Adeus aos milhões

Os bancos brasileiros de investimento
demitem seus funcionários de elite

Jiovanini Ciccone em
uma empresa de
recolocação e José
Berenger
(abaixo):
ajuste depois
da quebradeira
Foto: Egberto Nogueira  


Foto: Regis Filho

O trabalho dos jovens operadores do mercado financeiro exerce um fascínio sobre boa parte das pessoas. Com menos de 40 anos de idade, eles têm um patrimônio superior a 1 milhão de reais (quando não ganham isso num ano, a título de bonificação no banco), são o orgulho dos pais e alvo dos ciúmes dos primos advogados e médicos. Só que agora o poço secou. Num processo iniciado em setembro, como conseqüência das perdas provocadas pela quebradeira da Rússia, os bancos de investimento já demitiram mais de 300 dos 1.500 operadores de mercado em atuação no país. No início do mês, o BankAmerica anunciou o corte de 20% de seus funcionários brasileiros. Cortou alguns outros na semana passada. O gigante americano J. P. Morgan reduziu sua tesouraria no Brasil de 25 para dez pessoas. O alemão Deutsche Bank demitiu toda sua mesa de operações, onde trabalhavam doze pessoas. As promessas de demissão continuam, e quem permanece empregado está com medo de ser o próximo da lista. Até porque muitos dos que ficaram têm um currículo idêntico (ou até um pouco inferior) ao dos que foram afastados.

A guilhotina vem atingindo vítimas de todos os tamanhos. Há entre eles jovens de 25 anos de idade, com dois ou três anos de experiência, e pesos pesados como José Berenger, vice-presidente da subsidiária do banco holandês ING no Brasil. Berenger era considerado uma fera na área de câmbio, um dos melhores operadores na compra e venda de dólares. Ganhou vários milhões nesse jogo. Na época em que saiu do banco estava trabalhando em Nova York. Outro exemplo é Eduardo Leme, vice-presidente do BankAmerica. Ele começou como operador e trabalhou onze anos no banco até a crise da Ásia, quando saiu alegando cansaço. "Essas pessoas estão sentindo na pele o que é um mercado de risco", analisa Adelaide Du Plessis, da Financial Executive Search Associates, uma das grandes empresas de head-hunting do país. "E aqueles com quem eu tenho contato já falam em aceitar empregos com salário menor."

Mudança de filosofia — De cada três pessoas que trabalhavam no mercado financeiro em 1980, apenas uma mantém o seu emprego. Os bancários eram 1,2 milhão naquela ocasião. Hoje são pouco mais de 400.000. Os demitidos podem ser reunidos em dois grandes grupos. Há as chamadas demissões "tecnológicas", fruto do aumento de transações financeiras pelo computador ou da redução do total de clientes nas agências. Nesse grupo se encaixam os responsáveis por atividades repetitivas que já não mais se justificam. É o caso dos caixas em agências e de certos postos de gerência, além do pessoal de apoio. Outro grande grupo de demitidos advém do processo interminável de fusões entre bancos. Em função delas, milhares de postos de trabalho foram anulados para baixar custos operacionais. Onde havia dois analistas de crédito, um espirrou. Perto desses grandes grupos, pode parecer até provocação se debruçar sobre três centenas de demissões ocorridas entre os operadores de mercado. Acontece que a eliminação desses postos de trabalho tem uma dimensão muito maior do que parece. O afastamento dessas pessoas representa uma mudança de filosofia no setor financeiro. "Não temos mais espaço para as apostas", diz Cândido Bracher, um dos sócios do banco BBA. "A partir de agora, só vai ficar o melhor porque o mercado de risco encolheu", analisa.

Os operadores das corretoras e dos bancos de investimentos viveram um boom desde o Plano Real. Nesses quatro anos, apenas em bônus os profissionais menos gabaritados levaram para casa mais de 500.000 reais por ano. Os realmente bons, chamados de feras, receberam mais de 1 milhão de reais como prêmio no final de cada ano. Como conseqüência das demissões, muitos deles estão reduzindo as despesas do dia-a-dia, cortando excessos e abrindo mão de alguns luxos (veja quadro). "Eles tinham um padrão de vida muito alto e caíram do pedestal muito rápido", comenta o dono de um grande banco de investimento. "Nunca foi tão fácil comprar cavalo de raça e lancha seminova." O economista Jiovanini Ciccone era tesoureiro do Citibank no Brasil havia cinco anos e recebeu a notícia de sua demissão três meses atrás. Desde então, reduziu alguns gastos pessoais e vai diariamente a uma empresa de recolocação de executivos paga pelo Citi, para procurar uma nova oportunidade. "Minha demissão era inevitável na reestruturação", conta Ciccone. "Espero ainda voltar ao mercado."

Quem ficou também parece que não vai ter mais a boa vida dos tempos de ouro do Real. Os bônus, que representam o grosso dos rendimentos desse pessoal, estão quase desaparecendo. No BBA, um dos mais agressivos bancos de investimento nacionais, muita gente não vai receber bônus. No Merrill Lynch, que eliminou 3.500 empregos no mundo todo, até as festinhas de Natal foram suspensas. Alguns dos principais bancos nacionais de investimento, como o Matrix, o Patrimônio e o Pactual, deixaram de contratar. A Bolsa de Valores de São Paulo, um termômetro desse mercado, movimentou em novembro 472 milhões de dólares por dia em média, a metade do que fazia no ano passado. A perspectiva para o futuro não é boa. O paradoxal, nessas demissões, é que as vítimas ganhavam a vida prevendo o comportamento futuro do mercado financeiro. Acabaram pegos pela crise na contramão.

O que eles gostam de comprar

Carro Audi A4
de 50.000 reais
Relógio Breitling
de 3.000 reais
Gravata Hermés
de 150 reais
Casa na praia
de 200.000 reais

Fotos: Marcos de Bari/Regis Filho/Maison Hermes/Renata Ursaia

Leandro Loyola




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