Edição 1932 . 23 de novembro de 2005

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Auto-retrato
Anatoly Berezovoy


Divulgação


Em 1982, o cosmonauta russo Anatoly Berezovoy passou 211 dias, nove horas e cinco minutos no espaço. Sua missão transcorreu a bordo da estação orbital soviética Salyut 7, para onde ele viajou na Soyuz T-5, espaçonave precursora daquela em que o cosmonauta brasileiro Marcos Cesar Pontes embarcará no ano que vem. Fã de ficção científica, Berezovoy, de 63 anos, visitou o Brasil na semana passada a convite da editora Nova Realidade e ajudou a divulgar o livro Rumo às Estrelas, do americano L. Ron Hubbard. Ele falou a VEJA sobre exploração espacial.

O QUE É NECESSÁRIO PARA SER UM COSMONAUTA?
Saúde, equilíbrio psíquico e inteligência fazem parte da resposta. Deve-se passar por uma rígida seleção. Mas, não menos importante, é preciso ser movido por um grande desejo. Infelizmente, parece que a idéia de se tornar cosmonauta deixou de ser um sonho típico da juventude. Ao menos na Rússia, temos hoje menos pessoas em busca dessa carreira do que há quarenta anos.

QUAL A MAIOR DIFICULDADE DE UMA LONGA ESTADA NO ESPAÇO?
O cosmo é hostil ao homem. Põe nosso corpo e nossas emoções à prova. Para mim, o mais difícil não foi a falta de gravidade, nem o trabalho pesado. Foi conviver, num espaço confinado, com alguém muito diferente de mim – meu companheiro de missão Valentin Lebedev. Os psicólogos nos alertaram sobre essa provação, e ela foi real.

OUVEM-SE HISTÓRIAS DE COSMONAUTAS QUE VOLTARAM DO ESPAÇO E ABRAÇARAM O MISTICISMO. O SENHOR SENTIU ESSA TENTAÇÃO?
Depois de estar no espaço, tornei-me mais rigoroso comigo mesmo e mais gentil com aqueles à minha volta. Comecei a apreciar mais a vida. Mas continuo tão ateu quanto antes. Dos 443 cosmonautas existentes, encontrei mais de 200. E não conheço ninguém que tenha se tornado religioso ao voltar. O americano Eugene Cernan esteve na Lua durante a última expedição da Apollo 17. Ele me disse várias vezes que a Providência o ajudou na viagem. Mas Eugene era religioso muito antes de se tornar cosmonauta.

COSMONAUTAS TEM PROBLEMAS DE SAÚDE NO RETORNO. COMO FOI COM O SENHOR?
Viver sem gravidade não é saudável. Os ossos perdem cálcio, as células do sangue são prejudicadas, a massa muscular diminui. Eu perdi 5 quilos em meu vôo espacial. Um enfraquecimento do sistema imunológico manifestou-se depois, e comecei a ter gripes freqüentes. É o custo da aventura.

DEPOIS DA VIAGEM, ALGUNS COSMONAUTAS SENTIRAM TER REJUVENESCIDO. ISSO ACONTECEU COM O SENHOR?
Uma possível explicação desse fenômeno é que, numa nave espacial, a pele não está sujeita a fatores como vento e raios ultravioleta. Sem gravidade, o coração também bombeia mais sangue para o rosto, diminuindo as rugas. Mas esse efeito é revertido no retorno. Mais que isso: nas primeiras semanas no solo, problemas como náusea e tontura são inescapáveis. Adaptar-se novamente à Terra é mais difícil do que se adaptar ao espaço. Por isso, acho que os cosmonautas que voltam de longos vôos parecem mais velhos, e não mais jovens.

O COSMONAUTA BRASILEIRO MARCOS CESAR PONTES DEVE EMBARCAR NUMA NAVE SOYUZ NO ANO QUE VEM. QUE CONSELHOS DARIA A ELE?
Pontes está em treinamento na Rússia, às vezes nos encontramos. Meu conselho é: no espaço, observe a Terra quanto puder. Essa foi minha principal atividade nos momentos de folga. Ver a Terra do espaço é uma experiência transformadora.

COMO FOI SUA PRIMEIRA VISÃO DA TERRA?
Foi pela janela da nave Soyuz T-5, quando a proteção do compartimento foi ejetada. Eu vi a Terra de um ângulo inesperado: ela estava no alto da janela. Lembrei dos livros de ficção científica que li, sobre personagens que só aprendem a amar o planeta quando o vêem a distância. Comigo foi assim.

 
 
 
 
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