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Brasil O
futuro chegou Livro de Maílson da Nóbrega
mostra que o Brasil tem hoje condições privilegiadas de
superar obstáculos ao desenvolvimento  Lucila
Soares
Montagem
sobre fotos de Celso Junior/AE, Alan Marques/Folha Imagem, Ed Ferreira/AE, Heudes
Regis, Haroldo de Faria/kino.com.br
 | REVOLUÇÃO
EM DOIS TEMPOS Consolidação da democracia e modernização
na economia: o Brasil deixa para trás a imagem de país do futuro |
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A história do mundo é
pontuada por extraordinários feitos e heróis, numa divisão
que tem por função estabelecer grandes ciclos e marcar as inflexões
mais importantes na vida de uma civilização, de um país ou
de toda a humanidade. Essa narrativa tem também um papel na construção
da identidade dos povos. Existe, no entanto, outra maneira de relatar a grande
aventura humana. Ela é composta de atos e fatos menos estridentes mas que,
paradoxalmente, quebram a ordem existente de tal maneira que se torna impossível
retroceder a um estágio anterior. É esse o recorte que o economista
e consultor Maílson da Nóbrega escolheu para contar a história
dos últimos 25 anos no Brasil e defender um ponto de vista ousado. Em meio
à maior crise política da história da República, o
ex-ministro da Fazenda subverte o mote "Brasil, país do futuro", título
do clássico de Stefan Zweig, para afirmar que O Futuro Chegou (Editora
Globo, 400 páginas, 45 reais). O ponto central
da obra, que chega às livrarias nesta semana, é a constatação
de que, a partir da década de 80 do século passado, houve uma silenciosa
revolução institucional no Brasil. Ela teve início junto
com as campanhas políticas pela redemocratização do país
e, até por isso, ficou em segundo plano no interesse das pessoas. Mas essa
revolução teve o papel de mudar uma lógica perversa de funcionamento
do Estado brasileiro que resistira intacta desde o descobrimento. Por essa lógica,
herdada de Portugal, o Estado foi, por quase cinco séculos, o protagonista
de todas as ações destinadas a desenvolver o país. Como tinham
essa nobre missão, os dirigentes da nação também detinham
poderes imperiais. Emitia-se dinheiro sem nenhum controle, autorizavam-se despesas
sem critério algum, subsidiava-se a ineficiência sem nenhum pudor.
A conta? Ora, para que serve o cidadão, o contribuinte? Para pagar a conta
na forma de impostos, confiscos e inflação. Orlando
Brito
 | TRÊS
SÉCULOS DE DEFASAGEM Reunião do Conselho Monetário
Nacional no governo Sarney: até os anos 80, o governo fazia o que queria na economia
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Para se ter uma idéia
do tamanho do atraso que tais práticas significavam, basta lembrar que
os ingleses fizeram em 1688 as mudanças que ficaram conhecidas como Revolução
Gloriosa e significaram, em resumo, a perda do poder absoluto do rei de criar
dívidas e impostos, atribuição que foi transferida ao Parlamento.
Junto com a Revolução Francesa, que lançou as bases do direito
individual com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
a Revolução Gloriosa é considerada o marco fundador do capitalismo,
pelo impulso que deu à livre iniciativa. O movimento brasileiro na mesma
direção veio com atraso de séculos. Mas foi feito. Constou
de um conjunto de mudanças na política monetária e fiscal
cuja formulação e implantação foram objeto de uma
guerra nos bastidores do governo o que é facilmente compreensível
considerando-se os privilégios que o atraso institucional proporcionava.
Um dos exemplos mais eloqüentes é a chamada "conta de movimento",
extinta em 1986. Era uma arapuca financeira. Funcionava como uma conta-corrente
que o Banco Central mantinha no Banco do Brasil. Essa conta permitia ao BB financiar-se
sempre que ficava no vermelho. Assim, era possível conceder empréstimos
aos amigos do poder sem exigir garantia, porque o custo de uma eventual inadimplência
seria bancado pelo BC leia-se por nós. Outro descalabro era a quantidade
de atribuições do Conselho Monetário Nacional (CMN). O órgão
chegou a ter 725 funções, quase todas de gasto, o que permitia ao
ministro da Fazenda atropelar solenemente (e dentro da lei) o orçamento
monetário do país. Hoje o papel do CMN é basicamente controlar
gastos. São mudanças que, aliadas à redemocratização,
à abertura da economia a partir de 1990 e à vitória sobre
a inflação a partir de 1994, com o Plano Real, resultaram num país
de instituições sólidas, tanto na política quanto
na economia, e pronto para entrar num longo ciclo de crescimento sustentado.
A principal referência do autor é a Nova Teoria Institucional consagrada
por Douglass North, Prêmio Nobel de Economia de 1993. Resumidamente, trata-se
da linha teórica que acredita ser o grau de amadurecimento das instituições
de uma nação entendidas como as regras do jogo que ali vigoram
e, evidentemente, a tradição em respeitá-las o principal
impulsionador ou entrave a seu desenvolvimento. A narrativa feita a partir dessa
ótica é das mais interessantes, exatamente porque revela o papel
fundamental de conter o poder de gasto e de endividamento dos governos.
No caso de O Futuro Chegou, a essa escolha se soma a decisão do
autor de subsidiar sua tese com um amplo pano de fundo da história econômica
mundial e brasileira, dando um tom arejado de crônica ao que poderia muito
facilmente ser um tratado aborrecido. O livro começa pelo nascimento do
mercado como uma instituição mais antiga que Matusalém, passa
pelos primórdios do capitalismo, pelas grandes navegações,
narra a colonização das Américas e vai pavimentando assim
o caminho para explicar o atraso institucional da América Latina e do Brasil.
Ao longo dessa história, destaca as mudanças
de rumo e de ritmo no progresso mundial proporcionadas pela popularização
de objetos do cotidiano, como o relógio mecânico. Maílson
lembra que na Idade Média a Igreja era a única instituição
que dominava o conhecimento necessário para construir o mecanismo que faz
esse tipo de relógio funcionar. A partir do século XIV, a quebra
desse monopólio do saber difundiu o relógio e introduziu uma nova
noção do tempo na atividade humana. Em outro trecho, mergulha-se
na Grande Depressão de 1929 para compreender como o New Deal, que pregava
o aumento da presença do Estado na economia para minimizar as conseqüências
do desastre econômico, virou panacéia universal e alimentou por décadas
a demagogia nacional-desenvolvimentista que custou a morrer no Brasil. Outra passagem,
assustadoramente atual, recupera um sermão do padre Antônio Vieira
feito em 1665, em Lisboa, para mostrar como é antiga a corrupção
no Brasil. "Perde-se o Brasil porque alguns ministros de Sua Majestade não
vêm cá buscar nosso bem. Vêm cá buscar nossos bens",
disse Vieira. Aos 63 anos, o paraibano Maílson
da Nóbrega narra essa história com as cores vivas de observador
privilegiado e participante de um importante momento de transição.
Como funcionário de carreira do Banco do Brasil, acompanhou as crises que
resultaram no colapso do modelo nacional-desenvolvimentista. Como secretário-geral
do Ministério da Fazenda, liderou os estudos que identificaram o atraso
institucional dos regimes fiscal e monetário e apresentaram sugestões
de mudança. Como ministro da Fazenda do final do governo Sarney, segurou
o tranco de uma inflação superior a 80% ao mês. Na iniciativa
privada, à frente da consultoria Tendências, tornou-se um respeitado
analista econômico. O Futuro Chegou, um projeto acalentado no decorrer
de 21 anos, foi escrito em sete semanas, depois de um período como pesquisador
visitante da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade
da USP. Não é (nem pretende ser) uma obra acadêmica. É
um ensaio de fôlego que sustenta um ponto de vista que se
pode considerar excessivamente otimista, mas ao qual não se pode negar
o mérito da boa fundamentação. É
verdade que, sob o impacto das denúncias de mensalão e afins, da
desfaçatez com que se admite o uso de caixa dois nas campanhas eleitorais
e dos expedientes que permitem aos envolvidos em grandes escândalos se safar
de qualquer punição, fica difícil perceber quanto já
se avançou. É verdade também que é preciso avançar
mais. O Brasil continua padecendo de falta de credibilidade em aspectos-chave,
como a segurança em relação aos contratos, e carrega a pesada
herança dos equívocos que foram incorporados à Constituição
de 1988 (veja quadro abaixo). Mas no decorrer dos
últimos vinte anos o país domou a inflação, integrou-se
à economia mundial, aprovou uma lei de responsabilidade fiscal e ainda
conseguiu completar a transição democrática, com quatro eleições
diretas para presidente e um impeachment, sem que se cogitasse de rupturas institucionais.
É pouco para chamar isso de futuro? Talvez. Mas basta um pouco de distanciamento
histórico para perceber que o avanço é extraordinário.
O noticiário da semana passada foi dominado pela briga pública travada
entre dois ministros, Antonio Palocci, da Fazenda, e Dilma Rousseff, da Casa Civil.
Ele, ex-trotskista. Ela, ex-guerrilheira da VAR-Palmares. O motivo da briga: divergência
sobre quão rigoroso deve ser o controle dos gastos públicos. Maílson
tem razão, o futuro chegou.
No passado, trevas na Constituinte Claudio
Versiani
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FESTA DA CONSTITUIÇÃO Encerramento dos trabalhos
da Constituinte de 1988: avanço democrático, atraso econômico
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A imagem do encerramento
dos trabalhos da "Constituição cidadã", em julho de 1988,
entrou para a história do Brasil como uma vitória da democracia.
E foi. Para as finanças públicas, entretanto, a Constituição
foi um desastre. Em O Futuro Chegou, Maílson da Nóbrega relata
as articulações para evitar que equívocos ainda mais graves
fossem incorporados ao texto final. Como secretário-geral do Ministério
da Fazenda, o economista participou, a convite do então deputado José
Serra, o principal relator das matérias econômicas, de uma comissão
informal de especialistas do governo para auxiliá-lo no exame dos relatórios
das subcomissões. Os maiores descalabros, na visão desses especialistas
que se reuniam à noite na casa de Serra, estavam na Subcomissão
do Sistema Financeiro. Correções foram feitas, mas o tabelamento
dos juros em 12% acabou aprovado em plenário. Por absurda e inaplicável,
a decisão foi inócua. Sua regulamentação em lei nunca
foi feita. Outra grande preocupação
era a partilha da arrecadação. Até 1974, estados e municípios
recebiam 10% da arrecadação do imposto de renda (IR) e do imposto
sobre produtos industrializados (IPI). A participação foi aumentando
e chegou a 33% em 1986. Um ano depois, os constituintes propunham a elevação
desse porcentual para 44% no IR e 54% no IPI, sem alteração na divisão
das responsabilidades. Em reunião no prédio do Ministério
da Fazenda, o relator da Constituinte, Bernardo Cabral, então deputado
pelo Amazonas, aceitou fazer mudanças para evitar o total desequilíbrio
das contas públicas. Disse que só não poderia mudar dois
ou três pontos, entre eles o que garantia 25 anos de isenção
fiscal para a Zona Franca de Manaus. A alegria durou pouco. Lembra Maílson:
"O deputado esqueceu todas as sugestões que duramente havíamos preparado
nas noites e nos fins de semana de Brasília".
Sem dúvida, teria sido melhor para o país se o bom senso nos assuntos
econômicos tivesse prevalecido sobre a boa intenção de alguns
e o oportunismo de outros. Mas, felizmente, nos anos seguintes, várias
distorções foram eliminadas. Chegam a quarenta as emendas constitucionais,
entre elas a que acabou com monopólios estatais, permitindo privatizações
e investimentos privados em telecomunicações, energia elétrica
e petróleo, e a que fez a reforma da Previdência. |
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