Cidades
Ruído
do mal
Um estudo sobre o barulho provocado por aviões alerta
para os riscos do excesso de decibéis

Diogo Schelp
O silêncio
é um ilustre desconhecido das grandes cidades. Até nos momentos
em que os serviços públicos que movem a vida moderna cessam
durante um blecaute, por exemplo , os sons urbanos permanecem. E eles fazem
mal à saúde. Pelos critérios da Organização
Mundial de Saúde, ruídos constantes acima de 55 decibéis
durante o dia e 40 decibéis durante a noite são nocivos. No cotidiano,
um cidadão enfrenta diversas situações que extrapolam esses
limites, de restaurantes cheios a ruas movimentadas. Dados sobre o impacto do
barulho de aeroportos na saúde pública da Alemanha, divulgados na
semana passada, mostram que os efeitos dos ruídos urbanos no organismo
são ainda piores do que se sabia. O estudo, encomendado pelo governo alemão,
cruzou os níveis de ruído registrados em bairros próximos
a um grande aeroporto com o histórico médico de seus moradores
um total de 1 milhão de pessoas. Conclusão: a exposição
permanente a mais de 40 decibéis aumenta o risco de doenças cardiovasculares,
como derrame, infarto e hipertensão. Os pesquisadores também descobriram
que o risco de surgir um desses distúrbios é ainda maior em mulheres
e pessoas submetidas ao barulho de aviões durante a noite. Chega a ser
assustador: uma mulher exposta todas as noites a 55 decibéis ou mais tem
139% mais probabilidade de sofrer um derrame cerebral do que a média da
população.
Os autores do estudo acreditam que
a maior vulnerabilidade das mulheres pode ser explicada pelo fato de elas permanecerem
mais tempo em casa do que os homens e, portanto, ficarem expostas por mais
tempo ao barulho do aeroporto. Já a razão para os efeitos serem
especialmente nefastos à noite é bem conhecida pela ciência:
para ter um sono realmente restaurador, o ideal é que os ruídos
do ambiente não ultrapassem os 35 decibéis. Como um ar-condicionado
velho a 2 metros de distância (cerca de 60 decibéis) produz um nível
de ruído equivalente ao de um avião a 250 metros de altitude, isso
significa que é melhor passar calor durante a noite? Certamente, o mais
saudável seria trocar o aparelho os novos modelos de ar-condicionado
registram menos de 40 decibéis. Mas o avião tem uma agravante: ele
produz um som intermitente, ao contrário do barulho constante do ar-condicionado.
"O organismo de uma pessoa dormindo submetida a um ruído intermitente
reage como se estivesse sendo agredido e, assim, entra em alerta, mesmo que não
se acorde", explica o neurofisiologista mineiro Fernando Pimentel de Souza.
"Isso mantém o indivíduo em um estado de sono fragmentado e
eleva a pressão arterial."
 |
|