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Em julho do ano passado, a polícia americana prendeu o financista Robert Whitehead, de 57 anos. A novidade saiu nos principais jornais americanos, inclusive no The New York Times, por uma razão simples: Whitehead era conhecido da alta-roda de Nova York, participava de jantares com artistas famosos para arrecadar fundos ao Metropolitan Opera e, vestindo seus ternos de primeira linha, era visto com freqüência nos restaurantes mais requintados de Manhattan. Sua prisão, acusado de dar um golpe de mais de 10 milhões de dólares em treze clientes, chegou a ser noticiada no Brasil devido a uma curiosidade: Whitehead aplicava seu golpe com títulos da dívida externa brasileira. Com sua lábia e a fachada de mecenas das artes, ele é acusado de iludir clientes oferecendo-lhes ganhos estratosféricos com os títulos, embora não tivesse um único papel brasileiro. Na semana passada, VEJA descobriu que sua conexão brasileira é muito mais do que uma mera curiosidade. Pode ser uma bomba. Logo depois da prisão do financista de fachada, uma suspeita começou a tomar corpo no Brasil – a de que as fraudes tinham um pé de apoio no país. O primeiro a entrar no rol dos suspeitos é um subprocurador da República. É Miguel Guskow, 58 anos, um dos principais colaboradores do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro. Os investigadores americanos, ao vasculhar os papéis de Whitehead, descobriram uma carta de recomendação assinada por Guskow. Na carta, escrita em inglês em papel timbrado do Ministério Público Federal, Guskow diz que Whitehead e seu parceiro brasileiro, um tal de Taniel Marcolino, são profissionais de sua "plena confiança". Na mesma carta, Guskow aproveita para acrescentar que a venda de títulos que a dupla planejava fazer ao Deutsche Bank seria "atestada" pelas "autoridades do governo brasileiro". A carta tem data de 21 de fevereiro do ano passado – cinco meses antes de Whitehead ser preso. Miguel Guskow poderia alegar que cometeu um equívoco ao dar uma carta de referência para uma dupla de malandros. "Conheci o Taniel Marcolino h&aacete; uns dois anos, em São Paulo", explica Guskow. "Um dia ele me ligou, disse que estava fazendo uma transação com o Deutsche Bank e precisava de um atestado de idoneidade. Ele ditou o texto por telefone, eu redigi e assinei", completa Guskow, enfatizando que, apesar disso, nunca viu Robert Whitehead na vida. O problema é que, além disso, Guskow deu um passo bem maior que suas pernas e exorbitou de suas atribuições ao garantir o que não podia, ou seja, que as "autoridades do governo brasileiro" atestariam a venda de títulos para o Deutsche Bank. Tratava-se de uma operação de mais de 1 bilhão de dólares, abortada antes de ser concluída. Por que Guskow abençoou a transação que agora diz que nem conhecia? "O Taniel pediu, ele queria o atestado para isso, para fazer a operação", afirma. A mesma carta de recomendação, com conteúdo um pouco diferente, foi usada por Whitehead junto a uma entidade com sede em Madri, na Espanha. A entidade, que recolhe doações para projetos sociais no Brasil, interessou-se pelos lucros fantásticos oferecidos por Whitehead. Seus dirigentes – brasileiros, que pedem para não ser identificados – afirmam que só ficaram tranqüilos quanto à lisura do negócio na hora em que viram a carta de Guskow. Desembolsaram 500.000 dólares e nunca mais viram a cor do dinheiro. "Foi um erro, é claro. Mas todo mundo falava bem desse Whitehead no mercado europeu, e, quando vimos a carta do Guskow, tivemos certeza de que o negócio era bom", diz um dos brasileiros lesados.
Em outubro passado, uma equipe do Banco Central soube do caso e resolveu investigá-lo. Fez um dossiê de 100 páginas e enviou-o ao procurador-geral Geraldo Brindeiro. De posse do documento, Brindeiro pediu explicações a Guskow, que mandou ao chefe uma carta curta, de apenas uma página e meia. Em sua defesa, não diz uma palavra sobre a carta de referência. Diz apenas que se interessou em conhecer como era o mercado de compra e venda de títulos e, por conta própria, fez uma "pesquisa". Entrou em contato com operadores do mercado, e aí conheceu Taniel Marcolino. Em seguida, conta que se retirou de campo ao saber da prisão de Whitehead em Nova York. É uma explicação que deixa pontos essenciais em aberto. Primeiro, é insólito que um procurador decida fazer uma pesquisa informal e, ainda por cima, por conta própria, sem abrir o que o jargão da burocracia chama de "procedimento investigativo". Em segundo lugar, o posto de Guskow não tem relação com a negociação de títulos públicos no Brasil ou no exterior. Ele preside uma das câmaras da Procuradoria Geral da República. Comanda a que cuida da ordem econômica e defesa do consumidor. Apesar de tratar de economia, a câmara não lida com títulos, mas com fusões empresariais e os direitos do consumidor. Mesmo com a explicação aérea do subordinado, não se tem notícia de que Brindeiro tenha pedido esclarecimentos ou tomado qualquer outra providência. Na burocracia brasiliense, as suspeitas em torno de Guskow são mantidas em sigilo absoluto. Nem Banco Central, nem Ministério Público, nem Itamaraty, que soube do caso pelo consulado brasileiro de Nova York, comentam o assunto. A investigação de uma autoridade sob a suspeita de enrolar-se com uma máfia de títulos públicos no exterior, de fato, é um tema que preocupa qualquer governo – e não só pelo status da autoridade. Sempre que o papel de um país aparece no meio de uma trambicagem corre o risco de perder parte da credibilidade e seu valor fica sujeito a alguma queda. No caso brasileiro, o golpe não chegou a afetar as cotações, mas é óbvio que o envolvimento de um procurador só complica. Na semana passada, apareceram outros papéis sobre o caso. VEJA teve acesso a uma parte da correspondência trocada por Marcolino e Whitehead, inclusive e-mails. Os documentos não têm valor oficial e ainda estão sujeitos à verificação de autenticidade. Eles mostram que o envolvimento de Guskow com a máfia dos títulos pode ter sido muito mais profundo. Seu nome aparece cinco vezes. Os trechos sugerem que Guskow, em vez de um aluno do negócio de títulos, pode ter sido um professor. Em fevereiro de 2000, por exemplo, Marcolino enviou carta a Whitehead, na qual fala de uma "correspondência muito confidencial do doutor Miguel Guskow". Segundo diz Marcolino, Guskow dá, nessa carta "muito confidencial", instruções para uma operação de crédito, de 1,3 bilhão de dólares, num banco de Nova York. Em outra carta, Marcolino diz que "Mr. Guskow" recomendara a outro banco a compra de uma bela quantia em títulos, com o aval do Banco Central brasileiro. Um dia depois, avisa que a tal operação com o banco fora acertada e arremata: "Mr. Guskow está aguardando a confirmação para o crédito na primeira hora da manhã no horário brasileiro". Noutra ocasião, Marcolino consulta Whitehead sobre o que fazer com 154 milhões de dólares. Whitehead pede que ele lhe telefone em casa para dizer se está de acordo com a divisão do dinheiro. E afirma: "Quero ter certeza de que você e Miguel estarão cuidando disso na segunda-feira pela manhã". A favor de Guskow, pode-se argumentar que uma dupla de malandros pode muito bem ter forjado correspondências e diálogos via e-mail, para envolver seu nome e, com isso, dar credibilidade às operações perante seus clientes. É uma possibilidade sob investigação. Guskow está em Brasília há sete anos e mora num imóvel funcional da Procuradoria – uma casa no Lago Sul, bairro chique da capital, pela qual paga uma taxa mensal de 395 reais. Além de presidir a câmara de ordem econômica e defesa do consumidor, Guskow foi indicado por Brindeiro em 1999 para integrar um grupo de estudo sobre corrupção internacional, mas deixou o posto em seguida devido à falta de verbas para custear as viagens internacionais. Talvez por excesso de zelo – talvez por coisa muito pior – , agora ele próprio aparece como suspeito de envolver-se num caso de corrupção internacional.
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