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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Os
chineses leram Marx "Vamos todos ler Marx,
pois ele sugere um conserto para nossa combalida universidade
pública" O assunto do ensino pago
é controvérsia velha e bolorenta. De fato, é mais velha do
que parece. Vejam o que disse um grande filósofo-economista do século
XIX: "Educação gratuita (...). O fato de que em muitos Estados sejam
'gratuitos' também os centros de ensino superior significa tão-somente
que ali as classes altas pagam suas despesas de educação com fundos
dos impostos gerais". O detalhe valioso é
que o economista citado se chama Karl Marx (Crítica ao Programa de Gotha).
Como é possível que a esquerda brasileira, agora no poder e tão
assídua em suas idéias, tenha ignorado justamente esta (data
venia, o senador Suplicy, responsável pela exumação do
trecho)? Dados disponíveis mostram que desde
os tempos de Marx os ricos continuam predominando na universidade pública.
No Brasil, segundo o Ministério da Fazenda, os 20% mais ricos da população
capturam 74% das vagas. Ou seja, os impostos pagos por todos financiam a educação
dos mais ricos (custando, por aluno, dez vezes mais do que a educação
básica). É a chamada regressividade dos gastos públicos.
Ilustração
Ale Setti
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Os
europeus, tradicionalmente, não cobram ou cobram pouco dos seus alunos
universitários. Mas são muito mais ricos, têm uma população
universitária estável e oferecem múltiplas opções
ao ensino tradicional de quatro ou cinco anos (mais da metade escolhe alternativas
curtas). Mesmo assim, sem encontrar outras fontes de financiamento, o dinheiro
não está dando para manter universidades ao nível das americanas.
De fato, 400.000 pesquisadores europeus já fizeram as malas e foram para
os Estados Unidos (The Economist). Diante disso, os europeus estão
mudando de idéia sobre a cobrança aos alunos. Na Inglaterra, com
as universidades mais bem-sucedidas da Europa, o pagamento já vem de mais
tempo. Os alemães revogaram a lei que não permitia cobrar. A França
reluta.
Nos Estados Unidos, onde estão localizadas
dezessete das vinte melhores universidades do globo, todas as públicas
(exceto as militares) cobram dos alunos. Mas raramente cobram os custos integrais,
além de terem mecanismos de bolsas e créditos educativos, usados
por metade dos alunos. É óbvio que
esses países não precisaram de Marx para justificar a cobrança.
Mas, ao que parece, os comunistas chineses leram a Crítica ao Programa
de Gotha, pois suas universidades são pagas (é curioso, apenas
os cursos que preparam professores são gratuitos). Pragmáticos,
os chineses notaram que os benefícios pessoais de uma educação
superior são muito grandes, criando forte incentivo para que as pessoas
invistam na própria formação. Com isso, economizam os recursos
do Tesouro (24% dos orçamentos das universidades vêm das mensalidades).
Entre nós, há estatísticas
seguras mostrando que diplomados do ensino superior ganham três vezes mais
do que aqueles que têm apenas um diploma de nível médio. Sem
conhecer as tabelas do IBGE, os brasileiros comuns perceberam a mesma coisa e
gastam suas economias no ensino privado, que detém 70% das matrículas.
Seguramente, eles pagariam também o ensino
público, onde está a maioria dos cursos de excelência. Portanto,
a cobrança de anuidades compatíveis com suas posses
permitiria aumentar substancialmente a receita das universidades públicas.
Apenas para fixar idéias, se pagassem o mesmo que pagam os do ensino privado
(cuja classe social é mais ou menos a mesma), aumentaria em até
um terço o orçamento das públicas. Seriam varridas, de um
só golpe, as crises financeiras que, segundo a esquerda, são a principal
causa dos males das universidades (ou os recursos poderiam ser usados para ajudar
os mais pobres). Os cursos fracos das públicas seriam abandonados pelos
alunos, que optariam por cursos privados com uma melhor relação
preço/qualidade. Mantendo-se os orçamentos do Tesouro, o alívio
financeiro iria para a pesquisa. Como bônus, progrediria a justiça
social, com os ricos pagando por um serviço que lhes traz benefícios
pessoais. A solução é simples,
vamos todos ler Marx, pois ele sugere um conserto para nossa combalida universidade
pública. Claudio de
Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net)
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