Daquelas que
só dizem sim
Americana
vira best-seller ensinando as
mulheres a obedecer a seus maridos

Eliana
Giannella Simonetti
As
idéias da dona-de-casa americana Laura Doyle, de 33 anos,
são espantosamente antiquadas. Mais espantoso é o
sucesso que elas estão fazendo no início do novo milênio.
Seu livro, The Surrendered Wife (Mulheres Submissas), ainda
sem tradução em português, chegou à lista
dos dez mais vendidos no país oferecendo uma receita infalível,
segundo Laura, para que os casamentos se harmonizem e fiquem mais
estáveis: a mulher deve sempre dizer sim. Tribal? Politicamente
incorreto? Inconseqüente? Simplista? Sim, sem dúvida.
Mas a gordinha Laura Doyle não oferece a fórmula da
felicidade dos casamentos, e sim a da estabilidade. E diz que, com
sorte, sua receita pode até proporcionar algum romance. As
dezenas de milhares de leitoras que refrearam seu ímpeto
de queimar o livro encontraram em suas páginas alguns conselhos
que não são totalmente descartáveis. Outros
ensinamentos de dona Laura são de arrepiar, num mundo em
que a mulher já se emancipou sexual e socialmente e, como
se fosse preciso uma prova de seu avanço, está disputando
quase taco a taco o emprego com representantes do sexo oposto.

Elenco
do seriado Papai Sabe Tudo: família anos 50 |
Segundo
o livro, a mulher não deve discutir. Sempre deixará
que seu marido dirija o carro. Também caberá a ele,
segundo o catecismo de Laura, a decisão do lugar para onde
a família vai nas férias. Em casa, quem pilotará
o controle remoto da televisão será o marido. Na cama,
o comando também será dele. Decidirá a freqüência
com que devem fazer sexo. "Quando ele perguntar sua opinião
sobre alguma coisa, diga que ele é quem sabe. Isso aumentará
sua auto-estima", ensina ela no livro, no site www.surrenderedwife.com
e nas palestras que faz nos Estados Unidos. Sua presença
está sendo aguardada na Escócia, na Inglaterra e na
Austrália, onde falará nas próximas semanas.
Os
críticos de Laura acham que, quando ela abre a janela, enxerga
zepelins e não aviões, quando vai para o trabalho
toma uma carruagem e não um automóvel e quando liga
a televisão assiste ao seriado Papai Sabe Tudo, sucesso
em meados do século passado, e não Sexo e a Cidade,
do canal de TV por assinatura HBO, em que as mulheres dão
as cartas. Laura sustenta que não está propondo uma
volta no tempo. "A mulher pode ser uma lutadora forte e independente
no trabalho, mas no lar deve admitir suas fraquezas, mostrar-se
frágil e permitir que o marido assuma o comando. Casamento
é como uma dança de salão: o homem dirige e
a mulher acompanha. Se os dois quiserem ter o mesmo papel, acabarão
tropeçando."
Laura
casou-se aos 22 anos. Dois anos depois estava à beira do
divórcio. Achava que seu marido não era ambicioso
o bastante no trabalho, que não sabia vestir-se, que dirigia
mal. Em casa, ele passava horas na frente da televisão. Os
dois não conversavam mais, não saíam juntos
e raramente faziam sexo. Hoje, Laura garante que é bem casada.
Fez terapia, conversou com amigas que tinham casamentos bem-sucedidos
e, misturando um conselho aqui e outro ali, construiu o que considera
ser a fórmula da harmonia. Milhares de americanas estão
mostrando interesse por suas idéias. Descontando-se a famosa
constatação de que ninguém jamais perdeu dinheiro
apostando na insensatez da opinião pública americana,
o sucesso de Laura tem lá suas razões mais sólidas.
A maioria das mulheres adultas americanas já experimentou
o casamento pelo menos uma vez e milhões desistiram
preferiram viver sozinhas, livres dos atritos da convivência
diária. O país é campeão mundial do
divórcio. É campeão também em outro
quesito: o das mulheres separadas que gostariam de casar de novo.
É esse público o das que sonham com um casamento
estável, se possível um conto de fadas o alvo
de Laura Doyle.
Antes
de se lançar na aventura do aconselhamento matrimonial, Laura,
com experiência em jornalismo, fazia sucesso na carreira,
como outras tantas profissionais. Era redatora de uma empresa de
marketing e ganhava um bom salário. Era também uma
esposa dedicada. Resolvia todos os problemas que surgiam em casa.
Entretanto se sentia sobrecarregada, solitária e pessoalmente
frustrada. "A primeira coisa que fiz foi fechar a boca. Não
foi fácil, mas fez uma enorme diferença", ela conta.
"Depois descobri que se parasse de criticá-lo, se mostrasse
confiança em meu marido, ele me daria o melhor de si." Bem,
após algum tempo Laura se viu dançando com o marido
na cozinha, enquanto os dois preparavam o jantar, conversando e
dando risada. "Os resultados foram rápidos e radicais. Enquanto
eu mudava, ele se transformava no par perfeito que eu sempre quis
ter a meu lado."
O
debate em torno de Laura Doyle está esquentando. As feministas
defensoras da igualdade entre os sexos estão escandalizadas.
Depois de anos de luta, elas conseguiram que a mulher tivesse direito
a voto, fosse reconhecida profissionalmente e que seu salário
se aproximasse do de seus colegas do sexo masculino. Agora não
entendem por que tantas mulheres abririam mão de suas vitórias
em favor do casamento. Entre os homens americanos a reação
também não tem sido das melhores. Há os que
acham que Laura está ensinando suas esposas a manipulá-los.
Há também os que reclamam. Afinal, se todas seguirem
o modelo da escritora, eles ficarão sobrecarregados, tendo
de decidir tudo sozinhos. "As idéias de Laura Doyle são
destrutivas, são uma volta no tempo e não protegem
as mulheres", diz o psicólogo Andrew Christensen, professor
da Universidade da Califórnia.
Laura
defende-se afirmando que não recomenda seu receituário
a todo mundo. Ele é específico para aquelas mulheres
que se casaram com homens de que gostavam, que respeitavam, e que
hoje lhes parecem desprezíveis. E para aquelas que são
excessivamente controladoras, que não conseguem parar de
corrigir ou ensinar seus maridos. Essa turma, se quiser evitar o
divórcio, terá de mudar de comportamento e recuperar
o príncipe encantado que se perdeu. "O problema é
que nossa sociedade produziu mulheres muito masculinizadas", diz
Geoff Scobie, professor de psicologia da Universidade de Glasgow.
Segundo ele, as mulheres têm de voltar a cultivar as características
básicas da feminilidade. "As casadas com homens violentos,
viciados ou cronicamente infiéis devem pular fora. Para as
outras, há esperança. Eu sei que o que proponho não
é fácil. Nem espero que todas as mulheres consigam
cumprir tudo o que recomendo. Mas garanto que cada passo no sentido
da submissão terá algum efeito positivo", diz Laura.
Não é revolucionário?
|
O
manual da mulher submissa
Alguns
conselhos de Laura Doyle são razoáveis...
Cindy Yamanaka
 |
Deixe de tentar controlar seu marido. Comprando suas roupas,
cuidando de sua alimentação e dizendo como deve
se comportar, você será como uma mãe para
ele. Isso esfria o romance.
Respeite o que ele pensa. Mesmo que você esteja certa
de alguma coisa, tem de admitir que há maneiras diferentes
de ver as coisas e de resolver problemas.
Receba, agradecida e feliz, os presentes que ele lhe dá.
Não custa nada parecer sempre satisfeita.
Preocupe-se apenas com sua própria felicidade e confie
em seu marido no que diz respeito à felicidade dele.
Admita que você é vulnerável. A mulher
não tem de ser sempre forte e infalível.
...mas
outros são tão sem sentido que francamente...
Entregue a ele a responsabilidade de cuidar de todas as finanças,
mesmo que ele não seja um bom administrador e cometa
erros.
Seu salário deve ser todo repassado para seu marido.
A mulher deve receber uma mesada para suas despesas pessoais.
Deixe que ele seja sempre o motorista do carro e nunca o critique,
mesmo que ele tome um caminho errado e vá parar do
outro lado da cidade.
Se seu marido for infiel, seja tolerante e finja que não
percebe.
Esteja sempre disponível para quando ele quiser fazer
sexo, mesmo que não tenha vontade.
|
Saiba
mais
|
|
|
|
|