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Copa É
assim no mundo todo
As estrelas da
seleção que vai para a Alemanha jogam no exterior. As dos
outros países também  André
Fontenelle  | | Os
onze titulares da seleção brasileira com a camisa de seus times: nenhum deles
pertence a uma equipe nacional |
Desde 1930, o embarque da Seleção Brasileira de Futebol para a disputa
da Copa do Mundo é um grande evento. Para o Mundial da Alemanha, no ano
que vem, não será. Não mais que três jogadores
talvez nem um entrarão no avião para atravessar o Atlântico.
Todos os outros já moram na Europa e não passarão pelo Brasil
nem para treinar. Há chance até de que os únicos convocados
a embarcar no país sejam estrangeiros o argentino Tevez, do Corinthians,
e os paraguaios Cáceres, do Atlético Mineiro, e Gamarra, do Palmeiras.
Antes de tomar mais esse fato como
um exemplo da decadência do futebol no Brasil, é bom prestar atenção
no que ocorre com outras seleções. É verdade que os clubes
nacionais não têm dinheiro para manter os maiores craques
cujos salários em outros países podem passar facilmente dos 500.000
reais por mês. Mas o mercado globalizado produziu seleções
recheadas de "estrangeiros" em todo o mundo.
Metade
dos 736 atletas das 32 seleções que irão à Copa do
Mundo, em junho, atua fora do próprio país. Há iranianos
jogando na Alemanha, australianos na Suíça e tunisianos na Ucrânia.
"Hoje sai o excelente, sai o bom e sai até o mais ou menos", constata o
coordenador técnico da seleção brasileira, Mário Jorge
Lobo Zagallo, para quem esse fenômeno não é necessariamente
ruim. "O torcedor perde seus ídolos, mas para o jogador é interessante.
Na Europa, ele ganha competitividade sem perder o estilo brasileiro", diz. Quando
Zagallo participou da conquista dos três primeiros títulos mundiais
do Brasil, em 1958, 1962 e 1970, toda a delegação pertencia a times
brasileiros. Mas jogar em gramados estrangeiros não constituía novidade
para eles, porque na época eram comuns as excursões dos clubes nacionais
ao exterior. Hoje o apertado calendário do futebol torna quase impossível
esse tipo de viagem. Robinho, uma das estrelas da atual seleção,
só fez sua estréia em campos europeus neste ano, pouco antes de
ser contratado pelo Real Madrid. Não
são apenas os jogadores de países futebolisticamente subdesenvolvidos
que mudam de país. Metade do time francês defende clubes estrangeiros.
Seis convocados da seleção espanhola jogam na Inglaterra, que tem
o campeonato mais badalado do planeta na atualidade. Oito dos vinte clubes mais
ricos do mundo são ingleses. O resultado é que, de cada oito atletas
que vão à Copa, um joga na Inglaterra. O Chelsea, de Londres, que
pertence ao magnata russo Roman Abramovich, é dono de quinze jogadores
de dez seleções classificadas para o Mundial. Só quatro são
ingleses. É uma verdadeira seleção, que, se pudesse disputar
a Copa, jogaria de igual para igual com qualquer adversário. Jogam no time
londrino nomes famosos como o argentino Crespo, o inglês Lampard, o ganês
Essien e o francês Makélélé. No ano 2000 o Chelsea
se tornou o primeiro a escalar um time composto apenas de estrangeiros em uma
partida da copa européia de clubes. A agremiação fatura 500
milhões de reais por ano. Mas atenção: o maior ídolo
inglês, David Beckham, joga na Espanha. Não há prova maior
de que acabaram as fronteiras nesse esporte.
Essa dispersão de jogadores planeta afora cria situações
curiosas. A Rússia não se classificou para a Copa, mas quinze jogadores
que estarão no torneio atuam em clubes da liga russa. Todos os convocados
da seleção da Costa do Marfim atuam no exterior, vinte deles na
Europa. O êxodo de atletas da África é tamanho que certas
seleções do continente jogam mais em solo europeu que no africano.
Neste ano, a Costa do Marfim enfrentou a República Democrática do
Congo na França, enquanto Senegal e Gana disputaram uma partida na Inglaterra.
É que fica mais barato juntar os atletas perto dos lugares onde eles atuam.
Há casos de treinadores que escolhem os selecionados pela televisão.
O técnico da Alemanha, Jürgen Klinsmann, mora na Califórnia,
a 9.000 quilômetros de sua terra natal, e só cruza o oceano quando
há um jogo de sua seleção. Vinte anos atrás isso seria
impossível, porque eram raras as transmissões internacionais via
satélite. Hoje é possível assistir na TV por assinatura a
jogos dos campeonatos inglês, italiano, alemão, francês, espanhol,
português e holandês. J.
B. Scalco
 | Eddie
Keoch/Reuters
 | | Em
1982, Falcão (à esq.) foi o primeiro "estrangeiro" do Brasil
em uma Copa. Hoje até Beckham (à dir.), da rica Inglaterra,
joga em um clube de fora de seu país |
O surgimento de times globalizados cria um conflito entre clubes e seleções.
Times recheados de estrangeiros, como o Real Madrid, não gostam de ver
suas bem pagas estrelas arriscando as canelas em amistosos entre seleções.
No ano passado, quando o Brasil organizou uma partida festiva contra o Haiti em
Porto Príncipe, o Milan, da Itália, recusou-se a ceder os jogadores
Dida, Cafu e Kaká. É comum que um time alegue uma "lesão"
de um de seus craques para que ele falte a um compromisso da seleção
de seu país. A Fifa obriga os clubes a liberar seus jogadores para sete
amistosos por ano, sem direito a indenização pelos dias de ausência.
A regra foi criada porque em Copas anteriores as seleções tinham
dificuldade para reunir seus melhores jogadores. Em 1982, o craque Falcão
foi o primeiro jogador de um clube estrangeiro a disputar uma Copa do Mundo pelo
Brasil, mas só pôde se juntar à seleção às
vésperas da competição. Seu clube, o Roma, da Itália,
não permitiu que ele participasse da fase de qualificação.
"De certa forma, o meu caso criou jurisprudência", lembra Falcão,
que acha importante para os jogadores a experiência adquirida no milionário
futebol europeu. "Eu aprendi muita coisa importante na Itália, não
só como jogador, mas como ser humano." |