André
Petry
Iracema, uma viúva
"Manoel
de Barros, o grande poeta
de Mato Grosso do Sul, escreveu:
'Foi uma imolação pela pátria que
na terra do mensalão destoa.'"
Francisco Ancelmo Gomes de Barros,
o ambientalista que ateou fogo a si mesmo e morreu no dia seguinte,
preparou sua morte com cuidado. Deixou dezesseis cartas para serem
lidas depois de sua morte. Escreveu para a esposa, as irmãs,
os amigos, mas também deixou bilhetes ao prefeito, ao promotor,
a líderes religiosos, à imprensa. Disse em que capela
queria ser velado, escolheu o cemitério, a cova e até
a hora do enterro. Na entidade preservacionista da qual fora fundador,
a Fuconams, deixou os documentos organizados. Entregou-se até
à derradeira gentileza de pedir que umas revistas velhas
fossem doadas para uma cabeleireira amiga.
Na noite anterior à imolação,
deitou-se ao lado de sua mulher, Iracema de Barros, com quem dividiu
o mesmo teto por 34 anos, cumulou-a de carícias e deixou-a
adormecer com a cabeça pousada sobre seu ombro. No dia seguinte,
à mesa do café-da-manhã, em vez do habitual
beijo na testa, despediu-se da mulher com um abraço e um
beijo na boca. Iracema, somando os dengos noturnos ao ardor matinal,
assoprou a uma amiga: "Anuncia-se uma nova lua-de-mel".
No dia seguinte, Francelmo, como
era conhecido, estava morto. Em vez da lua-de-mel, Iracema recebeu
um bilhete de seu amigo Manoel de Barros, o grande poeta de Mato
Grosso do Sul, que escreveu: "Foi uma imolação pela
pátria que na terra do mensalão destoa". E arrematou:
"Francelmo: o último herói do Brasil". Francelmo entregou
a vida em protesto contra a proposta do governador Zeca do PT de
instalar uma usina de álcool no Pantanal. E deixou Iracema,
aos 67 anos, solta na bruma de uma tragédia pessoal:
O que a senhora sentiu
quando soube do gesto de seu marido?
Mágoa e revolta.
E o que a senhora fez?
Me fechei, fui chorar
num cantinho, a casa já estava cheia de amigos. Examinei
nossa vida para saber se eu tinha feito alguma coisa...
Quando a senhora descobriu
as cartas e soube que era tudo em defesa do Pantanal, o que pensou?
Pensei: "Mas será
que tudo isso era mais importante que a gente?"
E a que conclusão
chegou?
Fui lendo as cartas, li
a deixada para mim, e aí fui entendendo melhor.
Na carta a Iracema, Francelmo
sugeriu que a mulher, diabética e com problemas num joelho,
mudasse "para um apartamento térreo em frente à padaria
Tietê". Cuidados assim foram amansando o espírito de
Iracema. Francelmo falou ainda de sua certeza de que Iracema não
agiria como uma "viúva desvairada" e, sendo forte e guerreira,
enfrentaria mais essa com galhardia.
Sobrou mágoa
ou revolta?
Nenhuma.
Então, valeu
a pena o gesto de seu marido?
Ah, isso eu não
sei... Espero que valha. Que seu desejo seja atendido. Mas, para
mim, pessoalmente, é muito difícil. Vou levar o resto
da vida precisando dele perto de mim.
Iracema não se comporta
como uma "viúva desvairada" e também não se
presta ao papel de viúva oficial do Pantanal. É admirável
que saiba mover-se com elegante sinceridade num mundo que exige
espetáculos e em meio a dores tão fundas
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