A explosão
da periferia
Crime,
desemprego e miséria: uma tragédia
brasileira em torno das grandes metrópoles
Alexandre
Secco e Larissa Squeff
Lalo de Almeida/Folha Imagem
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| Detalhe
da periferia de São Paulo: uma das maiores aglomerações de miséria
em zona urbana no mundo |
Atenção,
se você acha que as metrópoles brasileiras já
são lugares quase irrespiráveis, de tanto crime, bagunça
no trânsito, horas perdidas e também feiúra
arquitetônica, prepare-se para coisa muito pior, se nada for
feito para reverter a situação. Observe:
Nos
últimos dez anos, a população das oito regiões
metropolitanas (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte,
Vitória, Porto Alegre, Curitiba, Recife e Salvador) saltou
de 37 milhões para 42 milhões de habitantes. Agora,
o mais surpreendente: nesse período, a taxa de crescimento
das periferias dessas cidades foi de 30% contra 5% das regiões
mais ricas.
Ampliando-se a análise para as 49 maiores cidades do país,
m 80 milhões de pessoas, obtém-se uma visão
mais completa do fenômeno. Nos últimos vinte anos,
a periferia dessas cidades correspondia a um terço da população.
Agora, equivale a quase metade do total dos moradores. Deverá
ser maioria em cinco anos.
De
1996 para cá, a renda per capita nas cidades médias
brasileiras aumentou 3%. No caso das periferias das grandes cidades,
a renda caiu 3%.
Há
dez anos, a periferia das grandes cidades apresentava taxas na casa
de trinta homicídios por 100.000
habitantes. Atualmente, em algumas dessas áreas pobres o
índice chega a 150 mortos por 100.000
habitantes padrão colombiano. O aumento dos índices
coincidiu com um período de pesados investimentos feitos
em segurança por quase todos os
Estados. Apesar dos investimentos em armas, viaturas e presídios,
além de programas de assistência social, a criminalidade
não perdeu seu vigor.
Em
outras palavras, o alarme da periferia está soando
em alto e bom som. As periferias estão ficando mais inchadas,
mais violentas e mais pobres. De acordo com um estudo publicado
pelo economista Hamilton Tolosa, do Conjunto Universitário
Cândido Mendes, se o Brasil crescer a taxas moderadas, de
4% a 5%, durante uma década, as desigualdades sociais tendem
a melhorar em todo o país, mas devem piorar consideravelmente
nos grandes centros urbanos e, em particular, nas áreas metropolitanas.
"As autoridades precisam agir logo. A bomba está estourando
agora", diz o urbanista brasileiro Jonas Rabinovitch, uma autoridade
mundial em cidades.
Edison Vara
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| Culto
evangélico em Porto Alegre: valores morais e regras de convívio |
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O
poder dos templos
As igrejas evangélicas encontram nas
periferias um terreno fértil para seu crescimento
Ao lado dos bares,
os templos são os primeiros estabelecimentos que costumam
surgir na periferia
O número de
evangélicos no subúrbio é três
vezes maior que o registrado nos centros das cidades
A igreja de maior
penetração é a Assembléia de Deus
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O inchaço
da periferia e a deterioração das cidades são
tema de discussão mundial e atingem principalmente as megacidades,
quase todas localizadas em países pobres ou em desenvolvimento.
Cinturões de miséria semelhantes aos que se vêem
no Brasil podem ser encontrados na Cidade do México, em Bombaim,
na Índia, em Jacarta, na Indonésia, e na Cidade do
Cabo, na África do Sul. Nesses lugares, o subúrbio
paupérrimo é fruto de um crescimento desordenado.
O caso brasileiro, no entanto, é único sob certo aspecto.
Todas as nações que enfrentam o problema convivem
com um, dois ou três casos de expansão da periferia.
No Brasil, esse fenômeno pode ser constatado em quase cinqüenta
cidades. Isso acontece porque, no bloco dos países mais pobres
com grande população, nenhum possui a taxa de urbanização
brasileira, hoje acima de 80%. Na Índia, 72% do país
vive no campo. Na China, as cidades agrupam 31% da população.
"O tipo de problema é o mesmo dos demais países, mas
a extensão não tem paralelo em todo o mundo", diz
a urbanista Raquel Rolnik, da Pontifícia Universidade Católica
de Campinas.
Flavio Torres
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| O
pagodeiro Netinho: sucessos inspirados na infância vivida
na periferia de São Paulo |

A periferia
sempre foi um lugar tremendamente ameaçador para seus moradores.
Quem acharia razoável viver numa região que reúne
praticamente todos os defeitos que uma cidade pode ter? As ruas
não têm calçamento e se alagam quando chove.
Os bairros não possuem hospital nem dentistas. Em boa parte
das casas, a água encanada e o esgoto são obtidos
apenas com ligação clandestina de forma que,
em muitos casos, os detritos correm a céu aberto. Praça
e área verde são artigos de luxo. Como não
há coleta de lixo, os moradores servem-se dos rios e vivem
num ambiente poluído e cheio de doenças. As casas
são erguidas em lotes sem calçada e o terreno é
tão estreito que não estimula o plantio de árvores.
Isso sem falar no policiamento, que é raro, nas taxas de
criminalidade, nos donos das bocas-de-fumo, nas chacinas. E o que
dizer do salário? Para atingir o rendimento anual do morador
de um bairro mais central, o habitante da periferia precisa trabalhar
durante quase seis anos.
Os
moradores desses bairros populares querem melhorias e têm
direito a isso. Na verdade, sairiam da periferia para bairros mais
bem assistidos, se pudessem. A novidade é que, além
de castigá-los, a periferia incomoda também o habitante
dos bairros de classe média alta e da elite. É como
se uma espécie de Muro de Berlim tivesse sido derrubado.
As regiões mais abastadas das metrópoles estão
conhecendo de perto, e com grande intensidade, o impacto da chegada
da miséria. Como a periferia não oferece hospitais,
as unidades de saúde dos bairros mais centrais vivem lotadas.
Muitas das vilas de periferia se situam em áreas de mananciais,
que alimentam rios e represas usados para captação
de água. Como na periferia não há coleta regular
de lixo nem sistema de esgoto, tudo acaba sendo jogado nos córregos
que vão poluir os rios mais adiante. Isso quando bairros
populares não surgem diretamente em torno das represas urbanas.
A manifestação mais preocupante, no entanto, verifica-se
no campo da segurança. Até alguns anos atrás,
apenas os moradores das áreas populares viviam em pânico,
não saíam à noite e corriam o risco de ver
um amigo ou parente ser assassinado por marginais. Embora a criminalidade
seja ainda muito mais acentuada nos bairros pobres, o medo que antes
era só deles migrou para as áreas mais ricas das grandes
cidades.
Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem
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| Zilda
Arns: noções básicas de saúde contra
a fome e a mortalidade |
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Socorro
aos mais pobres
A
pediatra e sanitarista Zilda Arns foi indicada na semana passada
para o Prêmio Nobel da Paz pelo governo brasileiro.
Coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda
dedica-se a melhorar as condições de vida nos
bolsões de pobreza dos pequenos e médios municípios
A pastoral atua em 3 277 municípios brasileiros
São 130 000 voluntários
Mais de 90% dos locais concentram-se na periferia das cidades
Atende por mês 60 000 gestantes e 1,5 milhão
de crianças
Nas áreas em que atua, a pastoral conseguiu reduzir
pela metade os índices de mortalidade e desnutrição
infantil
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O surgimento
da periferia é decorrente de uma transformação
profunda ocorrida no Brasil nas últimas décadas, que
é a urbanização. Quando o campo entrou em colapso
por excesso de gente e falta de oportunidades, começou uma
intensa migração rumo às capitais industrializadas.
Em apenas duas décadas, 20 milhões de pessoas se mudaram
em busca dos confortos e das oportunidades que imaginavam desfrutar
nas grandes cidades. Foi um dos processos de urbanização
mais acelerados e caóticos já vistos no mundo. Em
1970, pela primeira vez, a população urbana superou
a rural. A migração não produziria grandes
problemas se as cidades às quais as periferias estão
ligadas pudessem gerar riqueza suficiente para oferecer condições
de vida satisfatórias aos que chegam. O Brasil não
conseguiu fazer isso.
Ricardo Benichio
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| Dura
realidade: na periferia a criminalidade é maior e o número
de policiais, menor |
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A
polícia que funciona
Uma
boa arma no combate à criminalidade na periferia tem
sido o policiamento comunitário. Ele já é
adotado em mais de 100 cidades. Veja como o sistema funciona
As mesmas equipes de policiais fazem a ronda no bairro, o
que ajuda a criar um vínculo maior com os moradores
Os policiais participam de discussões sobre os principais
problemas de segurança da comunidade
Em São Paulo, o sistema reduziu o índice de
roubos de 49% para 33%
Em Belo Horizonte diminuiu em 6% as tentativas de homicídio
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