: até quatro famílias para dividir o mesmo teto

 

A casa

Observe no quadro quais são as características típicas de uma residência de periferia

A construção é de alvenaria, sem acabamento nem pintura

É habitada por cinco pessoas, em média

Possui 12 metros quadrados de área útil

Vale 3 000 reais no mercado

Um dos maiores desafios de uma cidade, e ele deve envolver as forças políticas, empresários e líderes comunitários, é erradicar a pobreza. A conclusão da tarefa é uma daquelas utopias, mas não dedicar tempo e energia a isso é uma insanidade. Nas metrópoles brasileiras se observam hoje manifestações de pobreza em diferentes estilos, por assim dizer. Há os moradores de rua, muitos deles crianças. Entre os diferentes estágios da pobreza, essa é a mais fácil de combater. Outra manifestação são as favelas erguidas nas regiões mais centrais da cidade. Diferentemente da periferia, têm ônibus na porta, escolas, hospitais e até mesmo lazer de final de semana. Em alguns casos, como na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, oferecem aos moradores locadoras de vídeo, bancos e academias de ginástica. Anunciou-se recentemente a construção de uma universidade na Rocinha.

 
Eduardo Albarello
O território é das vans: alternativa onde não chegam os ônibus

 

O transporte

As vans se tornaram o principal meio de transporte coletivo nas regiões periféricas

Cerca de 80% das vans em circulação são utilizadas para fazer o transporte de passageiros entre o subúrbio e o centro das cidades

Em São Paulo a frota de vans supera a de ônibus

Os perueiros chegam a faturar 2 000 reais por mês

Fontes: SPTrans, Kia Motors do Brasil e PM

A vida é muito mais dura na periferia. Do ponto de vista geográfico, periferia é a fatia mais externa de uma cidade, a camada mais distante do centro. Do ponto de vista social, a periferia é aquele pedaço de chão que está mais distante do aparelho do Estado, é um lugar onde o ônibus não vai, só as vans. Percebe-se que a periferia está próxima quando os outdoors e o comércio tradicional vão ficando para trás e as avenidas largas, cercadas por construções espaçadas, começam a se bifurcar em ruas cada vez mais estreitas ladeadas por casas grudadas umas nas outras. É para economizar espaço e aproveitar a parede do vizinho, explicam os moradores.

 
Oscar Cabral
Rocinha, no Rio: a maior favela do país está ganhando as melhorias comuns nos bairros de classe média

 

Favela é diferente

Incrustada num morro do Rio de Janeiro, a Rocinha é uma das maiores favelas da América Latina. Pela estrutura que oferece, pouco se parece com a periferia.

A Rocinha possui:

2 supermercados

2 bancos

5 academias de ginástica

7 videolocadoras

9 farmácias

Tais bairros não conhecem redes de supermercados, redes de drogarias e cadeias de fast food, pois esses estabelecimentos não se instalam na periferia com medo de assalto. Em praticamente toda rua funciona algum tipo de comércio precário: barec, mercadinhos, farmácias, lojas de quinquilharias. Mais de 90% das casas da periferia são erguidas pelos próprios donos. Um modelo padrão ocupa terreno de 50 metros quadrados e tem quatro cômodos sem reboco. Tudo, com o terreno, fica em 3 000 a 10.000 reais, no máximo. As casas debruçam-se sobre ruelas tortas que se vão bifurcando e estreitando até ficarem com 2,5 metros de largura onde os carros não podem chegar. Milhares dessas vias tortuosas se combinam numa teia de aranha. Existem apenas algumas ruas que, como artérias para o coração, permitem a passagem dos veículos que coletam passageiros ou entregam mercadorias em pequenos bares e mercearias.

 
Marcelo Ximenez
Marcelo Ximenez
O rapper Mano Brown: hits sobre a "vida no inferno"

Como a periferia se concentra nos limites de cada município, muitas vezes fica difícil saber qual prefeito é o responsável por seu destino. O esclarecimento da dúvida não autoriza um prefeito a jogar a responsabilidade para o outro lado da fronteira. Por essa razão, não se pode discutir o assunto como se periferia fosse um problema local. Virou um assunto municipal, estadual, federal. É, na verdade, o chamado "problema de todos nós". Muitos já perceberam isso, como o cantor Netinho, que realiza um belo trabalho na periferia de São Paulo, e a sanitarista Zilda Arns, indicada pelo governo brasileiro para o próximo Prêmio Nobel da Paz. Zilda cuida de crianças em mais de 3.000 municípios em parceria com a Igreja Católica. Outro trabalho importante é realizado pelos evangélicos, que são os primeiros a se instalar nos bairros longínquos. Só os botequins chegam antes deles.

São iniciativas bem-vindas e devem ser estimuladas, mas nenhuma delas tem o poder de combater a miséria com eficácia. Para isso, o Estado precisa agir com energia e responsabilidade. A primeira medida a ser adotada é tentar frear o processo de periferização. Os especialistas gostam de citar o exemplo de Londres. Após a II Guerra, as autoridades londrinas se viam às voltas com um processo de expansão veloz da cidade. O problema foi contido com a criação de um cinturão verde de produção agrícola à sua volta. A faixa de plantação funcionou como uma barreira vegetal. Freado o crescimento, é preciso adotar medidas de duas ordens. Onde houver construções irregulares que ofereçam risco para quem lá mora, a única saída é a remoção das pessoas.



Para melhorar a qualidade de vida nos bairros populares, há várias experiências bem-sucedidas. Nos países asiáticos, os prefeitos estão formando consórcios para otimizar os recursos públicos disponíveis nas regiões metropolitanas. Os países mais ricos investem pesado na reconstrução de bairros inteiros. Só nos Estados Unidos, mais de 100.000 moradias localizadas em conjuntos habitacionais de regiões pobres foram demolidas para que a população seja espalhada por bairros com características sociais e econômicas mais heterogêneas. No Brasil, já há alguns prefeitos se mexendo. O ABC paulista já conta com um consórcio de prefeitos. Em menor grau, alguns bairros também estão sendo reconstruídos, prioritariamente os localizados em áreas de risco. Contudo, o modelo mais comum adotado no país é a urbanização dos bairros periféricos. Nessa área o país coleciona experiências bem-sucedidas e os especialistas acham que podem aproveitá-las. Os estudiosos em administração pública, no entanto, são unânimes: ninguém vai resolver o problema sem acabar com a demagogia e o desperdício de dinheiro público.

 

Colaboraram Kristhian Kaminski, Patrícia Queiroz e Ricardo Mendonça, de São Paulo, Diogo Shelp, de Porto Alegre, Leonardo Coutinho, de Salvador, Lucila Soares do Rio de Janeiro, Marcio Pacelli, de Brasília, e Raul Juste Lores, de Buenos Aires

 

 

 

Reprodução
Londres, em 1900: um quinto dos moradores vivendo na miséria
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