Saber
morrer é essencial

Cientistas americanos enfiaram o gene de uma medusa num macaquinho
clonado. Essa experiência abrirá grandes perspectivas
para a humanidade. Um dia, tal qual uma medusa, talvez sejamos
fluorescentes. Poderemos ler no escuro, sem ligar o abajur. Em
outro laboratório, desta vez australiano, os cientistas,
por engano, tornaram muito mais letal o vírus da varíola
em ratos. Agora os mesmos cientistas receiam que a descoberta
possa ser usada por terroristas numa guerra bacteriológica.
Um erro semelhante jamais aconteceria no Rio de Janeiro, visto
que o novo prefeito, numa de suas primeiras medidas, proibiu experiências
com animais. Um a zero para nós.
Morrer
por causa de um vírus criado em laboratório é
uma das paranóias do mundo civilizado. Há outras.
Li a notícia a respeito do supervírus da varíola
num jornal italiano. Naquele mesmo dia, a manchete de primeira
página falava sobre os soldados europeus mortos por leucemia
depois da missão militar na Bósnia. Suspeita-se
que as mortes estejam relacionadas com o emprego de urânio
empobrecido nos projéteis disparados pela própria
Otan. Mais adiante, o jornal alertava que a síndrome da
classe econômica pode ser responsável pela morte
de até 2.000 pessoas por ano. Espero que você esteja
adequadamente informado sobre o assunto. Depois de determinado
número de horas espremido no assento de classe econômica
de um avião, corre-se o risco de sofrer uma trombose. Na
página ao lado, o jornal lançava mais um alarme:
telefones celulares podem provocar câncer no cérebro
e nos olhos.
O
problema é que as causas para todas essas mortes talvez
sejam meio fajutas. Ninguém provou definitivamente que
urânio empobrecido, poltronas de classe econômica
e telefones celulares matem de verdade. Alguns cientistas dizem
que sim, outros que não. Depende de quem financia as pesquisas.
Mas nada exclui que sejam causas imaginárias. Ridiculamente,
os países ricos parecem ter desaprendido a morrer. Vivem
num estado angustiante em que a única coisa certa da vida
–
a morte – deixou
de ser tão certa. Saber morrer é essencial. O que
seria da literatura sem boas mortes? Dá para imaginar os
personagens de Homero ou Shakespeare mortos por tumores supostamente
provocados por telefones celulares? Ou o Novo Testamento com uma
trombose no lugar do martírio da cruz? Sem uma morte à
altura, a vida perde totalmente o páthos.
Nesse
ponto, o subdesenvolvimento apresenta inegáveis vantagens.
No Brasil, por exemplo, ainda preservamos a dimensão épica
da morte: há milhares de vítimas de malária,
lepra e tuberculose, doenças com rica tradição
literária. Temos também febre amarela, leptospirose
e diarréia infecciosa, bem menos exploradas pelas artes,
mas igualmente mortais. Mas quem costuma morrer dessas doenças
não somos eu ou você, e sim uns pobres desgraçados
que fazem a cortesia de morrer em nosso lugar. Quanto aos homicídios,
deixamos os outros no chinelo. A Itália inteira, com as
suas decantadas Máfia, Camorra e Sacra Corona Unita, matéria
de incontáveis filmes e livros, tem um número anual
de homicídios equivalente a um terço do registrado
na cidade do Rio de Janeiro. O mesmo Rio de Janeiro que proibiu
experiências com animais. Dois a zero para nós.