J. R. Guzzo
Primeira
classe
"Os ministros
do STF, com as exceções de sempre,
têm conseguido, na
prática, tornar a Justiça brasileira
cada vez mais incompreensível"
A Câmara
Distrital de Brasília, essa mesma do noticiário policial, deveria
começar 2010 com a inauguração de uma nova sede, cuja construção
foi decidida em 2001, teve as obras paralisadas durante quatro anos por ladroagem
geral e seria entregue, finalmente, em fevereiro próximo. Em fevereiro?
Eis aí um real problema. O novo prédio, um colosso de 50 000
metros quadrados que atenderá aos confortos dos 24 deputados de Brasília
e custou ao contribuinte brasileiro quatro vezes o previsto no orçamento
inicial, ou perto de 100 milhões de reais, terá de ser inaugurado
por alguém. Mas quem? Um candidato natural, o governador do Distrito Federal,
foi pego em flagrante recebendo um tijolo de dinheiro vivo no esquema de propinas
recém-descoberto em seu governo; após se desligar do DEM, do qual
iria ser expulso, termina o ano desfilando no bloco dos mortos-vivos da política
brasileira. Outro nome indispensável para a cerimônia de inauguração
seria o próprio presidente da Câmara Legislativa; mas foi esse, justamente,
o deputado que a investigação policial filmou escondendo dinheiro
na meia. Pediu afastamento do cargo, antes de ser deposto, e, como o governador,
transformou-se em ectoplasma político.
Os dois, no
momento, não estão em condições de inaugurar nem sequer
um abrigo em ponto de ônibus; ou reencarnam até fevereiro, caso a
história acabe esquecida até lá, ou a inauguração
do mais novo palácio de Brasília, com heliporto, piso de granito
e estacionamento para 1.000 carros, terá de ficar com o sub do sub do sub.
Com o tempo todo que foi gasto em sua construção, o prédio
bem que poderia ter ficado pronto um pouco mais cedo o que teria permitido
a festa antes de serem servidas ao público as imagens de escroqueria que
todos viram. Ou então, já que a coisa atrasou tanto, que atrasasse
mais ainda, para não haver cerimônia alguma em futuro visível.
Mas não: a obra está sendo terminada bem agora, quando seus beneficiários
mal podem colocar a cara na rua. É uma demonstração, talvez,
de que a Divina Providência ainda não perdeu o senso de humor.
A
Constituição brasileira proíbe a prática da censura
em todo o território nacional; não se prevê nenhuma exceção.
Mas o jornal O Estado de S. Paulo está sob censura desde o dia 31
de julho de 2009: não pode, por ordem judicial, publicar nem uma palavra
sobre o processo por corrupção que envolve o empresário Fernando
Sarney, filho do senador José. (O autor da sentença, um juiz federal
de Brasília, é amigo querido da família Sarney.) Por quatro
vezes, nestes últimos cinco meses, o jornal recorreu à Justiça
pedindo que a censura fosse levantada; nas quatro vezes teve o seu direito negado.
Viu-se obrigado, assim, ao disparate de apelar ao Supremo Tribunal Federal para
resolver uma questão que já deveria ter sido resolvida muito antes
e muito abaixo. Um desastre, sem dúvida mas nunca se deve subestimar
a capacidade do STF de tornar as coisas ainda piores do que já são.
No caso, os ministros supremos decidiram manter a censura.
O jornal O Estado de S. Paulo pediu ao STF algo extremamente simples: que
pusesse fim a uma situação obviamente ilegal, pois, se o artigo
5º da Constituição proíbe a censura no Brasil, o único
entendimento possível é que não pode haver censura no Brasil.
Nada disso, decidiu o Supremo; quem está errado, no seu entendimento, é
o jornal. Deveria ter entrado com o recurso XPTO-1, em vez de entrar com o recurso
XPTO-2, ou falhou em alguma outra questãozinha de baixa burocracia processual.
Ou não poderia divulgar informações de um processo que corre
sob sigilo de Justiça sigilo cuja guarda não é responsabilidade
da imprensa. Ou então, segundo o prodigioso raciocínio de um dos
ministros, não existe censura alguma, pois foi um juiz quem proibiu a publicação
das notícias sobre Fernando Sarney e, se foi um juiz quem resolveu,
não é censura, é apenas uma decisão judicial. Ou seja:
se o autor da proibição fosse um sargento da PM, aí, quem
sabe, talvez se pudesse discutir a coisa. Mas foi um juiz. Fim de conversa.
Os
ministros do STF, com as exceções de sempre, acham que são
os magistrados mais sábios que a humanidade já viu desde o rei Salomão.
O que têm conseguido, na prática, é tornar a Justiça
brasileira cada vez mais incompreensível.
Ainda
bem que o Brasil, como nos garante o presidente Lula, é um país
de primeira classe.
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