¿Qué
pasa, compañero?
Novos
documentos revelam detalhes da
ajuda de Cuba aos guerrilheiros brasileiros
Consuelo
Dieguez
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| Militantes
presos em Caparaó: treinamento cubano não
refletia a
realidade da guerrilha no Brasil |
A
participação de Cuba na resistência armada à
ditadura no Brasil povoou as fantasias românticas da esquerda
e atiçou a repressão ao que se supunha ser uma ameaçadora
expansão da revolução de Fidel Castro. Ainda
assim, sempre foi assunto tratado com reserva, e praticamente banido
das discussões sobre os anos que se seguiram ao golpe de
1964. Coube à pesquisadora Denise Rollemberg, da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro, lançar luzes sobre esse período
nebuloso. Ela acaba de concluir sua tese de doutorado, "O apoio
de Cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro",
na qual esmiúça a ajuda do governo de Fidel a
grupos brasileiros de esquerda, dos anos 60 até a metade
dos 70. Mais do que isso, o trabalho dá uma dimensão
inédita ao desastre provocado por essa ajuda cubana, que
empurrou para a morte dezenas de militantes do movimento guerrilheiro.
Durante dois anos Denise fuçou os arquivos do Dops, debruçou-se
sobre documentos militares e colheu depoimentos preciosos que trazem
à tona detalhes do patrocínio cubano a três
projetos de guerrilha no Brasil embora se notem algumas lacunas
clamorosas, como a ausência do relato do presidente do PT,
José Dirceu, que recebeu treinamento de guerrilha em Cuba
e não foi ouvido pela autora. O primeiro auxílio de
Fidel foi no governo João Goulart, por intermédio
do apoio às Ligas Camponesas, lendário movimento rural
chefiado por Francisco Julião. A outra ajuda de Cuba aconteceu
entre 1966 e 1967 e teve como protagonista o ex-governador Leonel
Brizola, na época exilado no Uruguai. Finalmente, entre 1969
e 1973, Cuba treinou militantes brasileiros das organizações
de esquerda que seguiram o caminho da luta armada, principalmente
a Aliança Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR) e o Movimento Revolucionário
8 de Outubro (MR-8). Quanto Cuba gastou nessas investidas não
há como quantificar.
Claudio Rossi
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| José
Dirceu, presidente
do PT e líder do
Grupo Primavera: "Os
erros foram só nossos" |
O trabalho de Denise desvenda cada passo da ofensiva de Fidel Castro
no Brasil. A aproximação com as Ligas Camponesas,
por exemplo, deu-se logo após a revolução cubana,
em 1959. As ligas eram um movimento essencialmente agrário,
sediado no Nordeste mas espalhado por vários Estados. Seu
slogan, "Reforma agrária na lei ou na marra", sintetizava
a tensão política do país no início
dos anos 60. Cuba despejou uma bolada de dinheiro na organização
e treinou vários de seus militantes, numa movimentação
logo percebida pela comunidade de informação. Os documentos
do Dops, o temido Departamento da Ordem Política e Social,
encontrados por Denise Rollemberg no Arquivo Público do Rio
de Janeiro, atestam que desde 1961 o órgão acompanhava
atentamente as estreitas relações de Cuba com as ligas.
A papelada registra também cursos preparatórios de
guerrilha em vários pontos do país. O apoio cubano
concretizou-se no fornecimento de armas e dinheiro, além
da compra de fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco
para funcionar como campos de treinamento.
Com a desarticulação das ligas pela ditadura, as baterias
de Cuba voltaram-se para a resistência liderada por Leonel
Brizola no Uruguai. O grupo era composto de lideranças do
período pré-64, principalmente sargentos e marinheiros
expulsos das Forças Armadas. Brizola, inicialmente, era contra
a organização de guerrilhas sob orientação
de Cuba e planejava invadir o Brasil pelo Rio Grande do Sul. O sucesso
da ação seria garantido pela adesão dos militares
insatisfeitos com o golpe. Esse levante, como se sabe, ficou na
imaginação do ex-governador, que acabou concordando
em aceitar a ajuda cubana.
Os
arquivos militares da época (veja documento abaixo)
relatam o patrocínio de Fidel Castro a três focos guerrilheiros
a partir de 1966, tendo o ex-governador à frente. Um em Mato
Grosso, próximo à Bolívia, serviria de apoio
ao grupo de Che Guevara. Outro no norte de Goiás, e o mais
famoso deles na Serra do Caparaó, entre Minas Gerais e Espírito
Santo. Avelino Capitani, 60 anos, ex-dirigente da Associação
de Marinheiros, hoje vivendo em Porto Alegre, foi um dos primeiros
militantes brasileiros a ser treinados em Cuba. Com formação
militar, ele lembra que o treinamento era uma grande bobagem. "Parecia
brincadeira. O Exército brasileiro era muito mais rigoroso",
afirma.
Nelio Rodrigues
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O
ex-governador Leonel Brizola e documentos do Exército que mostram
sua ligação com Cuba: originalmente contra a ajuda externa,
teve apoio da ilha na organização da resistência |
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Ao
retornar ao Brasil, Capitani foi mandado para Caparaó. Mas
o movimento foi abortado ainda na fase de treinamento. Sem dinheiro
para a compra de alimentos, remédios e munição,
os catorze guerrilheiros caíram doentes. Num desfecho patético
para quem acreditava escrever uma página heróica da
História brasileira, foram descobertos por um guarda florestal,
denunciados e presos, sem resistência. "Mesmo que o Exército
não nos descobrisse, o movimento teria fracassado simplesmente
porque não havia população na área.
Queríamos fazer a revolução sem as massas",
comenta. A desorganização era tanta que os focos liderados
por Brizola são até hoje motivo de controvérsia.
Pesa sobre o líder do PDT a suspeita recorrente de ter embolsado
o financiamento de Fidel o que o ex-governador sempre negou.
No entanto, ouvido por VEJA na quarta-feira passada, Capitani revelou
ter trazido pessoalmente dinheiro para ser entregue a ele. "Eram
25.000 dólares numa caixa de xadrez", disse. "Mas o dinheiro
nunca chegou para a guerrilha." Ou seja, sumiu. O deputado Neiva
Moreira, que na época fazia a ponte entre Fidel e Brizola,
nega a versão de Capitani: "Nós nunca recebemos dinheiro.
Cuba só ajudou com treinamento".
Nada,
no entanto, foi mais desastrado que a terceira investida bancada
por Cuba. Os contatos foram feitos com as organizações
armadas de esquerda, principalmente a ALN, de Carlos Marighella.
Carlos Eugênio Sarmento da Paz, hoje um professor de música
de 50 anos, é o único comandante vivo da ALN. Ele
conta que, logo que chegou a Cuba, notou que a ação
era absolutamente ineficaz. "Era ridículo. Íamos para
a mata, mas dormíamos em barracões, com camas e colchões.
Diariamente caminhões do Exército cubano nos levavam
comida." O treinamento virou armadilha. O guerrilheiro despreparado
acreditava poder enfrentar o Exército no Brasil. Assinava,
com isso, sua sentença de morte.
A mística que envolvia a experiência do treinamento
em Cuba não se limitava aos militantes de esquerda. A documentação
revelada por Denise mostra o tamanho da preocupação
dos militares brasileiros com os guerrilheiros treinados na ilha.
Em 1972, o Exército distribuiu dossiê detalhado com
fotos de 219 militantes treinados ou suspeitos de ter cumprido treinamento,
classificando-os como terroristas de alta periculosidade. Ou seja,
o grupo era duplamente vulnerável: por ser despreparado e
por ser considerado perigoso. "O índice de sobrevivência
de quem ficou no Brasil é muito maior que o dos que foram
para Cuba", afirma o ex-guerrilheiro e agora economista Domingos
Fernandes, um dos últimos a freqüentar as aulas dos
cubanos.
Liane Neves
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| O
ex-marinheiro Avelino Capitani: 25
000 dólares para
Brizola |
Mas como explicar os problemas da ajuda cubana? Denise Rollemberg
conclui que, no final da década de 60, a exportação
da revolução já era uma lenda. "O treinamento
servia mesmo para mostrar à população cubana
que Cuba era um sucesso internacional", diz. O resultado foi trágico.
Uma das histórias mais dramáticas relatadas por Denise
é o massacre do Grupo Primavera. Essa facção
tinha entre seus líderes o hoje presidente do PT, José
Dirceu. Rompida com a ALN, aproximou-se muito do governo cubano
durante o período de treinamento. Por essa razão,
dizia-se que era um grupo mais bem preparado que os outros. Traídos
por um informante, os militantes do Grupo Primavera foram duramente
perseguidos quando começaram a voltar ao país, em
1971. Em menos de um ano, 22 de seus 28 integrantes estavam mortos.
Dirceu, no entanto, discorda da tese que atribui a Cuba o fracasso
da guerrilha. "Todo mundo sabia o que estava fazendo", afirma. "Os
erros foram nossos."
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