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Racismo As
comunidades do ódio Grupos
de internautas pregam intolerância racial e sexual no site de relacionamento
preferido pelos brasileiros  Leonardo
Coutinho A internet abriga 200 sites de relacionamento.
Um deles, o Orkut, tornou-se uma febre no Brasil. Nove dos seus 11 milhões
de usuários moram no país. É um caso raríssimo de
liderança verde-amarela no mundo digital. Quase metade dos internautas
nacionais pode ser encontrada por meio da página. O pedaço amargo
do seu sucesso é que o site se tornou território livre para a prática
de crimes. No início do ano, os promotores de São Paulo passaram
a investigar denúncias de racismo na internet. Descobriram que 80% dos
casos ocorriam no Orkut. Sabe-se que pelo menos 265.000 dos seus freqüentadores
fazem parte de comunidades que pregam violência contra minorias e discriminação
racial e sexual. O Orkut atrai grupos como esses porque não estabelece
regras para que seus usuários construam páginas temáticas
nem fiscaliza o teor das mensagens que eles divulgam. Hoje, o site abriga mais
de cinqüenta páginas de conteúdo racista e homofóbico.
Uma delas, a "Poder nazista", criada há apenas dois meses, já tem
220.000 associados. Apelando para um português rudimentar, um cidadão
que se apresenta como Andrew Krüdwerbrad Heisd afirma que se diverte espancando
homossexuais nas ruas da capital paulista e que seu sonho é queimar judeus.
Seus discípulos incluíram outras vítimas na fogueira. "Se
quisermos construir um Brasil melhor, temos que evitar a miscigenação
e queimar vivos negros e nordestinos", defende um deles. Depois que foi procurado
por VEJA, Heisd mudou o nome de sua página para "Poder Nacional Socialista",
outro nome do nazismo. O
criador de outra comunidade, L.M., conta que fundou a "Sou nazista, mas so
brasileiro" para reunir gente interessada em participar de espancamentos em Belém.
Como seu companheiro paulista, L.M. dificilmente conclui uma frase sem um erro
de ortografia. Tem apenas 16 anos e, apesar de ter pele e feições
típicas de caboclo, defende a pureza das raças. Em depoimento a
VEJA, ele relatou suas atividades com a turma que arregimentou na internet: "Ou
saímos à noite atrás de travestis ou ficamos esperando algum
judeu sair daqueles lugares onde eles vão rezar. Quando achamos um sozinho,
batemos nele até deixar o sujeito caído no chão. Se essas
aberrações estão em grupo, a gente passa de carro e joga
paus e pedras neles". L.M. diz não ter vergonha do que faz. Expõe
fotos suas na página racista e desafia a Polícia Federal. A bravura
só diminui quando seus pais entram em cena. "Para eles, sou um anjo. Se
descobrirem essa minha página, estou morto", disse. Fazer pouco caso das
autoridades é quase uma regra nas páginas neonazistas. Confiantes
na impunidade, muitos fornecem até números de telefones e e-mails.
"São páginas criminosas. Seus autores deviam estar na cadeia por
racismo e apologia do crime, mas é muito difícil processá-los",
diz o procurador da República Sérgio Suiama.
A divulgação de discriminação pela internet não
é um fenômeno exclusivo do Brasil, mas o país é um
dos poucos que tipificam racismo como crime. Nos últimos dois anos, o Ministério
Público abriu 100 inquéritos para investigar racismo na internet.
Só duas pessoas foram presas. Nenhuma delas continua na cadeia. O governo
brasileiro considera que um dos maiores entraves para prender os criminosos é
o próprio Orkut, que está sediado nos Estados Unidos e segue apenas
a legislação americana. Por ela, impedir manifestações
de racismo fere a liberdade de expressão. Com esse argumento, a direção
do site no Brasil nega-se a informar às autoridades a identidade dos criminosos.
"Se alguém está interessado em processar os autores, recomendo que
se mova uma ação judicial nos Estados Unidos", diz Marianna Mendonça,
que representa o site no Brasil. A Secretaria Especial dos Direitos Humanos considera
o site negligente e pretende recorrer aos tribunais nacionais para obrigar a filial
brasileira do Orkut a revelar o nome dos criminosos. |