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Entrevista:
John Gray O
peso das ilusões Para o
pensador inglês, a fé no progresso é uma ilusão,
o homem não é dono de seu destino e os avanços científicos
nada têm a ver com a ética 
Thereza Venturoli
Andrea Tetoni
 | "A
crença no progresso nos impede de ver que, às vezes, em lugar de
progredir, estamos, sim, regredindo" | |
O inglês John Gray, professor de pensamento europeu na London School of
Economics, de 57 anos, é homem de frases curtas e categóricas, como
"o conhecimento não nos torna livres" ou "nenhum projeto político
pode salvar a humanidade de sua condição natural". Com afirmações
como essas, ele declara, em seu mais recente livro, Cachorros de Palha
(Editora Record), seu ceticismo com relação à tradição
cultural do Ocidente. Gray acusa o humanismo secular moderno, que embebe a filosofia,
a política e a ciência, de herdar do cristianismo a idéia
ilusória, segundo ele de que o homem tem papel central no
universo. Para o autor, ao contrário, o Homo sapiens não
é mais do que uma espécie cuja passagem pelo planeta é efêmera
e cujo destino é selado pelas mesmas leis naturais que regem as demais
formas de vida. Pessimismo? Segundo Gray, a mensagem do livro não é
de desespero, mas de libertação. Ele quer livrar o homem das ilusões
que o fazem se sentir responsável por "carregar a Terra sobre os ombros".
Até porque não adiantaria nada. Veja
Uma das teses centrais de seu livro Cachorros de Palha
é a de que a crença no progresso é uma ilusão. Mas
não seria essa crença uma necessidade, digamos, darwiniana dos seres
humanos um traço desenvolvido pela espécie por favorecer
sua sobrevivência? Gray A crença no progresso
não tem necessariamente uma razão evolutiva, não faz parte
da biologia humana, em absoluto. É algo que data do século XVIII,
ou seja, de cerca de dois séculos apenas. Afora aquelas que têm um
sentimento religioso, as pessoas que acreditam em alguma coisa hoje acreditam
no progresso e só no progresso. Para elas, as futuras gerações
sempre viverão melhor do que as anteriores, e a humanidade avança
no conhecimento como avança na ética e na política. Mas isso
é um mito, uma ilusão nociva, porque muitas vezes nos cega para
grandes problemas e nos impede de perceber que, quando pensamos estar progredindo,
na verdade estamos regredindo. Veja
Também na ciência o progresso é uma ilusão
nociva? Gray Na ciência e na tecnologia o progresso
é real, mas só faz aumentar o conhecimento e o poder do homem, e
esse poder pode ser usado tanto para os mais benignos objetivos quanto para os
mais desastrosos. Quando o conceito de progresso é aplicado à ética
e à política, ele é uma ilusão perigosa. Veja-se,
por exemplo, o caso dos gregos e dos romanos antigos. É claro que eles
acreditavam no desenvolvimento de novas ferramentas. Mas eles não transferiam
essa noção de progresso técnico para a ética ou a
política. É óbvio, também, que eles acreditavam no
bem e no mal, que as sociedades podiam ser melhores ou piores, e que a prosperidade
é preferível à fome e à pobreza. No entanto, para
gregos e romanos, os jogos da ética e da política estavam sujeitos
a avanços e retrocessos. Ou seja, a história humana era cíclica,
com diferentes períodos se alternando, como ocorre na natureza. Veja
O senhor discorda de qualquer pensamento que considere o homem como
o centro do universo. Mas é possível existir uma moral que não
seja antropocêntrica? Gray Sim, é possível.
Na verdade, na maior parte da história, a moralidade não foi antropocêntrica
nem no budismo nem no taoísmo, por exemplo. O antropocentrismo é
característica do cristianismo e do humanismo secular que nada mais
é do que uma versão do cristianismo sem Deus. Como qualquer outro
animal, o homem também aspira ao bem-estar. E o bem-estar humano é
em muitos pontos similar ao bem-estar dos outros seres vivos. Eu sustento que
o homem é um animal como outro qualquer, produto do mundo natural e passível
de ser eliminado por mudanças ambientais, como ocorreu com muitas outras
espécies no passado. Veja
Se o homem é um animal como outro qualquer, como nossa espécie
chegou a dominar o mundo? Gray O homem é um sucesso
evolutivo: desenvolveu uma linguagem sofisticada, uma incrível capacidade
de construir ferramentas e de registrar e transmitir uma memória cultural.
Alguns grandes primatas também detêm algumas dessas habilidades.
A diferença é que nenhum deles atingiu o nível alcançado
pelos humanos. Some-se a essa habilidade uma extrema ferocidade que também
não é característica única de nossa espécie
e temos aí as condições que permitiram ao homem tornar-se
a espécie dominante do planeta. Mas é um engano pensar que o homem
tenha conquistado a Terra. Somos a espécie dominante simplesmente porque
eliminamos grande parte da biosfera. E, ao fazermos isso, geramos condições
pouco promissoras para nossa própria sobrevivência. O poder que temos
sobre o meio ambiente não nos dá o controle sobre ele. O homem tem
muito poder, a ponto de destruir a Amazônia, mas não o poder de recompor
a mata rapidamente. Ora, se você não tem o poder de redesenhar a
biosfera, então não tem o controle sobre o planeta. Assim, acho
praticamente impossível que se concretize a previsão de que a população
humana chegue aos 8 ou 9 bilhões de pessoas daqui a cinqüenta ou sessenta
anos, vivendo em certo nível de prosperidade, sem que se desestabilize
a ecologia do planeta. Calculo que, daqui a um século, a população
mundial terá encolhido bastante. E essa queda poderá se dar de duas
maneiras: uma seria pelo declínio da taxa de fertilidade, como já
acontece em países como Japão e Itália. Outra, por meio de
guerras, doenças e pelos efeitos deletérios das mudanças
climáticas. Se eu tivesse de apostar, apostaria na segunda opção.
Seja como for, o sucesso do homem no planeta é real, mas extremamente precário
e muito mais curto que o de outras espécies, como os dinossauros, que dominaram
o planeta por milhões e milhões de anos. Pode acabar muito em breve.
Veja As habilidades
humanas sempre trazem conseqüências negativas, então? Gray
Nem sempre. As habilidades do homem produziram, por exemplo, a anestesia.
Quem gostaria de tirar um dente como se tirava no início do século
XIX, sem nenhuma anestesia? No entanto, essas mesmas habilidades causaram guerras
mais devastadoras, criaram novos tipos de arma, e aumentaram nossa capacidade
de cometer atrocidades numa escala jamais vista. E os assassinatos em massa são
um efeito colateral do progresso tecnológico. O homem sempre usou as ferramentas
que cria para abater seu semelhante, desde a pré-história. Mas o
genocídio é uma prática dos tempos modernos. Entre 1492 e
1990, ocorreram cerca de 36 genocídios, que ceifaram de dezenas de milhares
a dezenas de milhões de vidas. Só de 1950 até hoje, foram
cerca de vinte grandes matanças, ao menos três delas em Bangladesh,
Camboja e Ruanda com mais de 1 milhão de vítimas. Não
há dúvida de que os seres humanos herdaram esse comportamento violento
de alguns de seus parentes na linha evolutiva. Como o biólogo americano
Edward O. Wilson observou uma vez, se alguns de nossos primos babuínos
tivessem acesso a armas nucleares, o mundo já teria sido devastado há
muito tempo. Veja
O cientista americano Ray Kurzweil diz que o desenvolvimento tecnológico
particularmente a biotecnologia, a nanotecnologia e a teoria da informação
trará um futuro promissor para a espécie humana. Onde está
a falha nessa idéia? Gray A falha está em pensar
que esse progresso seja real. A ciência, no geral, chega mais perto da verdade
do mundo que outros sistemas de crença, e nós temos testemunhado
seu sucesso pragmático em aumentar o poder humano. Mas, do ponto de vista
ético, o conhecimento é neutro, desprovido de valor pode
tanto nos levar a realizações maravilhosas quanto atender a propósitos
terríveis. A ciência não é feitiçaria. Deixe-me
dar um exemplo do que é a ilusão no poder científico: na
Califórnia, as pessoas contratam organizações para ter seu
corpo congelado assim que morrerem. Esperam voltar à vida quando a tecnologia
assim o permitir, daqui a um século ou dois. A ilusão não
está em pensar que a tecnologia tornará isso possível
provavelmente tornará, um dia. A ilusão está em não
imaginar o que acontecerá nos próximos 100 ou 200 anos. Se a história
se repete em seus aspectos éticos e políticos, como eu acredito,
haverá várias quebras nas bolsas de valores, ataques terroristas,
guerras civis, mudanças de regime e talvez até outras guerras mundiais.
Nesse processo, muita coisa vai mudar: o direito à propriedade poderá
ser abandonado, empresas quebrarão e governantes serão substituídos.
É muito difícil que um contrato assinado hoje com uma empresa californiana
possa sobreviver aos próximos séculos. Em outras palavras, mesmo
que a tecnologia se desenvolva a ponto de levar o homem à imortalidade,
as instituições e a sociedade na qual vivemos não são
imortais, um dia acabarão. Veja
Então o limite para o progresso não está na
ciência, mas na sociedade? Gray A ilusão está
em não perceber que, por mais que o conhecimento avance, as instituições
impõem um limite. É completamente possível que a genética
chegue à clonagem humana, talvez não tão já, mas daqui
a cinqüenta anos. Eu faço uma predição: se isso se realizar,
a tecnologia será usada por terroristas e organizações criminosas
para criar seres humanos insensíveis à piedade e à simpatia,
e soldados ou assassinos que jamais precisem dormir. Não duvido que a genética
traga muitos benefícios para a humanidade, erradicando distúrbios,
corrigindo deficiências e curando doenças. Mas é claro que
a genética pode, também, ser usada no desenvolvimento de novas armas
e na perpetração de mais genocídios.
Veja Mas não foi sempre assim, a ciência
e a tecnologia podendo ser usadas tanto para o bem quanto para o mal?
Gray Absolutamente, sim. Mas ainda não aprendemos a lição.
Lembro-me de quando as pessoas imaginavam que as fotocópias acabariam de
vez com as falsificações. Mais tarde, o mesmo ocorreu com as câmeras
de vídeo. Tudo não passou de ilusão. Hoje acontece o mesmo:
as pessoas vêem a internet como um instrumento de liberação,
mas ao mesmo tempo ela torna nossa privacidade muito difícil. Tudo o que
você faz eletronicamente pode ser monitorado. Eu repito: o conhecimento
não liberta o homem, apenas aumenta seu poder um poder que pode
ser usado para o bem ou para o mal. Nesse ponto, sou um pessimista: o futuro da
humanidade será igual a seu passado, só que com mais conhecimento.
Veja Se a felicidade
e a salvação humanas não estão na ciência e
na tecnologia, onde estão elas? Gray A ciência
não é essencial para a felicidade. Basta lembrar que milhões
e milhões de indivíduos têm vivido felizes ao longo de toda
a história, mesmo sem acreditar no progresso. Na essência, nosso
sentimento de felicidade não é diferente do sentimento do homem
que viveu no Império Romano ou na Índia de Buda, cinco séculos
antes de Cristo. Isso não mudou. A única coisa que mudou foram o
conhecimento e o poder humanos, que cresceram muito. Veja
Qual o papel da religião hoje? Gray Acho
que a religião tem um papel central na cultura humana. Não acredito
que existam religiões verdadeiras ou falsas apenas as mais e as
menos bonitas, ou as mais e as menos esperançosas. Quem gosta de religião
se aproxima mais da poesia do que da ciência. A religião ocidental
tem se intimidado por rivalizar com a ciência. Mas a ciência diz respeito
ao poder, não dá um sentido à vida isso é função
da religião. E precisamos de mitos, de ilusões. Nem todo o avanço
científico pode eliminar a religião, pois suas raízes não
estão na ignorância, mas na necessidade humana de buscar um sentido
para as coisas. Prova disso é que, para muitas pessoas, a ciência
com sua promessa de eterno progresso torna-se ela mesma uma religião.
Veja Os Estados Unidos,
líderes mundiais em ciência e tecnologia, enfrentam hoje um renascimento
do fundamentalismo cristão, particularmente nos embates entre evolucionistas
e criacionistas. Como o senhor vê esse conflito? Gray
O conflito entre ciência e religião é uma peculiaridade das
culturas moldadas pelas tradições ocidentais, que dão uma
importância exagerada à fé nos assuntos do espírito.
A briga entre evolucionistas e criacionistas nos Estados Unidos é um modo
com que o fundamentalismo cristão resiste às implicações
antiantropocêntricas da teoria da seleção natural do inglês
Charles Darwin. Esse conflito não acontece com a mesma intensidade nas
culturas ligadas ao budismo e ao taoísmo, por exemplo, que são religiões
nas quais as práticas e as experiências místicas importam
mais do que a crença em si. Veja
O senhor diria que existem religiões que conflitam menos
com a ciência? Gray Religiões não-antropocêntricas,
como o taoísmo, parecem mais próximas do mundo que nos é
apresentado pelo que há de mais avançado na ciência contemporânea.
E, porque pregam uma certa modéstia sobre o lugar dos seres humanos no
esquema das coisas, essas religiões são mais capazes de promover
a felicidade. No entanto, recomendo também algumas filosofias ocidentais,
como o epicurismo. O grande poema A Natureza das Coisas, de Lucrécio,
é um antigo guia para viver feliz num mundo em que o homem não é
a figura central. Veja
Para o leitor, seu livro pode deixar um certo sabor de desesperança.
Qual a saída? Ou não há saída? Gray
A mensagem central de Cachorros de Palha não é de desesperança,
mas de libertação. O que eu pretendo é sugerir ao leitor:
leve sua vida da maneira mais bela e inteligente possível, pois o destino
da Terra não está sobre seus ombros. Na verdade, foi assim que viveu
a maioria dos milhões e milhões de seres humanos que já passaram
pelo planeta. A necessidade de acreditar que o futuro será melhor é
uma ilusão. A felicidade não vem daí, mas de aceitar a nossa
natureza animal, que, ao contrário das crenças, é imutável. |