Edição 1932 . 23 de novembro de 2005

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Copa
É assim no
mundo todo

As estrelas da seleção que
vai para a Alemanha jogam
no exterior. As dos outros
países também


André Fontenelle

 

Os onze titulares da seleção brasileira com a camisa de seus times: nenhum deles pertence a uma equipe nacional

Desde 1930, o embarque da Seleção Brasileira de Futebol para a disputa da Copa do Mundo é um grande evento. Para o Mundial da Alemanha, no ano que vem, não será. Não mais que três jogadores – talvez nem um – entrarão no avião para atravessar o Atlântico. Todos os outros já moram na Europa e não passarão pelo Brasil nem para treinar. Há chance até de que os únicos convocados a embarcar no país sejam estrangeiros – o argentino Tevez, do Corinthians, e os paraguaios Cáceres, do Atlético Mineiro, e Gamarra, do Palmeiras.

Antes de tomar mais esse fato como um exemplo da decadência do futebol no Brasil, é bom prestar atenção no que ocorre com outras seleções. É verdade que os clubes nacionais não têm dinheiro para manter os maiores craques – cujos salários em outros países podem passar facilmente dos 500.000 reais por mês. Mas o mercado globalizado produziu seleções recheadas de "estrangeiros" em todo o mundo.

Metade dos 736 atletas das 32 seleções que irão à Copa do Mundo, em junho, atua fora do próprio país. Há iranianos jogando na Alemanha, australianos na Suíça e tunisianos na Ucrânia. "Hoje sai o excelente, sai o bom e sai até o mais ou menos", constata o coordenador técnico da seleção brasileira, Mário Jorge Lobo Zagallo, para quem esse fenômeno não é necessariamente ruim. "O torcedor perde seus ídolos, mas para o jogador é interessante. Na Europa, ele ganha competitividade sem perder o estilo brasileiro", diz. Quando Zagallo participou da conquista dos três primeiros títulos mundiais do Brasil, em 1958, 1962 e 1970, toda a delegação pertencia a times brasileiros. Mas jogar em gramados estrangeiros não constituía novidade para eles, porque na época eram comuns as excursões dos clubes nacionais ao exterior. Hoje o apertado calendário do futebol torna quase impossível esse tipo de viagem. Robinho, uma das estrelas da atual seleção, só fez sua estréia em campos europeus neste ano, pouco antes de ser contratado pelo Real Madrid.

Não são apenas os jogadores de países futebolisticamente subdesenvolvidos que mudam de país. Metade do time francês defende clubes estrangeiros. Seis convocados da seleção espanhola jogam na Inglaterra, que tem o campeonato mais badalado do planeta na atualidade. Oito dos vinte clubes mais ricos do mundo são ingleses. O resultado é que, de cada oito atletas que vão à Copa, um joga na Inglaterra. O Chelsea, de Londres, que pertence ao magnata russo Roman Abramovich, é dono de quinze jogadores de dez seleções classificadas para o Mundial. Só quatro são ingleses. É uma verdadeira seleção, que, se pudesse disputar a Copa, jogaria de igual para igual com qualquer adversário. Jogam no time londrino nomes famosos como o argentino Crespo, o inglês Lampard, o ganês Essien e o francês Makélélé. No ano 2000 o Chelsea se tornou o primeiro a escalar um time composto apenas de estrangeiros em uma partida da copa européia de clubes. A agremiação fatura 500 milhões de reais por ano. Mas atenção: o maior ídolo inglês, David Beckham, joga na Espanha. Não há prova maior de que acabaram as fronteiras nesse esporte.

Essa dispersão de jogadores planeta afora cria situações curiosas. A Rússia não se classificou para a Copa, mas quinze jogadores que estarão no torneio atuam em clubes da liga russa. Todos os convocados da seleção da Costa do Marfim atuam no exterior, vinte deles na Europa. O êxodo de atletas da África é tamanho que certas seleções do continente jogam mais em solo europeu que no africano. Neste ano, a Costa do Marfim enfrentou a República Democrática do Congo na França, enquanto Senegal e Gana disputaram uma partida na Inglaterra. É que fica mais barato juntar os atletas perto dos lugares onde eles atuam. Há casos de treinadores que escolhem os selecionados pela televisão. O técnico da Alemanha, Jürgen Klinsmann, mora na Califórnia, a 9.000 quilômetros de sua terra natal, e só cruza o oceano quando há um jogo de sua seleção. Vinte anos atrás isso seria impossível, porque eram raras as transmissões internacionais via satélite. Hoje é possível assistir na TV por assinatura a jogos dos campeonatos inglês, italiano, alemão, francês, espanhol, português e holandês.

 

J. B. Scalco
Eddie Keoch/Reuters
Em 1982, Falcão (à esq.) foi o primeiro "estrangeiro" do Brasil em uma Copa. Hoje até Beckham (à dir.), da rica Inglaterra, joga em um clube de fora de seu país

O surgimento de times globalizados cria um conflito entre clubes e seleções. Times recheados de estrangeiros, como o Real Madrid, não gostam de ver suas bem pagas estrelas arriscando as canelas em amistosos entre seleções. No ano passado, quando o Brasil organizou uma partida festiva contra o Haiti em Porto Príncipe, o Milan, da Itália, recusou-se a ceder os jogadores Dida, Cafu e Kaká. É comum que um time alegue uma "lesão" de um de seus craques para que ele falte a um compromisso da seleção de seu país. A Fifa obriga os clubes a liberar seus jogadores para sete amistosos por ano, sem direito a indenização pelos dias de ausência. A regra foi criada porque em Copas anteriores as seleções tinham dificuldade para reunir seus melhores jogadores. Em 1982, o craque Falcão foi o primeiro jogador de um clube estrangeiro a disputar uma Copa do Mundo pelo Brasil, mas só pôde se juntar à seleção às vésperas da competição. Seu clube, o Roma, da Itália, não permitiu que ele participasse da fase de qualificação. "De certa forma, o meu caso criou jurisprudência", lembra Falcão, que acha importante para os jogadores a experiência adquirida no milionário futebol europeu. "Eu aprendi muita coisa importante na Itália, não só como jogador, mas como ser humano."

 
 
 
 
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