Edição 1932 . 23 de novembro de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sobre causas, efeitos
e trepar em árvores

Divagações de um escriba dividido entre
a leitura dos jornais e a de Italo Calvino

Notícias de Paris... O povo pobre se inquieta, o governo treme. Não, não se trata da revolta dos queimadores de carros, é outra, anterior, aquela, o leitor se lembra – a da Bastilha, da guilhotina, da execução do rei. As notícias de Paris causam excitação em Ombrosa, cidade italiana à margem do Mar da Ligúria, onde um audacioso barão, tomado pela revolta contra o autoritarismo paterno e as convenções sociais em geral, decidiu, no dia 15 de junho de 1767, quando tinha 12 anos, refugiar-se em cima das árvores, e de lá nunca mais desceu, passando uma vida inteira a pular de galho em galho e desenvolvendo habilidades que lhe permitiram comer, estudar, escrever, caçar, lutar e amar sem jamais pôr os pés no solo.

Quem leu já sabe do que se está falando: o romance O Barão nas Árvores, do italiano Italo Calvino. A Ombrosa onde se ambienta a história é fictícia, mas as notícias que, a partir de 1789, lá chegam da França são reais. O barão Cosimo Piovasco de Rondó, que apesar de viver nas árvores é um homem ilustrado, dado a trocar correspondência com Voltaire e Rousseau, resolve seguir o exemplo dos franceses e abrir um caderno em que a população inscreveria suas queixas. Choveram protestos: sobre o preço dos gêneros, os dízimos cobrados dos camponeses, os limites impostos aos pastores no uso dos pastos, as prisões, os abusos dos nobres contra as mulheres do povo. Verificou-se então que prevaleciam, em Ombrosa, condições semelhantes às da França. Ou, para dar a palavra ao narrador:

"Em suma, também entre nós existiam todas as causas da Revolução Francesa. Só que não estávamos na França, e a revolução não se fez. Vivemos num país onde se verificam sempre as causas, não os efeitos".

Eis uma característica que, mais ainda do que a de ter um ilustre filho a viver entre as árvores, singulariza Ombrosa: ali só as causas se fazem presentes, nunca os efeitos. Voltamos ao tempo presente, das notícias da França que dão conta não da Bastilha, mas dos Hosni e Ahmed do cinturão de Paris, e pensamos: "Engraçado. Aqui também temos jovens desempregados e sem horizontes, aqui também temos comunidades marginalizadas – e no entanto aqui não se queimam carros". Seria tentador concluir que, tal qual em Ombrosa, aqui também causas vagam órfãs, sem os efeitos que as completem.

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A cronista Cora Rónai fez outro dia no Globo a perfeita crônica dos dias que correm no Rio de Janeiro. Começa descrevendo um almoço entre amigos, num sábado, no Leblon. A certa altura, a filha da dona da casa avisa: "Pessoal, o túnel está fechado, se alguém de São Conrado ou da Barra quiser dormir aqui, não tem problema, a gente se ajeita". Fechado por quê? Tiroteio. Ah, de novo... E retomou-se a conversa no ponto em que tinha sido deixada. Dois dias depois, Cora foi visitar uma amiga na Gávea. Encontrou-a exausta. "O problema é que não consegui pregar o olho a noite inteira. O barulho do tiroteio estava insuportável. Tinha uma metralhadora que parecia estar dentro do meu quarto." E nessa tecla segue a crônica, de caso em caso. Conclui a cronista:

"Assim se vive numa guerra, sem espanto, aceitando os inconvenientes táticos causados pelas batalhas; assim se vive num mundo conflagrado, porque a nossa alma cria carapaças que a defendem da barbárie cotidiana – ou morreríamos todos de puro horror antes mesmo de sermos atingidos pela bala, perdida ou não, que, mais dia, menos dia, vai nos encontrar numa esquina qualquer. Assim vivemos na nossa cidade, achando 'normal' o que em qualquer lugar civilizado é impensável; e temos sorte, somos privilegiados por não precisarmos conviver com policiais e traficantes trocando tiros na laje de casa, como acontece com quem vive o terror nos morros".

Conclusão: por aqui, ao contrário de Ombrosa, os efeitos comem soltos, alucinados, incontroláveis, tão desgovernados que as causas, estas sim, somem a distância, perdidas, obscuras.

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A Revolução Francesa que incendiava a imaginação do barão Cosimo Piovasco de Rondó foi marcada, numa de suas fases, pelo clima que os historiadores batizaram de "O Grande Medo". Uma boataria sem freios dava conta de bandidos que atacariam aldeias, nobres que arrasariam plantações, batalhões que prenderiam e fuzilariam. O medo teve no campo sua origem e território ideal para expandir-se. Nos dias de hoje, são as cidades a escolha inevitável de quem quer amedrontar. Paris ficou tão assustada com os queimadores de carros que impulsou a popularidade do ministro Nicolas Sarkozy, um durão cujas posições confinam com as da direita racista. Nova York, antes, e com muito mais razões, ficou apavorada com os aviões que derrubam prédios. O medo toma essas cidades em surtos pontuais. No Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras ele é permanente como a paisagem. Se fôssemos decididos como o grande barão Cosimo, lúcidos e corajosos como ele, subiríamos nas árvores e nunca mais desceríamos, mas... Cadê as árvores? Cadê as árvores?

 
 
 
 
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