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Vênus chamuscada

Incêndio durante gravação da Xuxa pode
ter
sido causado por falhas da própria Globo

A principal atração das manhãs de sábado da Globo, o infantil Xuxa Park, transformou-se em intrincado enredo policial. O incêndio, que há duas semanas arrasou o cenário do programa, embaçou a imagem de competência da emissora. Suspeita-se que a tragédia tenha sido causada por falhas no sistema elétrico do estúdio, em seu moderníssimo centro de produção do Rio de Janeiro, o Projac. Mais de oitenta pessoas tiveram de ser atendidas em hospitais da região. Desse total, doze foram feridas com gravidade e duas delas continuam correndo risco de vida. As causas precisas do acidente ainda não foram determinadas pela perícia, mas o laudo, a ser concluído nesta semana, aponta vários problemas na segurança. A primeira delas é a escolha do material usado pela cenografia. Era inflamável e com acelerada velocidade de combustão. Uma temeridade num local em que há eletricidade em alta voltagem e lâmpadas muito quentes. Descobriu-se também que havia emendas nos fios, protegidas por fita isolante. Quando se lida com cargas elétricas elevadas, improvisos como esse podem ser fatais. Se não forem bem-feitas, dizem os especialistas, as emendas podem provocar superaquecimento e causar curto-circuito. Essa é a hipótese até agora considerada mais provável.

A maior angústia vivida por quem estava no estúdio foi o resgate das crianças. As mães, sem achá-las do lado de fora, tentavam entrar, mas eram impedidas pela produção. O caso mais dramático foi o da menina Thamires Vallejo, de 7 anos, que ficou presa a uma das cadeiras da roda-gigante. A polícia suspeita que o fecho da barra de proteção tenha dificultado o resgate. Nesse caso, o excesso de zelo, até louvável, teria criado uma arapuca. Cinco pessoas tentaram tirar Thamires, sem sucesso. Somente um sexto homem, da brigada de incêndio da Globo, conseguiu salvá-la. Thamires, a última a sair do estúdio, foi retirada quando o local já estava completamente tomado pela fumaça tóxica liberada por materiais sintéticos. Ela e outras seis pessoas sofreram queimaduras graves nas vias respiratórias, que ficaram impregnadas por uma espécie de resina. Todos receberam apoio irrepreensível da emissora, que mandou buscar os melhores especialistas em casos de queimados, inclusive estrangeiros. A Globo montou equipes permanentes para o atendimento às famílias das vítimas e liberou os médicos para gastar quanto for necessário.

Mesmo com todo esse cuidado, não faltaram tropeções na operação. Num dos comunicados, dos vários que veiculou, a empresa comunicou que o principal herói da noite havia sido o segurança particular de Xuxa, Leonilson Vieira de Oliveira, de 47 anos, que teria arrancado por fim a menina Thamires do brinquedo. Não foi, conforme revelou a VEJA um diretor da própria emissora, na semana passada. Isso em nada desmerece o gesto heróico de Oliveira, que arriscou seriamente a vida para salvar uma criança. Mas permitir que se difunda a versão equivocada de que o herói da noite estava entre os integrantes da segurança pessoal da apresentadora soa como um expediente desnecessário. Essa foi a quarta vez que um incêndio atingiu as instalações da Globo no Rio, o primeiro no Projac. Multiplicam-se casos como esse por outras emissoras ao longo da história da televisão. Acidentes acontecem. Por isso, deve-se estar preparado para as medidas de emergência. Isso evitaria que pessoas da segurança ou espectadores, como o adolescente Flávio dos Santos, de 15 anos, precisassem envolver-se na operação de salvamento. É no terreno da precariedade que costumam florescer os heróis.

 

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