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Economia e Negócios
Você entregaria
a rede a eles?
O Brasil alia-se a burocratas da
ONU e a ditaduras para tentar
consertar o que não está quebrado

Carlos Rydlewski
Eric Feferberg/AFP
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TEIA DE BUROCRATAS
Annan na Tunísia: governos criticam controle
dos EUA |
Não há exagero em
definir a internet como a ferramenta mais democrática e acessível
desenvolvida pelo homem e colocada à disposição
da liberdade e do conhecimento:
Há 1 bilhão de internautas no mundo. Só entre
2000 e 2003, o acréscimo de usuários da rede foi de
322 milhões, sendo 66% desse total em países em desenvolvimento.
O rádio levou trinta anos para chegar a 60 milhões
de pessoas. A televisão demorou quinze anos. Já a
internet atingiu 600 milhões de usuários, ou um contingente
dez vezes maior, na metade do tempo.
Em 2005, a soma dos negócios que passaram pela internet,
o que inclui transações entre empresas e governos,
chegará a 5 trilhões de dólares, o equivalente
ao PIB do Japão, a segunda maior economia do planeta.
A web tem sido uma pedra no sapato de regimes antidemocráticos.
Os chineses, por exemplo, usaram a comunicação pela
rede para obrigar seu governo a reconhecer a gravidade da gripe
asiática, a sars.
Roslan Rahman/AFP
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AP
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IMPERIALISTAS?
Impacto da web chega a escola islâmica em Cingapura. O
barbudo Postel cuidou sozinho da rede por trinta anos |
Por esses motivos, é inquietante
o fato de o governo brasileiro ter-se juntado a um grupo de países
com pouca ou nenhuma tradição democrática
como China, Cuba, Irã, Líbia, Arábia Saudita,
Síria e até Zimbábue para reivindicar
mudanças na gestão de internet, para a qual nunca
fizeram contribuições dignas de registro. Essas nações,
que contaram com a adesão de última hora da União
Européia, querem aparentemente desafiar o papel predominante
exercido pelos Estados Unidos na administração da
rede e transferi-lo para um órgão multilateral vinculado
à Organização das Nações Unidas
(ONU).
A estratégia ganhou o
mundo na semana passada, durante o evento promovido pela própria
ONU na Tunísia, chamado Cúpula Mundial sobre a Sociedade
da Informação (WSIS, na sigla em inglês). Ocorre
que uma mudança desse tipo poderia deformar a internet. Por
isso mesmo, felizmente, a proposta não foi aceita na íntegra
pelos participantes da WSIS. No encontro, decidiu-se empurrar o
problema com a barriga novas discussões vão
ocorrer em 2006. Mas ainda assim brasileiros e seus companheiros
conseguiram politizar, com o clássico discurso antiimperialista,
um debate que deveria ser estritamente técnico. E essa é
uma guinada danosa e potencialmente perigosa.
O controle da rede está
em território americano mas não sob o controle do
governo. Afirmar o contrário equivale a dizer que o lendário
show de música de Woodstock, realizado no estado de Nova
York, em 1969, foi um projeto do governo dos EUA para dominar o
rock mundial. A verdade é que a internet nasceu nos Estados
Unidos como um projeto militar para manter um sistema paralelo de
comunicações funcionando em caso de guerra nuclear,
mas evoluiu para seu formato atual devido a sucessivas "pequenas
grandes" invenções de engenheiros e acadêmicos
geniais de muitas nacionalidades. É por isso que o molde
cultural da rede tem pouco a ver com a burocracia dos quartéis
e guarda relações muito mais estreitas com o ideário
libertário e criativo de Woodstock.
Esse caráter pouco convencional
pode ser ilustrado pelo comportamento de um dos pioneiros da internet,
o físico inglês Tim Berners-Lee. Ele foi o criador
do hipertexto e da World Wide Web, conhecida pela sigla www. Mas
não quis patentear as invenções. "Isso nunca
me preocupou. Se a tecnologia tivesse ficado nas minhas mãos,
a web não teria decolado", disse. Outra evidência desse
espírito criador foi dada pelo professor de ciência
da computação Jon Postel. Ele tocou praticamente sozinho
a internet por trinta anos. Foi apenas em 1998, no governo Clinton,
que a rede passou a ser administrada por uma entidade civil. Numa
calorosa discussão (os debates foram tão intensos
que Postel morreu após um ataque cardíaco), criou-se
a Corporação da Internet para a Designação
de Nomes e Números (Icann, na abreviação em
inglês), uma ONG ligada ao Departamento de Comércio
americano. A entidade tem um conselho formado por quinze integrantes
entre eles, dois brasileiros. A Icann cuida do sistema de
nomes e endereços que faz a internet funcionar (veja quadro
na página anterior).
A instituição não
está acima de críticas. Mas tem o mérito de
manter a web operando de forma eficiente e democrática. "As
pessoas têm de entender que a Icann é uma entidade
diferente, que já abriga grupos dos mais diversos, como políticos,
empresários e técnicos. O que não pode ocorrer
é que os debates sejam politizados. Esse é um risco
considerável", disse a VEJA Vinton Cerf, um dos pais da internet
e membro da Icann. Vanda Scartezini, representante brasileira na
entidade, acrescenta: "Podemos aumentar a participação
dos governos na instituição, mas não colocar
em risco o que já existe".
Não é o que pensam
os integrantes da comitiva brasileira na WSIS liderada pelo
ministro Gilberto Gil, cujo feito na web se resume à composição
da música Pela Internet. Um dos representantes verde-amarelos
no evento, Sérgio Rosa, do Serviço Federal de Processamento
de Dados (Serpro), chegou a propor a criação no Brasil
de uma internet 2, uma espécie de rede paralela, caso os
Estados Unidos não cedessem o controle sobre a web. "Eu sempre
trabalhei com as minorias. Os países fracos têm de
se unir para enfrentar os fortes", diz.
As discussões sobre os
destinos da internet não vão se esgotar tão
cedo. Estimativas apontam que o mercado em torno da venda de nomes
de domínio dos sites arrecada 1 bilhão de dólares
por ano. Todo o sistema de telefonia global está caminhando
para dentro da rede, com o avanço da tecnologia de voz sobre
protocolo da internet (VoIP, em inglês). Isso tudo aguça
o apetite pelo controle da rede. Os governos também não
sabem lidar com um fenômeno como a internet, que não
se prende a limites geográficos. Há algum tempo, Nicholas
Negroponte, do Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), definiu a internet como um terremoto de grau superior a 10
na escala Richter das transformações econômicas.
Ele acertou, mas não previu que tal tremor se daria também
no campo político.
Com reportagem de Chrystiane
Silva e Francisco Mendes
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