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A gangue do bilhão
A fama
e a sonegação de impostos
foram a desgraça de três novos-ricos
chineses. Dois acabaram na cadeia.
Outro fugiu para os Estados Unidos
AFP
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| Yang
Bin em visita recente a Pyongyang, capital da Coréia do Norte:
"Não sou apenas homem de negócios. Sou diplomata e líder
político" |
Um ditado
chinês diz que "é tão difícil para um rico
evitar a fama quanto para um porco evitar a gordura". Os milhares de novos-ricos
que a China vem produzindo a cada ano desde que começou sua abertura
para o Ocidente estão tendo muita dor de cabeça por atrair
na mesma proporção fama e a inveja dos dirigentes do Partido
Comunista. Ao decretarem o fim da carreira dos dois primeiros chineses
a juntar uma fortuna próxima a 1 bilhão de dólares,
os dirigentes comunistas emitiram um sinal claro de que milionários
são aceitos, mas bilionários, pelo menos por enquanto, não.
Yang Rong, o orgulhoso "Henry Ford chinês", dirigente da maior fábrica
de automóveis do país, também caiu em desgraça.
Insatisfeito com o tratamento de alguns burocratas, Rong ameaçou
transferir uma de suas fábricas para outro país. Sua prisão
foi decretada, mas ele conseguiu fugir para os Estados Unidos. O "rei
das orquídeas", Yang Bin, nomeado governador de uma das "zonas
de desenvolvimento capitalista" na fronteira com a Coréia do Norte,
foi preso horas depois de dar uma entrevista em que se descrevia como
"mais que um homem de negócios, um diplomata e líder político".
Além
do fato de terem acumulado uma fortuna monumental, eles têm em comum
sua aparição nos primeiros postos da lista dos chineses
mais ricos divulgada pela revista americana Forbes em dezembro
do ano passado. Liu Xiaoqing, atriz de 51 anos que construiu uma enorme
fortuna como produtora de filmes, atraiu também a fúria
punitiva de Pequim ao se declarar "a primeira chinesa bilionária".
Ela foi presa em julho acusada de sonegação de impostos
e espera o julgamento numa cela. A atriz juntou perto de 80 milhões
de dólares, mas nas entrevistas se definia bilionária. Bin
aparece em segundo lugar e Rong em terceiro na lista da Forbes.
A fortuna de cada um deles gira em torno do bilhão de dólares.
"As autoridades quiseram dar uma lição. Algumas pessoas
acumularam uma riqueza acima da imaginação e o governo precisa
mostrar que controla também os ricos", disse ao jornal The New
York Times Liu Huan, economista da Universidade de Finanças
e Economia de Pequim. "Os investidores privados têm um status na
China bem mais alto que antes, mas também mais obrigações
agora."
Analistas
políticos que acompanham as mudanças de humor do Partido
Comunista chinês acreditam que as prisões foram motivadas
por razões bem menos nobres. A atriz Xiaoqing foi acusada de sonegar
o equivalente a pouco mais de 1 milhão de dólares. Rong
e Bin começaram a ser perseguidos mesmo sem haver um processo formal
de acusações contra eles. "Se as autoridades estivessem
mesmo decididas a moralizar os negócios na China, teriam mandado
prender todos os empresários", diz Wu Guogang, especialista em
política chinesa da Universidade de Hong Kong. "Esses súbitos
ataques de moralidade têm motivação política
e seus alvos são escolhidos seletivamente." No caso das recentes
prisões, ao que parece, Pequim decidiu agir porque a popularidade
deles entre os jovens chineses vinha crescendo demasiadamente. Seu sucesso
é mais venerado na China hoje que os feitos históricos dos
heróis revolucionários do país. Os atuais burocratas
do governo, mesmo os de mais alta patente, não podem concorrer
com as estrelas chinesas listadas pela Forbes.
Xiaoqing
publicou uma autobiografia em que exalta as virtudes do individualismo
e incentiva os jovens a tentar um dia ser milionários. Rong se
vangloriava de ter construído seu império automobilístico
"sem 1 centavo do governo chinês". À revelia de Pequim, Bin
procurou aproximar-se dos líderes norte-coreanos, aos quais prometeu
assistência para uma eventual abertura para o Ocidente. Os três
pagaram caro pela desenvoltura. As punições chegaram poucas
semanas antes da implementação de mais uma das medidas de
abertura adotadas pelos dirigentes chineses, a aceitação
de empresários como membros do Comitê Central do Partido
Comunista. Na primeira semana de novembro, a inovação introduzida
pelo presidente chinês, Jiang Zemin, será colocada em votação
durante a realização do 16º Congresso do Partido. A
prisão dos bilionários seguiu-se a uma campanha nacional
contra a sonegação de impostos. O governo chinês calcula
que está arrecadando apenas uma fração do que poderia
se todos pagassem o que devem. "Por que quanto mais ricos eles ficam menos
impostos pagam?", perguntava recentemente Zhu Rongji, o primeiro-ministro
da China. Rongji assegurou que as punições vão acelerar,
e não atrasar, a modernização da economia chinesa.
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