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Motoboys do ar

Os acidentes de avião grande
matam muita gente. Aeronaves
menores matam muito mais

Leonardo Coutinho

Ladolfo
Restos do bimotor que levava os donos da Mabel: mau tempo e piloto com habilitação vencida

Nos últimos dez anos, os desastres com aeronaves de pequeno porte foram responsáveis por 987 das 1 090 mortes em acidentes aéreos ocorridos no Brasil. Há pouco mais de uma semana, em menos de 48 horas, caíram três aviões bimotores, que mataram todos os tripulantes e passageiros: onze pessoas no total. Num quarto acidente, ninguém ficou ferido, mas o aparelho incendiou-se depois de um pouso de emergência. Para o Departamento de Aviação Civil (DAC), órgão que fiscaliza o setor e investiga todas as ocorrências, a fragilidade dos vôos com aeronaves menores, ao contrário do que parece, não está no tamanho das máquinas. São a irresponsabilidade, a imprudência e a imperícia de pilotos ou proprietários as maiores razões dos desastres. Há quem voe sem dar manutenção nos aparelhos. Existem profissionais destreinados. Mecânicos de fundo de quintal são chamados para fazer gambiarras em sistemas que mal conhecem.

"Grande quantidade de acidentes acontece com pilotos que arriscam conduzir aviões em condições para as quais não estão preparados", diz o chefe da Divisão de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos do DAC, coronel João Luiz de Castro Guimarães. Num dos desastres, o que tirou a vida de proprietários e gerentes da fábrica de biscoitos Mabel na cidade de Água Comprida, em Minas Gerais, o piloto Orládio Domingues, de 59 anos, seguiu toda a cartilha de erros que podem anteceder uma tragédia. Sua habilitação para voar sob a orientação de instrumentos estava vencida havia oito meses. Por isso, na hora de passar por telefone sua identificação e os dados do vôo que pretendia fazer ao aeroporto de Ribeirão Preto, no interior paulista, Domingues usou o nome e o número de registro de outro piloto da cidade, que estava em situação regular. Como o tempo estava ruim, foi autorizado a voar com a orientação de instrumentos. Mas ele não poderia realizar esse tipo de vôo. Decolou mesmo assim e pouco depois bateu com o avião numa elevação do terreno. Seis pessoas morreram.

Em outros dois acidentes, ambos na Bahia, o DAC já concluiu que a culpa foi dos pilotos. Nos dois casos, as aeronaves voavam numa altitude baixa em condições climáticas que não davam o nível de visibilidade necessário para isso. O desfecho foi idêntico: choque contra o paredão de uma serra. Segundo estatísticas do DAC, esse é o acidente típico dos pequenos aviões no Brasil e o que demonstra mais flagrantemente o despreparo do piloto. Em 95% dos desastres desse tipo, houve imprudência, falta de habilidade ou negligência do piloto ou de quem dá manutenção no aparelho. No quarto caso registrado recentemente, existem suspeitas de que, antes de decolar do aeroporto de Manaus, o aparelho não foi submetido a um procedimento básico. Tinha chovido, e é necessário, nessas condições, fazer uma drenagem nos tanques de combustível caso a aeronave tenha ficado parada sob a intempérie. Alguma água sempre escorre para os tanques e, se não for retirada, pode provocar a parada do motor em pleno vôo. Exatamente o que aconteceu em Manaus. Foi uma grande sorte o piloto conseguir planar até uma pista de terra da região, na qual o avião pegou fogo logo depois que todos desembarcaram.

Embora o DAC exija uma revisão anual das aeronaves e a reciclagem dos pilotos a cada dois anos, o órgão reconhece que a qualidade desses procedimentos está aquém do desejado. Enquanto empresas comerciais são obrigadas a treinar seu pessoal de seis em seis meses, com simuladores e acompanhamento de vôo, os pilotos da aviação de médio e pequeno porte passam apenas por exames médicos e teóricos e por um vôo de avaliação. Além dos imprevidentes pilotos de garimpo e de aviões agrícolas, que se comportam como motoboys do ar, pousando em pistas mínimas e andando sempre com excesso de carga, há um grupo que o DAC considera também muito perigoso, composto de pilotos de fim de semana. Proprietários de aviões que usam as aeronaves com pouca constância e tendem a tratá-las como um automóvel, ignorando ventos, condição do tempo, horários e até autonomia de vôo. No ano passado, os chamados pilotos privados foram responsáveis por mais da metade dos acidentes.

Apesar de as falhas mecânicas serem responsáveis por apenas 5% dos acidentes aéreos, os peritos do DAC têm uma lista de casos em que os aviões envolvidos nos desastres estavam equipados com mangueiras plásticas de botijão de gás, no lugar das de combustível, e até com pastilhas de freio recomendadas a caminhões. "Parece absurdo, mas está cheio disso por aí", conta o coronel. É só olhar para cima.

 

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