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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Sobre
causas, efeitos e trepar em árvores Divagações
de um escriba dividido entre
a leitura dos jornais e a de Italo
Calvino Notícias de Paris...
O povo pobre se inquieta, o governo treme. Não, não se trata da
revolta dos queimadores de carros, é outra, anterior, aquela, o
leitor se lembra a da Bastilha, da guilhotina, da execução
do rei. As notícias de Paris causam excitação em Ombrosa,
cidade italiana à margem do Mar da Ligúria, onde um audacioso barão,
tomado pela revolta contra o autoritarismo paterno e as convenções
sociais em geral, decidiu, no dia 15 de junho de 1767, quando tinha 12 anos, refugiar-se
em cima das árvores, e de lá nunca mais desceu, passando uma vida
inteira a pular de galho em galho e desenvolvendo habilidades que lhe permitiram
comer, estudar, escrever, caçar, lutar e amar sem jamais pôr os pés
no solo. Quem leu já sabe do que se está
falando: o romance O Barão nas Árvores, do italiano Italo
Calvino. A Ombrosa onde se ambienta a história é fictícia,
mas as notícias que, a partir de 1789, lá chegam da França
são reais. O barão Cosimo Piovasco de Rondó, que apesar de
viver nas árvores é um homem ilustrado, dado a trocar correspondência
com Voltaire e Rousseau, resolve seguir o exemplo dos franceses e abrir um caderno
em que a população inscreveria suas queixas. Choveram protestos:
sobre o preço dos gêneros, os dízimos cobrados dos camponeses,
os limites impostos aos pastores no uso dos pastos, as prisões, os abusos
dos nobres contra as mulheres do povo. Verificou-se então que prevaleciam,
em Ombrosa, condições semelhantes às da França. Ou,
para dar a palavra ao narrador: "Em suma, também
entre nós existiam todas as causas da Revolução Francesa.
Só que não estávamos na França, e a revolução
não se fez. Vivemos num país onde se verificam sempre as causas,
não os efeitos". Eis uma característica
que, mais ainda do que a de ter um ilustre filho a viver entre as árvores,
singulariza Ombrosa: ali só as causas se fazem presentes, nunca os efeitos.
Voltamos ao tempo presente, das notícias da França que dão
conta não da Bastilha, mas dos Hosni e Ahmed do cinturão de Paris,
e pensamos: "Engraçado. Aqui também temos jovens desempregados e
sem horizontes, aqui também temos comunidades marginalizadas e no
entanto aqui não se queimam carros". Seria tentador concluir que, tal qual
em Ombrosa, aqui também causas vagam órfãs, sem os efeitos
que as completem. • • •
A cronista Cora Rónai fez outro dia no Globo a perfeita crônica
dos dias que correm no Rio de Janeiro. Começa descrevendo um almoço
entre amigos, num sábado, no Leblon. A certa altura, a filha da dona da
casa avisa: "Pessoal, o túnel está fechado, se alguém de
São Conrado ou da Barra quiser dormir aqui, não tem problema, a
gente se ajeita". Fechado por quê? Tiroteio. Ah, de novo... E retomou-se
a conversa no ponto em que tinha sido deixada. Dois dias depois, Cora foi visitar
uma amiga na Gávea. Encontrou-a exausta. "O problema é que não
consegui pregar o olho a noite inteira. O barulho do tiroteio estava insuportável.
Tinha uma metralhadora que parecia estar dentro do meu quarto." E nessa tecla
segue a crônica, de caso em caso. Conclui a cronista: "Assim
se vive numa guerra, sem espanto, aceitando os inconvenientes táticos causados
pelas batalhas; assim se vive num mundo conflagrado, porque a nossa alma cria
carapaças que a defendem da barbárie cotidiana ou morreríamos
todos de puro horror antes mesmo de sermos atingidos pela bala, perdida ou não,
que, mais dia, menos dia, vai nos encontrar numa esquina qualquer. Assim vivemos
na nossa cidade, achando 'normal' o que em qualquer lugar civilizado é
impensável; e temos sorte, somos privilegiados por não precisarmos
conviver com policiais e traficantes trocando tiros na laje de casa, como acontece
com quem vive o terror nos morros". Conclusão:
por aqui, ao contrário de Ombrosa, os efeitos comem soltos, alucinados,
incontroláveis, tão desgovernados que as causas, estas sim, somem
a distância, perdidas, obscuras. •
• • A Revolução Francesa que incendiava
a imaginação do barão Cosimo Piovasco de Rondó foi
marcada, numa de suas fases, pelo clima que os historiadores batizaram de "O Grande
Medo". Uma boataria sem freios dava conta de bandidos que atacariam aldeias, nobres
que arrasariam plantações, batalhões que prenderiam e fuzilariam.
O medo teve no campo sua origem e território ideal para expandir-se. Nos
dias de hoje, são as cidades a escolha inevitável de quem quer amedrontar.
Paris ficou tão assustada com os queimadores de carros que impulsou a popularidade
do ministro Nicolas Sarkozy, um durão cujas posições confinam
com as da direita racista. Nova York, antes, e com muito mais razões, ficou
apavorada com os aviões que derrubam prédios. O medo toma essas
cidades em surtos pontuais. No Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras
ele é permanente como a paisagem. Se fôssemos decididos como o grande
barão Cosimo, lúcidos e corajosos como ele, subiríamos nas
árvores e nunca mais desceríamos, mas... Cadê as árvores?
Cadê as árvores? |