Revista VEJA
Educação
Ética para as massas
Com lições desafiantes sobre grandes dilemas morais, o filósofo Michael Sandel, de Harvard, conseguiu atrair milhões de seguidores na rede e se tornou uma celebridade
Renata Betti, de Boston
Com gestos incisivos e tom quase sádico, o filósofo político Michael Sandel, 58 anos, provoca plateias que lotam o maior auditório da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, para assistir a suas aulas - as mais concorridas do câmpus. Como em uma ágora, mestre e alunos se lançam em infindáveis debates que tocam em dilemas morais, como aborto, eutanásia e pena de morte, sem se preocupar com o politicamente correto. Algumas das questões que eletrizam seu público: ''Se você tivesse de tirar a vida de uma pessoa para salvar a de outras cinco, o que faria?'' ou ''É justo inflar o preço da água após um desastre natural para aproveitar uma oportunidade de lucro?''. O professor jamais emite a própria opinião, mas vai desafiando a dos jovens, de modo que, no final, a maioria já não pensa como antes. Seus pares o aplaudem enfaticamente. ''É espantoso como ele consegue transformar uma palestra para quase 1 000 pessoas em um íntimo diálogo socrático'', diz o professor de direito Jed Rubenfeld, da Universidade Yale, ex-assistente de Sandel.
Ele foi alçado à condição de celebridade, atraindo multidões que fazem fila para assistir a suas palestras e até lhe pedir autógrafo, depois que suas aulas em Harvard passaram a ser colocadas na internet, três anos atrás. As transmissões (que não são em tempo real) costumam atrair para a rede milhões de pessoas - os chineses são seu séquito mais fiel. Canais de TV como o japonês NHK e a rede britânica BBC também já exibiram programas com suas apresentações (sim, é quase um show). Em 2009, Sandel lançou o best-seller Justiça - O que É Fazer a Coisa Certa, que acaba de ganhar tradução no Brasil. Na sua sala em Harvard, onde quase não para graças às palestras que dá no mundo inteiro, ele fala do ofício de forma tão entusiasmada quanto prosaica. ''É um engano pensar que os jovens de hoje não têm interesse por questões filosóficas'', diz. ''Eles só não encontram oportunidades estimulantes para discuti-las.''
Sandel é parte de um grupo raro de professores que, sem apetrechos nem invencionices, conseguem fazer de uma aula algo tão interessante que ela passa a ser até disputada. Mesmo na internet, não há nenhum estímulo além da própria verve do mestre. O americano descendente de indianos Salman Khan, de 34 anos, é o mais cultuado representante desse grupo que desafia a chatice reinante com explanações curtas e simples, mas sempre desafiantes - um fenômeno da rede. Professor de matemática formado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Khan já contabiliza em seu site mais de 85 milhões de acessos de gente do mundo todo, atraída por lições que vão do básico da matemática à complexidade da física quântica. No caso de Sandel, os sessenta minutos em que ocupa o palco giram em torno de dilemas como ''Você torturaria um terrorista para tentar evitar uma explosão fatal em uma escola?''. Se todos são unânimes na resposta afirmativa, vem nova provocação: ''E se a única maneira de pará-lo fosse torturando a filha dele, de 9 anos de idade?''. A plateia entra em polvorosa. O estudante de engenharia indiano Kama Hans, que acompanha os vídeos pela internet, diz: ''Quando você acha que já tem certeza sobre uma tese, ele lança um novo argumento e promove uma reviravolta em suas convicções. Chega a ser viciante''.
Corre no câmpus a história de que Sandel teria servido de inspiração para Mr. Burns, o mais politicamente incorreto dos personagens do desenho americano Os Simpsons - versão reforçada por sua mania de juntar as mãos na altura do queixo e entrelaçar as pontas dos dedos enquanto emite um sorriso irônico, tal como o chefe de Homer Simpson. Um dos produtores do seriado, um ex-aluno, nega. Aos 15 anos, integrante do grêmio de sua escola na Califórnia, Sandel já dava mostras do que viria a tornar-se. Certa vez, conseguiu convencer o então governador Ronald Reagan, seu vizinho republicano, a falar a uma turma de estudantes predominantemente democrata. O debate pegou fogo. Casado com uma cientista social, que conheceu em Harvard, e pai de dois jovens de pouco mais de 20 anos, ele costuma dizer: ''Não há nada mais desinteressante do que a neutralidade''.

O MAIS POPULAR DA REDE
O americano Salman Khan, cujas aulas na internet já receberam mais de 85 milhões de acessos: não há apetrechos nem invencionices só um bom professor (Foto: Robyn Twomey/ Outline/ Corbis/ Latinstock
)

