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Sérgio Abranches

As desigualdades do Brasil

"É preciso revelar os mecanismos das
desigualdades, reconhecer que nem
todos passam pelo
governo e começar
a
escolher a sua eliminação se quisermos
completar o processo civilizatório do Brasil"


Ilustração Ale Setti


O Brasil tem-se preocupado mais com suas desigualdades. Isso é bom, mas não basta. É preciso ir à raiz do problema. Não se acaba com as desigualdades da noite para o dia nem somente com políticas sociais. Uma boa parte delas não está relacionada com as políticas sociais, mas com escolhas econômicas. E as maiores desigualdades têm mais a ver com atitudes e instituições do que com políticas públicas pontuais.

Simplificando muito, há dois tipos de desigualdades: criadas e duráveis. As criadas resultam de escolhas de políticas públicas, como, por exemplo, quanto transferir de recursos públicos para que setores da sociedade, ou decisões que aumentam a inflação. As desigualdades duráveis decorrem da discriminação social, econômica e legal. As miríades de "microdecisões" que são tomadas diariamente, na rua, no prédio, no clube, na escola, na empresa, que discriminam negros ou mulheres, reproduzem desigualdades nascidas de processos estruturais de longo curso, que vêm das profundezas de nossa História. O esforço para mudar um tipo e outro de desigualdade é muito diferente.

A decisão de interromper a transferência de dinheiro público para os setores "não pobres" da população para financiar mais bolsa-escola para crianças realmente pobres dá resultados palpáveis no final do primeiro ano fiscal. Aprovar uma lei dizendo que o racismo é crime não tem efeito imediato sobre as conseqüências humanas, sociais, políticas e econômicas duráveis do racismo, nem acaba com ele. Temos essa lei e o racismo para prová-lo.

Essas duas desigualdades têm algo em comum: grande parte das decisões e dos mecanismos que as sustentam não é visível para a maioria. Não tomamos consciência de como os impostos que pagamos são usados para agravar as desigualdades, subsidiando os ricos e remediados, e não para reduzi-las. Como só poucos casos de humilhação e discriminação por racismo vêm a público, tem-se a impressão de que esta é uma questão menor, quando ela explica uma parte significativa da pobreza e da desigualdade no Brasil.

O governo federal distribuiu 26% de sua receita de impostos sob a forma de subsídios em 1999. Foram mais de 40 bilhões de reais. O mesmo que todo o custeio da máquina pública. São 4% do PIB. O Orçamento não inclui 60% dessas transferências. E isso não esgota os mecanismos pelos quais privilégios corporativistas, setoriais e regionais operam para aumentar a concentração pessoal, funcional e regional da renda. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda começou a explicitar essas transferências, montando um orçamento de subsídios para 1999: 58% deles vão para políticas setoriais, que beneficiam empresas; 28% são direcionados a políticas sociais e 14% a políticas regionais. Mas esses recursos "sociais" que beneficiam apenas os trabalhadores formais não vão para os despossuídos.

A Lei da Informática gastou 1 bilhão de reais em 1998-1999, para subsidiar empresas – fora os subsídios da Zona Franca – protegidas por altas tarifas de importação, para vender produtos muito mais caros. Ou seja, subsidiamos para ficar atrasados. Esse recurso ajudaria a combater desigualdades se fosse usado para colocar computadores em 97% de escolas públicas de ensino fundamental que não os têm.

Nelson do Valle Silva explicitou o caminho das barreiras à mobilidade social dos negros em um ótimo artigo de um importante livro: Tirando a Máscara: Ensaios sobre o Racismo no Brasil. Ele mostra que mais de 70% das desigualdades entre negros e brancos se explicam pela diferença nas chances de progresso pessoal. Os negros não são pobres porque nascem pobres. Eles são aprisionados na pobreza por barreiras à sua ascensão. Para se ter uma idéia dessa discriminação: 49% da diferença de renda entre brancos e negros se deve a desigualdades no mesmo estrato social. Em outras palavras, peão branco ganha mais que peão negro, administrador branco mais que administrador negro, doutor branco mais que doutor negro. Para não falar das mulheres: camponesa negra ganha menos que camponês negro, que ganha menos...

É preciso revelar os mecanismos das desigualdades, reconhecer que nem todos passam pelo governo e começar a escolher a sua eliminação se quisermos completar o processo civilizatório do Brasil.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 

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