Brasil Especial

Esta semana
Sumário
Brasil
O agravamento da doença de Mário Covas
Como o câncer dos famosos afeta os doentes comuns
Novas revelações sobre o financiamento de Cuba à guerrilha
Peritos apontam falhas na segurança do Xuxa Park
Subprocurador é investigado por ligação com máfia no exterior
O prefeito petista da terra de Lula dá emprego à família
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

A explosão da periferia

Crime, desemprego e miséria: uma tragédia
brasileira em torno das grandes metrópoles

Alexandre Secco e Larissa Squeff

 
Lalo de Almeida/Folha Imagem
Detalhe da periferia de São Paulo: uma das maiores aglomerações de miséria em zona urbana no mundo

Atenção, se você acha que as metrópoles brasileiras já são lugares quase irrespiráveis, de tanto crime, bagunça no trânsito, horas perdidas e também feiúra arquitetônica, prepare-se para coisa muito pior, se nada for feito para reverter a situação. Observe:

Nos últimos dez anos, a população das oito regiões metropolitanas (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre, Curitiba, Recife e Salvador) saltou de 37 milhões para 42 milhões de habitantes. Agora, o mais surpreendente: nesse período, a taxa de crescimento das periferias dessas cidades foi de 30% contra 5% das regiões mais ricas.

Ampliando-se a análise para as 49 maiores cidades do país, m 80 milhões de pessoas, obtém-se uma visão mais completa do fenômeno. Nos últimos vinte anos, a periferia dessas cidades correspondia a um terço da população. Agora, equivale a quase metade do total dos moradores. Deverá ser maioria em cinco anos.

De 1996 para cá, a renda per capita nas cidades médias brasileiras aumentou 3%. No caso das periferias das grandes cidades, a renda caiu 3%.

Há dez anos, a periferia das grandes cidades apresentava taxas na casa de trinta homicídios por 100.000 habitantes. Atualmente, em algumas dessas áreas pobres o índice chega a 150 mortos por 100.000 habitantes – padrão colombiano. O aumento dos índices coincidiu com um período de pesados investimentos feitos em segurança por quase todos os Estados. Apesar dos investimentos em armas, viaturas e presídios, além de programas de assistência social, a criminalidade não perdeu seu vigor.

 

Em outras palavras, o alarme da periferia está soando – em alto e bom som. As periferias estão ficando mais inchadas, mais violentas e mais pobres. De acordo com um estudo publicado pelo economista Hamilton Tolosa, do Conjunto Universitário Cândido Mendes, se o Brasil crescer a taxas moderadas, de 4% a 5%, durante uma década, as desigualdades sociais tendem a melhorar em todo o país, mas devem piorar consideravelmente nos grandes centros urbanos e, em particular, nas áreas metropolitanas. "As autoridades precisam agir logo. A bomba está estourando agora", diz o urbanista brasileiro Jonas Rabinovitch, uma autoridade mundial em cidades.

 
Edison Vara
Culto evangélico em Porto Alegre: valores morais e regras de convívio

 

O poder dos templos

As igrejas evangélicas encontram nas periferias um terreno fértil para seu crescimento

Ao lado dos bares, os templos são os primeiros estabelecimentos que costumam surgir na periferia
O número de evangélicos no subúrbio é três vezes maior que o registrado nos centros das cidades
A igreja de maior penetração é a Assembléia de Deus

O inchaço da periferia e a deterioração das cidades são tema de discussão mundial e atingem principalmente as megacidades, quase todas localizadas em países pobres ou em desenvolvimento. Cinturões de miséria semelhantes aos que se vêem no Brasil podem ser encontrados na Cidade do México, em Bombaim, na Índia, em Jacarta, na Indonésia, e na Cidade do Cabo, na África do Sul. Nesses lugares, o subúrbio paupérrimo é fruto de um crescimento desordenado. O caso brasileiro, no entanto, é único sob certo aspecto. Todas as nações que enfrentam o problema convivem com um, dois ou três casos de expansão da periferia. No Brasil, esse fenômeno pode ser constatado em quase cinqüenta cidades. Isso acontece porque, no bloco dos países mais pobres com grande população, nenhum possui a taxa de urbanização brasileira, hoje acima de 80%. Na Índia, 72% do país vive no campo. Na China, as cidades agrupam 31% da população. "O tipo de problema é o mesmo dos demais países, mas a extensão não tem paralelo em todo o mundo", diz a urbanista Raquel Rolnik, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

 
Flavio Torres
O pagodeiro Netinho: sucessos inspirados na infância vivida na periferia de São Paulo

 

A periferia sempre foi um lugar tremendamente ameaçador para seus moradores. Quem acharia razoável viver numa região que reúne praticamente todos os defeitos que uma cidade pode ter? As ruas não têm calçamento e se alagam quando chove. Os bairros não possuem hospital nem dentistas. Em boa parte das casas, a água encanada e o esgoto são obtidos apenas com ligação clandestina – de forma que, em muitos casos, os detritos correm a céu aberto. Praça e área verde são artigos de luxo. Como não há coleta de lixo, os moradores servem-se dos rios e vivem num ambiente poluído e cheio de doenças. As casas são erguidas em lotes sem calçada e o terreno é tão estreito que não estimula o plantio de árvores. Isso sem falar no policiamento, que é raro, nas taxas de criminalidade, nos donos das bocas-de-fumo, nas chacinas. E o que dizer do salário? Para atingir o rendimento anual do morador de um bairro mais central, o habitante da periferia precisa trabalhar durante quase seis anos.

Os moradores desses bairros populares querem melhorias e têm direito a isso. Na verdade, sairiam da periferia para bairros mais bem assistidos, se pudessem. A novidade é que, além de castigá-los, a periferia incomoda também o habitante dos bairros de classe média alta e da elite. É como se uma espécie de Muro de Berlim tivesse sido derrubado. As regiões mais abastadas das metrópoles estão conhecendo de perto, e com grande intensidade, o impacto da chegada da miséria. Como a periferia não oferece hospitais, as unidades de saúde dos bairros mais centrais vivem lotadas. Muitas das vilas de periferia se situam em áreas de mananciais, que alimentam rios e represas usados para captação de água. Como na periferia não há coleta regular de lixo nem sistema de esgoto, tudo acaba sendo jogado nos córregos que vão poluir os rios mais adiante. Isso quando bairros populares não surgem diretamente em torno das represas urbanas. A manifestação mais preocupante, no entanto, verifica-se no campo da segurança. Até alguns anos atrás, apenas os moradores das áreas populares viviam em pânico, não saíam à noite e corriam o risco de ver um amigo ou parente ser assassinado por marginais. Embora a criminalidade seja ainda muito mais acentuada nos bairros pobres, o medo que antes era só deles migrou para as áreas mais ricas das grandes cidades.

 
Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem
Zilda Arns: noções básicas de saúde contra a fome e a mortalidade

 

Socorro aos mais pobres

A pediatra e sanitarista Zilda Arns foi indicada na semana passada para o Prêmio Nobel da Paz pelo governo brasileiro. Coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda dedica-se a melhorar as condições de vida nos bolsões de pobreza dos pequenos e médios municípios

A pastoral atua em 3 277 municípios brasileiros

São 130 000 voluntários

Mais de 90% dos locais concentram-se na periferia das cidades

Atende por mês 60 000 gestantes e 1,5 milhão de crianças

Nas áreas em que atua, a pastoral conseguiu reduzir pela metade os índices de mortalidade e desnutrição infantil

O surgimento da periferia é decorrente de uma transformação profunda ocorrida no Brasil nas últimas décadas, que é a urbanização. Quando o campo entrou em colapso por excesso de gente e falta de oportunidades, começou uma intensa migração rumo às capitais industrializadas. Em apenas duas décadas, 20 milhões de pessoas se mudaram em busca dos confortos e das oportunidades que imaginavam desfrutar nas grandes cidades. Foi um dos processos de urbanização mais acelerados e caóticos já vistos no mundo. Em 1970, pela primeira vez, a população urbana superou a rural. A migração não produziria grandes problemas se as cidades às quais as periferias estão ligadas pudessem gerar riqueza suficiente para oferecer condições de vida satisfatórias aos que chegam. O Brasil não conseguiu fazer isso.

 
Ricardo Benichio
Dura realidade: na periferia a criminalidade é maior e o número de policiais, menor

 

A polícia que funciona

Uma boa arma no combate à criminalidade na periferia tem sido o policiamento comunitário. Ele já é adotado em mais de 100 cidades. Veja como o sistema funciona

As mesmas equipes de policiais fazem a ronda no bairro, o que ajuda a criar um vínculo maior com os moradores

Os policiais participam de discussões sobre os principais problemas de segurança da comunidade

Em São Paulo, o sistema reduziu o índice de roubos de 49% para 33%

Em Belo Horizonte diminuiu em 6% as tentativas de homicídio

 

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco