Capitalismo
nas aldeias
Tribos
brasileiras comercializam produtos
e ganham mercado
Maurício
Lima, de Brasília
Jayme de Carvalho Jr/Folha Imagem
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| Produção
de manga por índios terenas: 80 000 reais |
A aldeia
dos índios iauanauás, no Acre, ganhou um posto de
saúde e um computador. Os saterês-maués, no
Amazonas, conseguiram construir uma pequena escola. Os banivas,
na Floresta Amazônica, estão comprando geladeiras para
suas casas de alvenaria. A vida em algumas aldeias brasileiras está
diferente, e as verbas liberadas pela Fundação Nacional
do Índio (Funai) não são o motivo dessa transformação.
Dessa vez, as mudanças foram proporcionadas com dinheiro
dos próprios índios, fruto de operações
comerciais entre as aldeias e algumas empresas. Hoje, os iauanauás
vendem urucum para a indústria de cosméticos americana
Aveda, que usa a matéria-prima na fabricação
de um batom especial, muito apreciado na Europa e nos Estados Unidos.
Os saterês-maués exportam guaraná para a Comunidade
Econômica Européia (CEE). Só em 2000 foram 10
toneladas. Os banivas vendem cestas para uma grande loja de decoração
brasileira. No ano passado, despacharam 1.200
dúzias para a sede da empresa.
"As
trocas comerciais não são uma novidade entre os índios.
A diferença agora é o grau de organização
na produção e na comercialização do
produto", diz o antropólogo e indianista Carlos Alberto Ricardo.
Segundo um recente levantamento da Funai, houve na última
década um aumento de 45% no número de tribos com pequenas
indústrias instaladas. Isso significa que existem 312 comunidades
indígenas no país que manipulam matérias-primas
para comercializá-las. Calcula-se que essa atividade gere
algo como 4 milhões de reais em todo o Brasil e envolva 25%
dos índios brasileiros. Ainda é pouco, mas é
um movimento que praticamente não existia e vem se multiplicando
com rapidez entre as tribos. Os ventos capitalistas nas aldeias
sopram ao embalo de dois fenômenos. O primeiro é a
participação de organizações não
governamentais. Na maioria absoluta dos casos, foram elas que incentivaram
os nativos a iniciar uma produção constante com base
na vocação natural da aldeia. O Instituto Socioambiental,
uma ONG paulista, cuida de dois projetos importantes: a venda de
mogno pelos xicrins, do Pará, que antes negociavam de maneira
ilegal com as madeireiras da Amazônia, e a comercialização
de cestas dos banivas. A Couro Vegetal S.A., do Rio de Janeiro,
organiza a produção de borracha dos caxinauás
para o exterior.
O
outro fenômeno é o interesse de empresas principalmente
estrangeiras em produtos feitos pelos indígenas brasileiros.
Além da americana Aveda, companhias como a italiana Pirelli
e a francesa Hermès estão desenvolvendo projetos de
parceria com os índios do Brasil. No exterior, produtos confeccionados
por nativos vêm conquistando fatias de mercado graças
a um marketing elaborado por essas empresas para explorar o charme
de artigos naturais. "Existem consumidores fiéis que compram
nosso produto apenas porque é feito dessa maneira", diz May
Waddington, representante da Aveda no Brasil. O aumento das atividades
comerciais dos índios não é unanimidade entre
os especialistas da área. Há uma corrente de pesquisadores
e antropólogos que vem demonstrando temor à novidade.
A principal preocupação é a adaptação
dos indígenas ao processo de escala industrial. O raciocínio
leva em conta que o interesse das empresas e o sucesso desse tipo
de produto obrigarão as tribos a aumentar sua produção.
"É preciso cuidado. A lógica dos índios é
diferente", diz Luiz Zytkuewisz, antropólogo e consultor
da Unesco.
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