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Bronze de risco

Portaria tenta prevenir câncer de
pele provocado por raios artificiais,
mas tem poucos seguidores

Fábio de Oliveira e Angela Nunes

 

Andre Pepazzo
Na câmara de sol artificial: melanoma e envelhecimento precoce são as ameaças

É uma tentação para quem cultiva a beleza do corpo. Em uma sessão de dez ou vinte minutos diários numa das câmaras de bronzeamento artificial, pela pechincha de 20 reais, dá para conquistar ou manter aquela cor de praia ou piscina – sem precisar perder tempo debaixo do sol. O Brasil já tem 3.500 desses aparelhos emissores de raios ultravioleta e só agora saiu a primeira regulamentação abrangente para proteger os interessados e os curiosos, ditada por preocupações médicas com os riscos de câncer de pele e envelhecimento precoce. Por meio de portaria, o Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo passou a exigir exame prévio de todo cliente candidato a tostar-se nas máquinas. De acordo com o texto legal, um médico deve certificar se o indivíduo tem antecedente familiar de câncer de pele, se sofreu queimadura solar grave anteriormente ou é portador de sardas no rosto ou nos ombros. A verificação inclui a presença de pintas ou de pele muito clara. Caso o consumidor se enquadre em uma ou mais dessas situações de risco apontadas pela portaria, as clínicas não poderão aceitá-lo nas câmaras. Quem tiver a aprovação do médico precisa preencher uma ficha com seus dados pessoais e assinar um termo de consentimento, no qual declara estar consciente dos riscos. Menores de 18 anos só podem submeter-se às sessões após autorização dos pais. A desobediência da portaria pode render advertência, multa de até 90.000 reais e mesmo a interdição do local.

"Todo cuidado é pouco", adverte o médico Marcus Maia, do Programa Nacional do Controle de Câncer de Pele da Sociedade Brasileira de Dermatologia, entidade que sugeriu o detalhamento contido na portaria paulista. A radiação ultravioleta do bronzeamento artificial é do tipo UVA, que penetra nas camadas profundas da pele e carrega o perigo do melanoma, o mais agressivo câncer de pele. Esse gênero de tumor, que tem como grupo preferencial os adultos, se origina nos melanócitos, células responsáveis pela coloração da pele. Quem tem pele clara e casos da doença na família é forte candidato ao problema se abusa da exposição ao sol. Pintas disformes, que mudam de cor e sangram, são alguns dos sinais de sua presença. A remoção cirúrgica é o procedimento mais indicado para tratá-lo. E isso deve ser feito quanto antes. Quando há metástases, ou seja, o melanoma se espalha para outras áreas, não há cura para a maioria dos casos.

O dermatologista Marcus Maia acha que a medida pode servir de modelo para outros Estados e para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Como é de fácil acesso e barata, a prática do bronzeamento artificial proliferou nos últimos tempos, sem nenhuma cautela por parte dos donos dos equipamentos, consumidores e autoridades sanitárias. Em vigor há mais de um mês, a nova portaria exibe ares draconianos, mas no Brasil da lei de Gerson parece ser mais um daqueles regulamentos que, infelizmente, vieram para não pegar. A maioria das clínicas da capital paulista – como Sun Point, Maison du Soleil e Esthetic Center – desprezava as orientações no começo de janeiro. Nesses locais, era só chegar e pegar uma cor. O Centro de Vigilância Sanitária teve o mérito de baixar a norma, mas não dispõe de recursos para fiscalizar seu cumprimento. Não há sequer informações sobre o número de clínicas no Estado, muito menos quantas e quais não estão cumprindo a portaria. Quem tiver bom senso pode, entretanto, valer-se das diretrizes fixadas, para uso pessoal, e evitar problemas de saúde no futuro.

 

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