O efeito fama
Doentes
sofrem com
o caso Covas e
até
com o drama da
novela, mas tabu
diminui
Flávia Varella
Fotos Rogério Voltan/Roberto Valverde
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Fotos
Rogério Voltan/Roberto Valverde
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| Sanndy
com a filha, Laura, e a Camila da novela: "Parece pior" |
José
Celso Martins, engenheiro eletrônico, 65 anos, ficou sabendo
que tinha câncer na bexiga no ano passado. Passou por uma
cirurgia para extração do órgão e por
seguidas sessões de quimioterapia. Em tese, está na
mesma situação clínica em que se encontrava
o governador Mário Covas há dois anos. Essa semelhança
o mantém numa montanha-russa emocional. Quando Covas foi
operado pela segunda vez, em novembro, Martins prometeu ficar duas
semanas sem ler jornal nem assistir ao noticiário da TV para
não se abalar. Depois, ao ver o governador de volta ao trabalho,
inaugurando obras e interferindo ativamente na política nacional,
se animou de novo. O clima esperançoso durou até segunda-feira
da semana passada, dia da revelação do diagnóstico
de câncer na meninge, que confirmava a metástase. "Fiquei
prostrado. Sei que cada caso é singular, mas é impossível
não me imaginar na mesma situação em breve",
diz o engenheiro.
Doenças
de personalidades conhecidas costumam ser acompanhadas pela população
em geral com apreensão e solidariedade. Nada, porém,
se compara ao efeito que um caso de câncer como o de Mário
Covas tem sobre as pessoas comuns que sofrem da mesma enfermidade.
Em qualquer estágio, o câncer evoca os temores mais
profundos. Mesmo quando está sob controle, mantém
os pacientes em incerteza angustiante sobre a possibilidade de recidiva.
Quando uma pessoa famosa enfrenta o mesmo problema, é inevitável
que se transforme no espelho onde esses sentimentos são projetados.
"Praticamente todos os meus pacientes comentam o quadro clínico
do Covas. As notícias ruins os estressam, pois fazem com
que pensem que eles também podem piorar", diz Sergio Simon,
vice-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia. Na quinta-feira
em que o governador foi internado para uma sessão de quimioterapia
na medula, um tratamento de fazer arrepiar qualquer pessoa, uma
paciente de Simon, com câncer de mama, se desesperou e pediu
garantias de que não passaria pelo mesmo sofrimento.
Quando
não se angustiam com o caso, dolorosamente real, de Covas,
os doentes se dividem entre a esperança e a dor, na ficção.
Em outubro passado, assim que deu à luz a pequena Laura,
Sanndy Klumpp, secretária paulistana de 22 anos, percebeu
que estava muito amarela e fraca. Não tinha força
nem para segurar a filhinha. Vinte e cinco dias depois, recebeu
o diagnóstico de leucemia. Chorou duas horas seguidas. Ela
estava com 100% dos glóbulos vermelhos comprometidos. Foi
na mesma época em que Camila, personagem interpretada por
Carolina Dieckmann na novela Laços de Família,
começou a chorar todas as noites diante de 32 milhões
de telespectadores, desesperada com a perspectiva de morrer em conseqüência
da doença. A família de Sanndy implorou para que ela
não assistisse à agonia da heroína do folhetim,
mas ela não resiste e acompanha todos os capítulos.
Muitas
vezes ela se entristece com a história, especialmente quando
vê o marido de Camila, Edu, interpretado por Reynaldo Gianecchine,
sendo carinhoso e companheiro. Sanndy casou-se grávida. O
marido recebeu a notícia da leucemia ao seu lado. As visitas
começaram a se espaçar até que ele simplesmente
sumiu. Sanndy ficou sabendo que tinha sido abandonada pelo marido
por intermédio de seu pai. "O Edu está sendo muito
homem; o homem que o meu não foi", comenta. Apesar da mágoa
com o ex-marido, de ter ficado 52 dias internada em tratamento quimioterápico,
vendo a pequena Laura durante no máximo duas horas diárias,
Sanndy acha que a novela exagera no drama. "A Camila chora muito,
fica parecendo pior do que é", diz, às vésperas
de se internar para mais um mês de sessões de quimioterapia.
Com um sorriso corajoso, ela ergue a cabeça assumidamente
nua um dos efeitos colaterais mais positivos provocados pela
Camila da ficção.
Yone Guedes
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| Glória
Menezes: "Tem de falar" |
O outro efeito é o simples fato de um personagem central
de novela ter câncer e quanto isso contribui para aliviar
a aura de segredo a ser ocultado que ainda cerca a doença
na vida real. "Escolhi o câncer como foco dramático
da novela pelo estigma que essa doença representa. Pelo horror
que causa às pessoas", diz o autor de Laços de
Família, Manoel Carlos. "Então uma jovem linda,
recém-casada, rica, feliz, em plena lua-de-mel, também
fica cancerosa?" A atriz Glória Menezes está lidando
com esse estigma. Na peça Jornada de um Poema, ela
interpreta uma professora universitária que descobre um câncer
em estado avançado e revê sua vida. "A palavra câncer
ainda é um tabu. Mas, quanto mais se fala no assunto, isso
muda. A doença é curável e essa informação
tem de ser passada", diz Glória, que, como Carolina Dieckmann,
raspou a cabeça por amor à arte.
Uma
vez por semana, Glória discute os temas levantados pela peça
com a platéia, onde é freqüente a presença
de mulheres com câncer. Na imprensa e nos telejornais, cada
passo do tratamento de Mário Covas, cada avanço das
células cancerígenas é tratado em detalhe.
A novela de maior audiência dos últimos anos veicula
doses diárias de didatismo sobre a doença em
geral informações precisas e importantes, apesar de
escorregões como uma elucubração que ligava
o câncer a problemas emocionais, uma falsa crença bastante
comum. Nunca se falou tanto, e tão abertamente, sobre câncer,
uma mudança que os especialistas recebem de bom grado. "O
câncer tem o estigma da dor e do sofrimento. Mas é
preciso falar dele. A sociedade tem de saber conviver com a dor
humana", diz a diretora do departamento de psiquiatria e psicologia
do Hospital do Câncer de São Paulo, Maria Tereza Cruz
Lourenço. "Do ponto de vista da saúde pública,
o importante é que falar do assunto estimula a prevenção
e o diagnóstico precoce", acrescenta o diretor-geral do Instituto
Nacional do Câncer, Jacob Kligerman.
Nos
Estados Unidos, cada vez que uma personalidade anuncia o diagnóstico
precoce de um câncer, há uma comemoração
quase ostensiva nos meios médicos. É hora de reafirmar
os benefícios da prevenção e do acompanhamento
médico constante para garantir a detecção em
estágio inicial. Foi o que aconteceu na semana passada com
a divulgação de que o ainda presidente Bill Clinton
havia feito uma cirurgia para a retirada de uma lesão nas
costas e, com o procedimento, ficou livre de um câncer de
pele de tipo comum. O costume de assumir a doença publicamente
já se arraigou tanto que o senador Bob Dole até exagerou.
Candidato derrotado à Presidência há quatro
anos, ele virou garoto-propaganda do Viagra, exaltando as virtudes
do remédio nos casos como o dele, de impotência provocada
por cirurgia para o câncer de próstata. A decisão
de divulgar ou não uma enfermidade é da esfera da
mais absoluta privacidade, mas hoje já causaria estranheza
a atitude como a de Paulo Maluf, que escondeu seu câncer na
próstata quanto pôde e internou-se no hospital com
nome falso para retirá-lo. Outro ex-governador, Orestes Quércia,
admitiu o mesmo mal tardia e discretamente. Como os dois se curaram,
hoje pouca gente se lembra que ambos tiveram câncer. O caso
mais notório de ocultação da doença
aconteceu na França do presidente François Mitterrand,
que escondeu do público o câncer de próstata,
descoberto já em estado de metástase, durante onze
anos.
Mario Rodrigues
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Frederic Jean
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| Maluf
e Quércia: curados do câncer de próstata, quase ninguém se lembra
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Como
é rara a transparência com que Covas lidou com a doença
desde o primeiro diagnóstico, as obras de ficção
que discutem o câncer acabam tendo um papel fundamental como
campanha educativa. A hematologista Maria Aparecida Zanichelli conta
que o número de pessoas que procuram seu consultório
aumentou cerca de 25% desde que a Camila da novela ficou doente.
"A vigilância das pessoas aumenta. Elas chegam com reclamações
de manchas na pele e anemias leves. É muito positivo, pois
tudo deve ser investigado", diz a médica. O Instituto Nacional
do Câncer aproveita a divulgação da novela para
lançar uma campanha e atrair doadores de medula óssea,
um dos tratamentos possíveis para leucemia. O número
de doadores quadruplicou em uma semana. É o lado bom do efeito
fama.
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