Entrevista: Bjorn Lomborg
Podemos fazer melhor
O
principal representante dos céticos diz que o combate ao aquecimento global
tem de se basear em tecnologia, e não em mudanças no consumo

Ronaldo
França, de Copenhague
Andres Birch/Laif/Other
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"Não sou um cético da ciência,
sou um cético das políticas
de combate ao aquecimento global" |
O cientista político dinamarquês Bjorn Lomborg, de 44 anos, não
tem carro. Usa bicicleta ou metrô para se deslocar em Copenhague. Lomborg
é um dos mais respeitados entre os pesquisadores céticos em relação
aos efeitos catastróficos do aquecimento global. Seus livros e artigos
provocam a ira de ambientalistas, mas seus argumentos afiados também são
ouvidos com atenção pelos cientistas. Sua descrença se dá
em torno da histeria criada acerca do assunto e do que se pretende fazer para
solucionar o problema da elevação da temperatura. "Não
sou um crítico da ciência que prova o aquecimento. Sou um crítico
da política de combate ao aquecimento." Ele concedeu a seguinte entrevista
a VEJA na sede da COP15, em Copenhague.
Qual foi o estrago
do "climagate", o escândalo do vazamento de e-mails em que cientistas
confessam a manipulação de dados para reforçar a tese do
aquecimento global?
O que está claro é que havia uma inclinação
evidente para não compartilhar dados com pesquisadores cujos trabalhos
não reforçariam a teoria do aquecimento global. Possivelmente, os
dados foram mascarados, o que não significa exatamente uma falsificação.
Sim,
mas mascarar dados não é suficiente para invalidar toda a pesquisa?
Não. É um erro achar que esse escândalo invalida todo o trabalho
que os cientistas do clima produziram nas duas últimas décadas.
O aquecimento global está aí. É um desafio.
Então,
o senhor aconselha a esquecer o episódio e continuar levando seus autores
a sério?
Não é isso. O escândalo não pode ser
considerado apenas uma tempestade em copo dágua. O que eles fizeram
é muito sério e perturbador. Tem implicações muito
maiores. Esses cientistas formam uma máfia que se apossou da questão
do clima. Tive muitos problemas com essa máfia do clima. Quando estava
escrevendo meu livro, tentei me corresponder com alguns daqueles pesquisadores
que detinham dados pelos quais eu tinha interesse. Recebi de volta algumas mensagens
em cujo campo de destinatário eu fui incluído por engano. Foram
mensagens reveladoras. Elas diziam: "Esse homem é perigoso. Não
forneçam nenhum dado a ele. Devemos ter cuidado em não deixar que
nossas informações apareçam em pesquisas públicas".
Por
que o senhor é cético em relação às previsões
sobre o aquecimento global?
Discordo da forma como as discussões sobre
esse tema são colocadas. Existe a tendência de considerar sempre
o pior cenário o que aconteceria nos próximos 100 anos se
o nível dos mares se elevar e ninguém fizer nada. Isso é irreal, porque é óbvio que as pessoas vão mudar, vão
construir defesas contra a elevação dos mares. No entanto, isso
é só uma parte do que tenho dito. Sou cético em relação
a algumas previsões, sim. Mas sou cético principalmente em relação
às políticas de combate ao aquecimento global. O problema principal
não é a ciência. Precisamos dos cientistas. A questão
é que tipo de política seguir. E isso é um aspecto econômico,
porque implica uma decisão de gastar bilhões de dólares de
fundos sociais. Em outras palavras, não sou um cético da ciência
do clima, mas um cético da política do clima. Basicamente, digo
que não estamos adotando as melhores políticas porque não
estamos pensando onde gastar o dinheiro para produzir os maiores benefícios.
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| "ONGs
verdes querem mudar a natureza humana, dizendo
que não se deve querer ter ou gastar
mais. É muito difícil. Prefiro
ter tecnologia e fazer o que quiser, mesmo
emitindo CO2" |
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O
relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
da ONU) diz que a humanidade é "provavelmente" responsável
pelo aquecimento. O que significa esse "provavelmente"?
Os cientistas
estão dizendo que têm 90% de certeza. Que há fortes evidências
de que somos responsáveis em pelo menos 50% pela elevação
da temperatura. É a partir daí que temos de elaborar as políticas.
Se a maior parte dos cientistas diz que algo provavelmente vai acontecer, temos
de agir de acordo com essa informação. O que não significa
que não se deva garantir financiamento às pessoas que trabalham
para descobrir erros nessa proposição. Deveríamos gastar
dinheiro com as pesquisas dos céticos justamente para aperfeiçoar
a informação que tem dominado os debates.
Com
que cenários é razoável trabalhar quando se fala da elevação
do nível dos oceanos?
Quando perguntamos aos cientistas do IPCC qual seria
o resultado mais provável do aquecimento sobre o mar, eles disseram que
o nível das águas subiria entre 18 e 59 centímetros. Esse
é o parâmetro mais aceitável. Não faz sentido trabalhar
com cenários de até 6 metros, como quer o Al Gore, ex-vice-presidente
americano. Porque é tão improvável que isso aconteça
quanto que não haja elevação alguma. As pessoas que fazem
projeções catastróficas acreditam que fazer mais alarde estimula
a população a agir. Mas vale lembrar: análises e argumentos
baseados no pior dos piores cenários induzem ao pânico, e o pânico
não é a melhor forma de fazer um bom julgamento. Esse foi o mesmo
argumento que George W. Bush usou quando invadiu o Iraque. Ele disse que estava
absolutamente certo sobre a localização das armas de destruição
em massa, e o resultado foi o que se viu. Por isso prefiro trabalhar com os impactos
mais prováveis.
Quais são esses impactos?
Costumamos
esquecer que a maioria dos lugares ricos no mundo conseguirá lidar com
o aquecimento global. Sabemos disso porque é o que os holandeses vêm
fazendo desde o século XVII. A Holanda tem 60% de sua população
vivendo abaixo do nível do mar. O principal aeroporto de Amsterdã
fica 3 metros e meio abaixo do nível do mar. É simplesmente
uma questão de tecnologia. Ninguém que vai à Holanda fica
pensando: "Ai, meu Deus, estou abaixo do nível do mar". Não
que isso não seja problemático ou custoso. Mas é um custo
que chega a 0,5% ou no máximo 1% do PIB. Então, é bom enfatizar,
o Rio de Janeiro nunca vai submergir, tampouco Nova York. Nos últimos 150
anos, o nível do mar subiu 30 centímetros. Pergunte a uma pessoa
muito idosa quais as coisas mais importantes que aconteceram no século
XX. Ela vai mencionar as guerras mundiais, ou talvez a revolução
tecnológica. Sua resposta não vai ser que o nível do mar
subiu.
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| "Tive problemas com a máfia do clima. Quando
escrevi meu livro, recebi por engano, de
pessoas a quem pedi informações, mensagens
que diziam: Esse homem é
perigoso, não lhe forneça nenhum dado" |
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Fala-se muito do impacto causado pela forma como as
pessoas desperdiçam produtos e energia. Como o senhor faz no seu dia a
dia?
Há muita confusão em torno desse debate sobre consumo ético,
como se a questão toda se resumisse ao que a pessoa faz. É uma visão
torta porque, no fim das contas, o que nós fazemos está profundamente
regulado pela forma como a sociedade funciona. Posso pegar um ônibus em
vez de um carro na Dinamarca (eu nunca tive carro). Mas não poderia fazer
isso nos Estados Unidos. Por isso, acho que reduzir tudo à ideia de que
você deve fazer algo sobre seu consumo não é o melhor caminho.
Para dar uma noção de proporção, se todos no mundo
ocidental trocassem suas lâmpadas atuais por um modelo mais econômico,
ao final de um ano as emissões se reduziriam apenas o equivalente à
quantidade de CO2 que a China joga na atmosfera em um dia. Acho inútil
adotar o argumento de que não se deve agir desta ou daquela maneira porque
é imoral. Resumindo: organizações verdes querem mudar
a natureza humana, dizendo que não se deve querer ter ou gastar mais. É
muito difícil mudar a natureza humana. Prefiro mudar a tecnologia. Assim,
poderemos fazer o que quisermos, mesmo emitindo CO2.
As
empresas estão fazendo sua parte?
A maioria das coisas que se veem
por aí é marketing. É o chamado banho verde. Estão
fazendo economia de energia como sempre fizeram, desde o início do século
XIX, de quando datam as estatísticas. Todas as empresas, em todos os lugares,
inclusive nos Estados Unidos e na Europa, vêm reduzindo o desperdício
de energia. Ou usando cada vez menos energia para cada dólar que produzem.
O que é uma das maneiras de manter a liderança no mundo dos negócios.
Cada vez que conseguem essa redução, anunciam que estão economizando
CO2. Mas é óbvio que o que estão economizando são
dólares. Não há nada de errado nisso. Só não
devemos achar que elas estão salvando o planeta.
Por
que o crescimento populacional não é levado em consideração
nas discussões sobre clima?
Se fosse possível limitar substancialmente
o crescimento da população mundial, provavelmente as emissões
não aumentariam tanto. Mas você só consegue alterar essa variável dramaticamente num regime autoritário como o da China,
onde o governo determina que os casais só podem ter um filho. Não
acho que se vá reduzir a taxa de natalidade com informação.
As pesquisas mostram que as pessoas agem de forma muito racional sobre o número
de filhos que têm. Para os pobres, crianças são fonte de renda.
Para os ricos, representam despesa. Então você pode interferir no
tamanho da prole tornando as pessoas mais ricas. Independentemente disso, é
preciso lembrar que a principal razão para os nascimentos até 2050
não é que muitas pessoas têm muitos filhos, mas porque há
muitos jovens que ainda não têm filhos e querem ter. Até lá
teremos provavelmente mais 2,5 bilhões de pessoas. Há muito pouco
que se possa fazer sobre isso.
Se o senhor tivesse filhos,
estaria preocupado com o futuro?
Tenho primos que têm filhos, e alguns dos
meus melhores amigos também têm. Claro que desejo que eles tenham
uma vida boa. E eles terão. Vão ficar bem, serão ricos. Porque
todos os filhos geneticamente gerados que conheço são brancos. Não
é com eles que temos de ficar mais preocupados. É com os outros
três quartos das pessoas deste planeta, a quem não sou intimamente
ligado, que não são brancas, são pobres e vivem hoje uma
situação difícil. O paradoxo é que a ONU espera que
todos enriqueçam. Os filhos dos meus primos estarão entre quatro
e oito vezes mais ricos no fim do século. As pessoas nos países
em desenvolvimento estarão 35 vezes mais ricas. A média das pessoas
em Bangladesh não será pobre em 2100, mas classe média alta.
Ou seja, estamos pensando em ajudar pessoas que serão ricas daqui a 100
anos, mas deixando de ajudar as pessoas pobres que estão aqui agora, hoje.
Esse é, para mim, o grande dilema ético: nós nos importarmos
tanto com os ricos do futuro e tão pouco com os pobres do presente.
O
senhor pode dar um exemplo?
O caso dos países insulares é claro.
Se você olhar para Tuvalu, que tem 12 000 habitantes e pode desaparecer,
verá que as pessoas de lá não vão sumir. Elas terão
de se mudar, o que será triste. Mas é curioso lembrar que a cada
sete horas e meia um número equivalente de pessoas morre no mundo em decorrência
de doenças infecciosas facilmente curáveis. São cerca de
15 milhões de pessoas que morrem desta maneira todo ano no mundo. As pessoas
de Tuvalu terão apenas de se mudar. Para mim, é muito curioso que
estejamos gastando tanto dinheiro para ajudar as pessoas de Tuvalu e fazendo tão
pouco pelas 12 000 que morreram nas últimas sete horas e meia. Fala-se
muito em aquecimento global. Mas as pessoas de verdade têm problemas mais
urgentes. A maioria das pessoas nos países em desenvolvimento, ou três
quartos da população mundial, quer saber como vão sobreviver
até a semana que vem.
O que se pode esperar das decisões tomadas na conferência?
Quando 120 líderes se reúnem,
eles não podem não fazer um acordo, em torno de números que
soam agradáveis. O problema é que não conseguiremos cumpri-lo.
Faremos um lindo documento, todos vão brindar com champanhe, depois vão
para casa, e nada vai acontecer. Vem sendo assim nos últimos dezoito anos.
Não cumprimos o que foi acertado no Rio de Janeiro em 1992. Em Kioto,
houve um compromisso legalmente assumido, no qual se prometeu cortar ainda
mais, e ainda nada foi feito. Acreditar que Copenhague será diferente
me parece uma fantasia política.
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