Maílson da Nóbrega
Temos instituições fortes
"A blindagem contra
a irresponsabilidade prevalece
também na economia. As reformas dos
anos 1980 e 1990,
que contribuíram para o êxito do Plano Real, criaram
incentivos
à condução sensata da política econômica"
Aos
olhos de muitos, a corrupção desvendada em Brasília é
sinal de fragilidade institucional. Imagina-se que seus protagonistas ficarão
impunes. E, como lembrou José Murilo de Carvalho, sem punição
a corrupção compromete o "funcionamento do sistema democrático,
na medida em que desmoraliza suas instituições".
Como,
então, falar em instituições fortes? Depende do conceito
de instituições. No Brasil, elas costumam ser entendidas em sentido
estrito: as normas que regem o sistema político e a democracia. Teriam
a ver com a coisa pública: as leis, o regime, o governo, o Congresso, as
instâncias do Judiciário, os partidos políticos.
As
instituições derivam da interação social e por isso
podem ser construídas. Evoluem ao longo do tempo, de forma gradual. É
o que tem ocorrido no Brasil, em meio à grande expansão do eleitorado.
Mesmo no sentido estrito, nossa jovem democracia se consolida, malgrado ainda
não inibir a contento a corrupção.
Uma
das melhores definições de instituições é a
de Douglass North. Para ele, instituições são as regras do
jogo, formais ou informais, que alinham incentivos para ações de
natureza política, social ou econômica. Outro estudioso do tema,
Max Weber, aludiu ao papel desempenhado pelos ritos, pelos valores e pelas tradições
da sociedade.
A imprensa é parte das instituições.
No campo político, sua função é fiscalizar o governo,
escancarar a corrupção e contribuir para o avanço institucional.
No plano econômico, cabe-lhe auxiliar os mercados a avaliar riscos via acompanhamento
dos indicadores e da ação do governo e dos políticos.
As
crenças também integram as instituições. Nesse campo,
uma das mais importantes mudanças mentais da sociedade brasileira: a intolerância
à inflação, principalmente entre os pobres.
Esse
conjunto nos legou instituições fortes em um aspecto básico:
a preservação das conquistas da democracia e da estabilidade econômica.
Sua força deriva da capacidade de constranger os atores políticos
a disputar o poder por meio das regras do jogo e a não promover rupturas
que tragam de volta a inflação desembestada.
O
governo Lula é a grande prova dessa realidade. Movido por visões
autoritárias, propôs a criação do Conselho Federal
de Jornalismo e da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav),
que controlariam a atividade da imprensa e as relacionadas à cultura. A
sociedade reagiu, e o Congresso rejeitou as propostas.
A blindagem
contra a irresponsabilidade prevalece também na economia. As reformas dos
anos 1980 e 1990, que contribuíram para o êxito do Plano Real, criaram
incentivos à condução sensata da política econômica.
O Banco Central adquiriu autonomia operacional. As ações no campo
fiscal e monetário se tornaram previsíveis.
Fruto
de seu faro político e da intuição, que o guiaram pelo caminho
correto, Lula percebeu o novo quadro institucional: a volta da inflação
minaria sua popularidade e a confiança no Brasil. Apesar de ter prometido
uma ruptura antes de chegar ao governo, decidiu manter e reforçar a política
econômica herdada de seu antecessor.
Construímos,
pois, fortes instituições, que são fruto de convicções
democráticas da sociedade, da valorização da estabilidade
econômica e da qualidade da imprensa. A esse conjunto se agregam os efeitos
positivos do voto do analfabeto (os pobres agora votam), da sofisticação
do sistema financeiro e da maior inserção do país na globalização.
Por causa disso, o presidente Lula resistiu a pressões
de companheiros, políticos, empresários e economistas em favor de
medidas inflacionistas. Ele também não seguiu maus conselhos para
buscar um terceiro mandato consecutivo, o que, em caso de sucesso, abalaria as
instituições políticas.
Nossas instituições
previnem aventuras políticas e o voluntarismo (eu quero, eu posso) na economia.
Novos avanços são necessários para inibir práticas
contrárias ao crescimento futuro da economia, como é o caso do recente
renascimento de visões estatizantes e de ações que sinalizam
gastos e endividamento público preocupantes.
Seja como
for, nossas instituições já nos acautelam contra a instabilidade
política e econômica. Não é pouco. Por isso, são
muito fortes.
|