O fuzil de
ouro
Um tiro certeiro deste caçador de talentos
pode fazer um executivo ganhar
mais de
1 milhão de reais por ano
Maurício
Oliveira
Antonio Milena
 |
"A
maioria dos que foram para a internet achando que era a Serra
Pelada digital se deu mal e muitos ficaram queimados" |
O
consultor Robert Wong, 52 anos, é um dos mais destacados
caçadores de talentos no Brasil, ou headhunter, em inglês,
como se costuma usar no mercado. Grandes companhias contratam
seus serviços para selecionar executivos de primeiríssimo
escalão, cujos salários anuais podem passar de 1
milhão de reais. Ele dirige na América Latina a
Korn/Ferry International, consultoria americana que é líder
mundial nesse segmento, e tem entre seus clientes 43% das empresas
listadas entre as 500 mais da revista Fortune. Wong atende
nomes como Telefônica, BCP, Nortel, AT&T, HSBC, Unibanco,
BankBoston, Votorantim e StarMedia. Pela tarefa de caçar
talentos, a Korn/Ferry cobra um terço do salário
anual do executivo contratado. Como só lida com a nata
do mundo corporativo, pode-se concluir que Wong não move
a lupa por menos de 70.000 reais. Um
desafio e tanto para o radar desse ex-engenheiro civil que nasceu
na China e chegou ao Brasil com 3 anos de idade, filho de um general
nacionalista que fugia do regime comunista com a família
de oito filhos.
Veja O ano 2000 começou com o frenesi da corrida
pelos altos salários das empresas da internet e terminou
em ressaca. Como estão os profissionais que migraram da
economia real para a virtual?
Wong
Boa parte está muito arrependida. Conheço um executivo
fantástico que, ao se transferir para um desses portais,
recebeu um lote de ações que naquele momento estavam
avaliadas em 6 milhões de dólares. Mas só
poderiam ser convertidas depois de três anos. Hoje, essas
ações não valem nem 1 milhão. A maioria
partiu para a internet com a premissa equivocada de que era uma
oportunidade de ganhar muito dinheiro. Parecia o garimpo de Serra
Pelada: todo mundo correu para lá em busca de uma enorme
pepita de ouro, mas pouquíssimos encontraram de fato o
tesouro sonhado.
Veja Qual é o conceito no mercado de quem
volta para a economia real depois de uma experiência malsucedida
no mundo das empresas pontocom?
Wong
Se
já era um profissional conceituado antes da experiência
e demonstra ter crescido, ter aprendido uma lição,
não encontra maiores dificuldades para recuperar o espaço
anterior. Mas quem foi apenas em busca de dinheiro e voltou sem
aprender nada saiu queimado. Esses são a maioria, infelizmente.
E o mercado sabe diferenciar um do outro. Quem trabalha mais pelo
dinheiro que por qualquer outra coisa é como aluno que
estuda só para tirar a nota suficiente.
Veja Parecia evidente que o mercado da internet estava
sendo superestimado, mas mesmo assim profissionais experientes
trocaram o certo pelo duvidoso. Como explicar isso?
Wong
As pessoas aderiram para não ficar fora da onda. A natureza
humana é maria-vai-com-as-outras mesmo. E não se
pode negar que havia projetos muito atraentes.
Veja Como saber se ainda vale a pena ir para a internet?
Wong
A melhor referência para prever o futuro do projeto é
saber quem é o líder. É essa pessoa que vai
fazer a diferença. O peso dela é maior até
mesmo que o nome das companhias investidoras. As empresas sérias
pontocom estão percebendo que precisam de um gestor profissional,
alguém com bagagem para transformar aquelas idéias
muitas vezes malucas em resultados, em dinheiro. Gente que tenha
experiência na economia real para liderar os garotos. Mas
há muitos escaldados que não querem nem mais ouvir
falar de internet.
Veja Ações, bônus, participação
nos lucros e outros benefícios variáveis estão
se tornando comuns na remuneração dos executivos
brasileiros. Eles aumentam a dificuldade para saber se vale a
pena trocar de emprego ao receber uma proposta. Como fazer a escolha?
Wong
Realmente está ficando cada vez mais difícil saber
quanto dinheiro se vai ganhar. Antigamente havia um salário
no fim do mês e pronto. Agora há esses novos fatores,
que nem dependem diretamente do desempenho do profissional. É
por isso que o salário nominal está perdendo importância
no momento da decisão pela mudança de emprego. O
fundamental é avaliar se o trabalho será mais abrangente,
mais desafiante, se permite crescimento como profissional e como
pessoa. Depois, convém considerar a cultura da empresa
e o ambiente de trabalho. Só aí a remuneração
deve entrar na balança.
Veja Ao receber uma proposta, como o profissional
deve agir em relação à empresa em que trabalha?
Comunicar imediatamente que está sendo cobiçado
ou apenas quando tiver tomado a decisão de sair?
Wong
Depende do relacionamento que ele tem com a empresa e, principalmente,
com o chefe. Se há abertura e o chefe é ético,
vale a pena falar de imediato. Senão, é melhor negociar
em silêncio e apenas comunicar a decisão, para que
não pareça barganha.
Veja Há muitos profissionais competentes que
não conseguem autopromover-se. O que fazer para aparecer,
brilhar?
Wong
Quem confia em si mesmo consegue se vender sem exagerar, sem parecer
pedante. Até porque é fácil para quem tem
experiência identificar o que é verdade e o que é
lorota. Mas para isso é preciso se desinibir, perder a
vergonha. Fazer cursos de comunicação pode ajudar.
Quem é talentoso, sabe fazer seu trabalho e cultiva boas
relações em seu meio profissional pode ter certeza
de que será observado. Para nós, que vivemos à
procura de talentos, uma indicação confiável
vale muito mais que um currículo primoroso.
Veja Como o senhor obtém informações
sobre os profissionais de destaque no mercado?
Wong
Temos
na empresa uma base de dados com 45.000
nomes de profissionais brasileiros e, além disso, cultivamos
amizades estratégicas em cada setor. Essas pessoas nos
falam sobre quem se destaca. E, é claro, permanecemos atentos
o tempo todo. Fico de olhos abertos enquanto viajo ou participo
de um evento.
Veja Há muitos talentos não revelados?
Wong
Muitos. As pessoas acham que é o currículo que decide
uma contratação, mas ele não passa de uma
referência. Afinal, o que compramos é o futuro do
profissional, não seu passado. Se vou montar um time de
futebol hoje, não vou contratar o Pelé. É
melhor levar o Viola, pois as chances de que ele faça gols
são maiores. O que conta num profissional é a distância
de visão, quanto ele é capaz de se imaginar à
frente, quanto investe para chegar lá. É essa a
importância do MBA, o tão prestigiado curso de especialização
para executivos. Não pelo diploma em si, mas porque é
um indício de que o sujeito tem distância de visão,
é capaz de ter um prejuízo momentâneo para
apostar no lucro lá adiante.
Veja Que característica de personalidade é
vital para um profissional?
Wong
Autoconfiança. Ela faz tudo ser possível. Quem tem
autoconfiança nem pensa se vai dar certo ou não.
Apenas faz, e dá certo. Conheci um malabarista, desses
que andam na corda bamba, e ele me disse o seguinte: "Quando subo
na plataforma e olho para a corda, já me vejo lá
do outro lado. Basta ir ao encontro de mim mesmo". Foi uma bela
lição. O Michael Jordan é o maior jogador
de basquete do mundo porque tem um foco impressionante. Ele diz
que um jogo de basquete é ele, a bola e a cesta. Não
tem público, adversário nem juiz. Ele sabe que a
bola vai entrar. Outra coisa: é preciso ser apaixonado
pelo trabalho, gostar obsessivamente de fazê-lo. O Ayrton
Senna era um exemplo disso. Queria sempre o topo, não admitia
chegar em segundo lugar. Mas a paixão tem de ser temperada
com a realidade. Só assim se consegue realizar projetos,
e é essa a única diferença entre um vencedor
e um sonhador.
Veja Como alguém que gosta muito do trabalho
escapa da tentação de se dedicar demais a ele e
esquecer o resto?
Wong
Percebendo
que a excelência está no equilíbrio. Um indivíduo
completo, que não é apenas um profissional, certamente
vai ter um bom desempenho por muito mais tempo. É por isso
que as empresas estão valorizando quem concilia o trabalho
com a vida familiar, o lazer, enfim, quem demonstra preocupação
com o corpo e o espírito.
Veja Mas há muitas empresas que afirmam valorizar
esse tipo de profissional e, na prática, exigem um volume
de trabalho tão grande que é impossível passar
menos de doze horas no escritório...
Wong
Infelizmente, o discurso e a prática não coincidem
em boa parte dos departamentos de recursos humanos.
Veja Quando uma empresa "encomenda" um executivo,
costuma definir parâmetros de idade ou de sexo?
Wong
Essas restrições existem, sim. Já tivemos
encomendas específicas para profissionais negros, por exemplo,
de empresas interessadas em promover a diversidade. Companhias
que pedem mulheres para determinados cargos também é
algo que está se tornando comum. Há tabus que permanecem,
no entanto. Ainda existe resistência para mulheres em cargos
de comando em fábricas ou para funções que
exijam muitas viagens, em razão do preconceito contra a
mulher que viaja sozinha.
Veja Quantas pessoas são sondadas num processo
de seleção antes de se chegar ao escolhido?
Wong
Em média, uma seleção de altos executivos
parte de algo entre 100 e 150 nomes, que depois são reduzidos
para vinte ou 25. Nesse grupo, cada um é sondado ou até
mesmo entrevistado para definir a dúzia que entrará
na fase decisiva. Daí saem os finalistas, que podem ser
três, quatro ou cinco. Dependendo da complexidade, esse
processo dura entre três meses e um ano.
Veja É muito difícil escolher apenas
um entre tantos candidatos do mesmo nível?
Wong
É nessa hora que entram fatores cruciais, embora não
sejam concretos: a sensibilidade, o carisma, a empatia. Escolher
alguém não é uma ciência exata. Numa
entrevista, vale mais o que não se fala. Os gestos, a comunicação
não-verbal são decisivos. É preciso olhar
nos olhos do outro durante a conversa, ter uma postura atenta.
Veja A seleção costuma exigir sigilo.
Em que ponto do processo o executivo sabe o nome da empresa que
está interessada nele?
Wong
Muitas vezes ele só toma conhecimento disso no último
momento, na etapa final. O processo de seleção é
um namoro que exige aproximação gradual e segura,
para que as partes se conheçam melhor. E há casos
em que o sigilo realmente precisa ser total. Quando o HSBC planejava
comprar o Bamerindus, fui contratado para sondar executivos no
mercado. Se a informação vazasse, seria um deus-nos-acuda.
Neste momento, estou fazendo um recrutamento que apenas três
pessoas no mundo sabem: o presidente mundial da empresa, o diretor
mundial de recursos humanos e eu. Não posso comentar nada
com quem trabalha comigo, nem mesmo com minha mulher.
Veja De que os executivos brasileiros se queixam?
Wong
No geral, há uma grande frustração com o
trabalho. Mais da metade dos executivos com os quais converso
gostaria de ter sido outra coisa na vida, de estar exercendo outra
profissão. E constatar isso aos 40 anos é lamentável.
Boa parte da culpa é do sistema educacional adotado no
Brasil, que obriga o adolescente a decidir aos 14 anos se vai
seguir exatas, humanas ou biológicas.
Veja Em que setores da economia o jovem deve apostar?
Wong
Temos de aprender a valorizar o que é nosso. Nunca seremos
Primeiro Mundo em automóveis, computadores e telecomunicações,
porque a distância tecnológica em relação
aos japoneses, europeus e americanos é muito grande. Mas
há três setores em que o Brasil tem vocação
para liderar: negócios ligados à área agrícola,
ao turismo e à mineração. Nesses, vale a
pena apostar.
Veja O mercado tem sido inundado por livros de auto-ajuda,
e a vida profissional é um tema constante deles. Esse tipo
de leitura não é "cascata"?
Wong
Acho que qualquer coisa que possa contribuir de alguma forma é
bem-vinda. Um livro desses pode revelar um novo caminho, fazer
pensar de outro jeito, por que não? Não há
razão para ter preconceito.
Veja Acontece de um caçador de executivos
errar a mira e escolher a pessoa errada?
Wong
Claro que sim, mas nossa obrigação é fazer
o máximo para que esses casos sejam a exceção.
Todo mundo erra, não? Quantos não erram ao escolher
o marido ou a mulher?
Veja Como o senhor reage às críticas
aos headhunters, que chegam a ser chamados de "gigolôs de
executivos"?
Wong
O que posso dizer é que nosso trabalho tem sido considerado
importante, tanto que grandes companhias continuam nos procurando.
Mas o termo headhunter tem mesmo algo de pejorativo, porque lembra
caça, enfim, sugere que obrigamos as pessoas a fazer o
que não querem. E o que acontece é justamente o
contrário. Quem não fica feliz ao receber uma bela
proposta de trabalho?