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Auto-retrato
Anatoly Berezovoy
Divulgação
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Em 1982, o cosmonauta russo Anatoly Berezovoy passou 211 dias, nove
horas e cinco minutos no espaço. Sua missão transcorreu
a bordo da estação orbital soviética Salyut
7, para onde ele viajou na Soyuz T-5, espaçonave precursora
daquela em que o cosmonauta brasileiro Marcos Cesar Pontes embarcará
no ano que vem. Fã de ficção científica,
Berezovoy, de 63 anos, visitou o Brasil na semana passada a convite
da editora Nova Realidade e ajudou a divulgar o livro Rumo às
Estrelas, do americano L. Ron Hubbard. Ele falou a VEJA sobre
exploração espacial.
O QUE É NECESSÁRIO PARA SER
UM COSMONAUTA?
Saúde, equilíbrio psíquico e inteligência
fazem parte da resposta. Deve-se passar por uma rígida seleção.
Mas, não menos importante, é preciso ser movido por
um grande desejo. Infelizmente, parece que a idéia de se
tornar cosmonauta deixou de ser um sonho típico da juventude.
Ao menos na Rússia, temos hoje menos pessoas em busca dessa
carreira do que há quarenta anos.
QUAL A MAIOR DIFICULDADE DE UMA LONGA ESTADA
NO ESPAÇO?
O cosmo é hostil ao homem. Põe nosso corpo e
nossas emoções à prova. Para mim, o mais difícil
não foi a falta de gravidade, nem o trabalho pesado. Foi
conviver, num espaço confinado, com alguém muito diferente
de mim meu companheiro de missão Valentin Lebedev.
Os psicólogos nos alertaram sobre essa provação,
e ela foi real.
OUVEM-SE HISTÓRIAS DE COSMONAUTAS
QUE VOLTARAM DO ESPAÇO E ABRAÇARAM O MISTICISMO. O
SENHOR SENTIU ESSA TENTAÇÃO?
Depois de estar no espaço, tornei-me mais rigoroso comigo
mesmo e mais gentil com aqueles à minha volta. Comecei a
apreciar mais a vida. Mas continuo tão ateu quanto antes.
Dos 443 cosmonautas existentes, encontrei mais de 200. E não
conheço ninguém que tenha se tornado religioso ao
voltar. O americano Eugene Cernan esteve na Lua durante a última
expedição da Apollo 17. Ele me disse várias
vezes que a Providência o ajudou na viagem. Mas Eugene era
religioso muito antes de se tornar cosmonauta.
COSMONAUTAS TEM PROBLEMAS DE SAÚDE
NO RETORNO. COMO FOI COM O SENHOR?
Viver sem gravidade não é saudável. Os
ossos perdem cálcio, as células do sangue são
prejudicadas, a massa muscular diminui. Eu perdi 5 quilos em meu
vôo espacial. Um enfraquecimento do sistema imunológico
manifestou-se depois, e comecei a ter gripes freqüentes. É
o custo da aventura.
DEPOIS DA VIAGEM, ALGUNS COSMONAUTAS SENTIRAM
TER REJUVENESCIDO. ISSO ACONTECEU COM O SENHOR?
Uma possível explicação desse fenômeno
é que, numa nave espacial, a pele não está
sujeita a fatores como vento e raios ultravioleta. Sem gravidade,
o coração também bombeia mais sangue para o
rosto, diminuindo as rugas. Mas esse efeito é revertido no
retorno. Mais que isso: nas primeiras semanas no solo, problemas
como náusea e tontura são inescapáveis. Adaptar-se
novamente à Terra é mais difícil do que se
adaptar ao espaço. Por isso, acho que os cosmonautas que
voltam de longos vôos parecem mais velhos, e não mais
jovens.
O COSMONAUTA BRASILEIRO MARCOS CESAR PONTES
DEVE EMBARCAR NUMA NAVE SOYUZ NO ANO QUE VEM. QUE CONSELHOS DARIA
A ELE?
Pontes está em treinamento na Rússia, às
vezes nos encontramos. Meu conselho é: no espaço,
observe a Terra quanto puder. Essa foi minha principal atividade
nos momentos de folga. Ver a Terra do espaço é uma
experiência transformadora.
COMO FOI SUA PRIMEIRA VISÃO DA TERRA?
Foi pela janela da nave Soyuz T-5, quando a proteção
do compartimento foi ejetada. Eu vi a Terra de um ângulo inesperado:
ela estava no alto da janela. Lembrei dos livros de ficção
científica que li, sobre personagens que só aprendem
a amar o planeta quando o vêem a distância. Comigo foi
assim.
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