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Home  »  Revistas  »  Edição 2144 / 23 de dezembro de 2009


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Paleontologia

Eles ainda estão por aqui

Novas descobertas de fósseis de dinossauros comprovam
a teoria de que, embora extintos, eles se encontram presentes
na natureza por meio de seus descendentes – as aves


Nathália Butti

James Clark

Leveza ancestral
Representação do Tawa hallae, espécie de 213 milhões de anos encontrada nos Estados Unidos: como as aves, ele tinha os ossos ocos, o que diminui o peso do esqueleto, e pescoço em forma de S


Os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos, mas as descobertas de seus fósseis reafirmam a tese de que, por caprichos da evolução, eles continuam presentes entre nós na forma de seus descendentes – as aves. Um estudo divulgado na semana passada sobre o fóssil de uma espécie de dinossauro até hoje desconhecida, o Tawa hallae, desencavado em 2006 no estado americano do Novo México, comprova essa tese. Com 213 milhões de anos, o Tawa hallae é um dos mais antigos fósseis de dinossauro já descobertos. A prova de seu parentesco com as aves são os ossos ocos, que tornam o esqueleto mais leve e facilitam o voo, além do pescoço alongado em forma de S. A ideia de que os dinossauros e as aves modernas têm um ancestral comum foi proposta pelo biólogo inglês Thomas Huxley em 1868 e, desde então, tornou-se foco permanente de debate entre os cientistas. Para chegar a essa conclusão, Huxley analisou um fóssil de ave, encontrado em 1861 na Alemanha, que tinha características comuns com os dinossauros, o Archaeop--teryx. A cauda longa e ossuda, os dentes e as garras aproximavam-no dos dinossauros, enquanto as penas e a presença de fúrcula (o osso da sorte) remetiam a características das aves modernas. O Archaeop-teryx viveu há aproximadamente 140 milhões de anos.

James Clark
Pata reveladora
Limusaurus inextricabilis, de 159 milhões de anos, encontrado na China: a disposição dos três dedos, com um vestígio de polegar, pode indicar uma transição evolutiva para os ossos que sustentam as asas das aves

 

A teoria de Huxley se ampara na teoria da evolução de Darwin, segundo a qual as espécies sofrem mutações aleatórias que, eventualmente, podem originar novas espécies. Os arcossauros, grandes répteis quadrúpedes que surgiram no começo da Era Mesozoica, há 250 milhões de anos, teriam se diversificado, originando novas linhagens. Uma delas resultou nos crocodilos e jacarés. Outra linhagem deu origem aos dinossauros e, entre eles, os terópodes, o grupo que estaria na ascendência das aves. As penas são ótimos indicadores do parentesco entre os dinossauros e as aves. Em ambas as espécies, as penas assimétricas são as que possibilitam o voo e as simétricas as que cobrem somente o corpo. Acredita-se que, nos dinossauros, as penas serviam primeiramente para exibições em disputas territoriais e rituais de acasalamento. Além disso, atuavam como abrigos térmicos – uma adaptação evolutiva para conservar o calor do corpo. Só posteriormente os dinossauros passaram a usar as penas para voar. Em 2002, foi descoberto na China o Microraptor, o primeiro dinossauro que apresentava evidências de que a espécie era capaz de voar. Tinha penas assimétricas e quatro asas, mas supõe-se que ele voava planando. "Enquanto as penas das patas dianteiras do Microraptor foram crescendo com a evolução, as das patas traseiras foram se reduzindo até desaparecer", diz o paleon-tólogo Max Langer, da Universidade de São Paulo.

Os cientistas já comprovaram também afinidades de comportamento entre dinossauros e aves, como o instinto para cuidar dos filhotes e se organizar socialmente para chocar os ovos. Em 1995, no Deserto de Gobi, na Mongólia, cientistas americanos acharam o fóssil de um Oviraptor de 80 milhões de anos. Suas pernas estavam dobradas atrás do corpo e seus braços envolviam os ovos. Os pesquisadores acreditam que o animal tenha sido morto repentinamente por uma tempestade de areia e que seu gesto era uma tentativa de proteger os ovos. No fim de 1998, na Patagônia, foram encontrados fósseis de milhares de ovos de dinossauro espalhados por diferentes profundidades em uma área de 1 quilômetro quadrado. Supõe-se que todo ano eles se reuniam na mesma localidade para desovar.

Em setembro deste ano, a equipe do paleontólogo chinês Xu Xing desenterrou, no nordeste de seu país, o fóssil de um dinossauro com penas que ajuda a elucidar um mistério. Todos os fósseis de dinossauro com penas encontrados até hoje têm até 80 milhões de anos, ou seja, viveram há muito menos tempo do que o Archaeop-teryx, a primeira ave de que se tem registro. Isso induziria à hipótese disparatada de que o Archaeop-teryx seria anterior a seus próprios ancestrais. A descoberta do Anchiornis, na China, mudou tudo. Com no mínimo 150 milhões de anos de idade, ele confirma a tese de que os dinossauros emplumados surgiram muito antes dos pássaros. "Com o Anchiornis, aproximadamente 10 milhões de anos mais velho que a primeira ave, o problema da lacuna de tempo foi finalmente resolvido", diz o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para uma espécie extinta, os dinossauros permanecem bem presentes no planeta.

Sally A Morgan/Corbis/Latin stock e Dea Picture/Getty Images

Sinais cruzados
Fóssil de Archaeop-teryx (à dir.), ave que viveu há 140 milhões de anos, encontrado
na Alemanha, e sua reconstituição em desenho (à esq.): a cauda longa e ossuda, os dentes
e as garras aproximavam-no dos dinossauros. As penas e a presença de fúrcula (o osso da sorte) remetem às características das aves modernas. Essa é a espécie que, no século XIX, deu origem à teoria do parentesco entre aves e dinossauros

 

Hu Dongyu/AP

Charada resolvida
Anchiornis: a descoberta de seu fóssil, na China, há três meses, elucidou um mistério. Todos os fósseis de dinossauros com penas encontrados até hoje tinham 80 milhões de anos. Com 150 milhões de anos, ele é a prova que faltava de que os dinossauros emplumados surgiram muito antes dos pássaros

 

AFP

O planador
Microraptor, que viveu há 125 milhões de anos, encontrado na China: o primeiro fóssil a apresentar evidências de que os dinossauros eram capazes de voar. Provavelmente, voava sem bater as asas, apenas planando

 


O T-rex em miniatura

Um dos mais relevantes fósseis de dinossauro descobertos recentemente é o do Raptorex, o ancestral do feroz Tyrannosaurus rex, o T-rex, popularizado pelo cinema como o maior dos predadores de sua espécie. Para surpresa dos paleontólogos, o Raptorex tem exatamente as mesmas características de seu neto que viveu 50 milhões de anos depois – braços curtos, pernas musculosas e aptas para correr, mandíbulas poderosas e olfato bem desenvolvido. Tinha, porém, um quinto de seu tamanho. A descoberta fez cair por terra a ideia estabelecida de que as características do T-rex evoluíram ao longo do tempo. Ele apenas cresceu. O fóssil foi descoberto por Paul Sereno, um dos maiores paleontólogos da atualidade, e está 95% completo – falta-lhe apenas um pedaço da cauda. "Só neste ano, 45 novos dinossauros já foram identificados. Acho que a descoberta do Raptorex foi uma das mais importantes, pois revela muito sobre a trajetória dos tiranossauros", disse Sereno a VEJA. Os cientistas acreditam que, no período transcorrido entre o reinado do avô e o do neto, muitos tiranossauros de tamanho intermediário habitaram a Terra. Para mapear a família, será preciso descobrir novos fósseis.

Todd Marshall

Pequeno e feroz
Raptorex: em 50 milhões de anos de evolução, só mudou o tamanho

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