O câncer
verga Covas
Depois
de dois anos
de luta, o
governador
já não
decide sobre seu
tratamento
Flávia Varella
Neuzinha Faccin/Folha Imagem
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| A
primeira-dama, Lila Covas, e o governador: a família
assume o controle |
Desde 1998, quando se diagnosticou que Mário Covas tinha
câncer na bexiga, o governador de São Paulo sempre
deu a última palavra sobre cada etapa do tratamento. Ele
praticamente distribuía ordens entre os médicos, em
vez de obedecê-las. O cenário mudou na quinta-feira
passada. Coube à filha do governador, Renata, decidir que
ele começaria naquele dia a aplicação quimioterápica
contra um novo foco de câncer descoberto em seu organismo.
Os médicos e a família inverteram as prioridades de
Covas, que até então pensava antes na política
e depois em sua saúde ou ao menos procurava convencer
o público disso. Alguns dias antes, ele decidira que só
nesta próxima segunda-feira iniciaria a quimioterapia para
o câncer nas meninges, membranas que revestem o cérebro
e a medula espinhal. O governador chegou a confirmar sua presença
numa agenda pesada de viagens e inaugurações. Antes,
deu uma bronca sonora nos médicos porque a informação
sobre o reaparecimento do câncer vazou antes que ele próprio
fosse informado a respeito.
Covas
manteve-se firme no comando de sua crise de saúde mesmo depois
de novembro passado, quando os médicos lhe removeram o reto
e parte do intestino atacados pelo mesmo mal que já lhe custara
a bexiga. Só nas últimas semanas apareceram os sinais
de exaustão que o levariam a vergar sob o peso da doença.
O sinal veio na madrugada da quinta-feira. Covas sofreu uma queda
em casa, teve escoriações no queixo e quebrou o dedo
mindinho de uma das mãos. Foi levado ao Instituto do Coração
do Hospital das Clínicas na companhia da filha Renata e de
seu médico particular, David Uip. O objetivo declarado era
cuidar dos ferimentos e fazer alguns exames de sangue, além
de investigar melhor as causas do inchaço de pés e
mãos do governador que teimava em resistir aos comprimidos
de diuréticos indicados para esses casos. Enquanto o paciente
estava sedado para a realização desses exames, Uip
informou a Renata sobre a conveniência de iniciar imediatamente
o tratamento quimioterápico. A filha do governador concordou.
A
confirmação do câncer nas meninges acrescentou
outros capítulos dramáticos à luta que o governador
trava em público contra a doença. Nos últimos
dias, com o humor alterado, Covas chegou a fazer um desabafo em
tom de desafio aos jornalistas. "Estou para morrer, podem publicar",
disse. Pouco depois, ao tentar deixar a cadeira de rodas para uma
curta caminhada dentro do Palácio dos Bandeirantes, só
não caiu porque foi amparado por dois assessores.
Os
médicos de Covas têm evitado prognósticos sobre
suas possibilidades de recuperação. "O caso é
muito grave", reafirmou o médico David Uip depois da aplicação
quimioterápica. Covas deveria permanecer internado pelo menos
até o início desta semana e terá de enfrentar
de duas a três aplicações iguais por semana.
Mas tanto a duração da internação quanto
a velocidade do tratamento dependiam, conforme o que se sabia até
a noite de sexta-feira, da contagem de células cancerosas
numa amostra de liquor retirada da espinha do governador depois
da primeira aplicação. Covas iria receber essa informação
dos médicos tão logo cessassem os efeitos dos sedativos
que o mantinham dormindo.
Na
mesma batida de coragem com que se move desde o primeiro diagnóstico
de câncer, Covas nunca deu sinal algum de que pretenda afastar-se
do governo apesar do agravamento de sua doença. Obstinado,
o governador até aqui administrou seus problemas de saúde
com a mesma determinação que costuma demonstrar diante
de questões políticas. "Esse é o jeito dele
de brigar com a doença", diz um assessor próximo,
que tentou conversar sobre esse assunto com o governador e foi repelido.
No primeiro mandato, Covas só foi oficialmente substituído
por seu vice, Geraldo Alckmin, em duas ocasiões: numa viagem
ao exterior e quando se desincompatibilizou para concorrer ao novo
mandato. Depois de reeleito, ele assinou todos os atos de governo,
mesmo durante os períodos de hospitalização.
De
um lado, isso acontece porque Covas é mesmo centralizador
e não admite afastar-se das tarefas para as quais foi eleito.
De outro, quer evitar que seu vice sofra uma tentativa de impugnação
se vier a concorrer a sua sucessão. Pela lógica de
alguns juristas, um vice que tenha assumido o cargo disputa uma
reeleição e, nessas circunstâncias, Alckmin
estaria pleiteando o cargo pela terceira vez em 2002, o que não
é permitido pela lei eleitoral. É tal o cuidado com
isso no Palácio dos Bandeirantes que, na segunda posse, mesmo
com Covas internado por causa da cirurgia na bexiga, Alckmin prestou
juramento na condição de vice. O cargo de governador
ficou vazio por dez dias.
A
possibilidade de São Paulo ter um governador lúcido
mas preso a um leito de hospital já começa a ser discutida
em seus aspectos legais e políticos. "Não há
a menor necessidade de Covas ficar andando por aí para poder
governar", argumenta Geraldo Alckmin, na incômoda posição
de parecer ambicioso em qualquer situação: se disser
que está pronto a assumir, dá a impressão de
ansiar pelo cargo; se afirmar que não assumirá, passa
a idéia de estar pensando num próximo mandato. Além
da eleição de Alckmin, Covas buscou para si mesmo
objetivos como fazer de Tasso Jereissati o próximo candidato
do PSDB à Presidência da República e inaugurar
grandes obras em São Paulo. São desafios enormes.
Sua família está tentando agora que ele brigue, por
um tempo pelo menos, apenas pela vida.
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Uma
outra frente de batalha
Na
manhã da quinta-feira passada, o governador Mário
Covas iniciou uma nova fase da luta contra o câncer.
Com a disseminação das células malignas
pelas meninges as membranas que recobrem o cérebro
e a medula espinhal , ele foi submetido à primeira
sessão de quimioterapia. A doença de Covas tem
um prognóstico ruim e o governador está muito
debilitado, com acumulação de líquidos
pelo corpo. O objetivo imediato do tratamento é aliviar
as dores lombares e de cabeça, o desconforto e fraqueza
nas pernas, todos sintomas da infiltração do
câncer nas membranas. Em 70% dos pacientes, os primeiros
sinais de alívio aparecem depois da segunda sessão
de quimioterapia. O governador deve receber uma nova dose
de medicamentos nesta segunda-feira.
Como as meninges estão localizadas dentro do canal
raquidiano, no interior da coluna vertebral, sem contato com
o meio externo, a quimioterapia difere do tratamento tradicional.
Em vez de o remédio ser injetado na veia do paciente,
a droga é aplicada diretamente na medula uma
agulha com o calibre de um fio de cabelo penetra 3 centímetros
pele adentro, na região lombar do doente. A
cada sessão, Covas recebe uma injeção
de 10 mililitros da droga Metotrexate.
Os registros na literatura médica indicam que, depois
de seis sessões de quimioterápicos, metade dos
doentes deixa de apresentar os indícios de câncer.
Só se fala em cura depois de cinco anos. O sucesso
costuma ser maior quando o tumor de onde se originou a metástase
era da categoria das leucemias, linfomas e mielomas
cânceres chamados hematológicos, ou seja, relacionados
à circulação sanguínea. Não
é o caso do governador. As células doentes encontradas
em suas meninges migraram do câncer de bexiga, diagnosticado
em 1998. Esse era um tumor sólido.
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