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Edição 1 774 - 23 de outubro de 2002
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A gangue do bilhão

A fama e a sonegação de impostos
foram a desgraça de três novos-ricos
chineses. Dois acabaram na cadeia.
Outro fugiu para os Estados Unidos

 
AFP
Yang Bin em visita recente a Pyongyang, capital da Coréia do Norte: "Não sou apenas homem de negócios. Sou diplomata e líder político"

Um ditado chinês diz que "é tão difícil para um rico evitar a fama quanto para um porco evitar a gordura". Os milhares de novos-ricos que a China vem produzindo a cada ano desde que começou sua abertura para o Ocidente estão tendo muita dor de cabeça por atrair na mesma proporção fama e a inveja dos dirigentes do Partido Comunista. Ao decretarem o fim da carreira dos dois primeiros chineses a juntar uma fortuna próxima a 1 bilhão de dólares, os dirigentes comunistas emitiram um sinal claro de que milionários são aceitos, mas bilionários, pelo menos por enquanto, não. Yang Rong, o orgulhoso "Henry Ford chinês", dirigente da maior fábrica de automóveis do país, também caiu em desgraça. Insatisfeito com o tratamento de alguns burocratas, Rong ameaçou transferir uma de suas fábricas para outro país. Sua prisão foi decretada, mas ele conseguiu fugir para os Estados Unidos. O "rei das orquídeas", Yang Bin, nomeado governador de uma das "zonas de desenvolvimento capitalista" na fronteira com a Coréia do Norte, foi preso horas depois de dar uma entrevista em que se descrevia como "mais que um homem de negócios, um diplomata e líder político".

Além do fato de terem acumulado uma fortuna monumental, eles têm em comum sua aparição nos primeiros postos da lista dos chineses mais ricos divulgada pela revista americana Forbes em dezembro do ano passado. Liu Xiaoqing, atriz de 51 anos que construiu uma enorme fortuna como produtora de filmes, atraiu também a fúria punitiva de Pequim ao se declarar "a primeira chinesa bilionária". Ela foi presa em julho acusada de sonegação de impostos e espera o julgamento numa cela. A atriz juntou perto de 80 milhões de dólares, mas nas entrevistas se definia bilionária. Bin aparece em segundo lugar e Rong em terceiro na lista da Forbes. A fortuna de cada um deles gira em torno do bilhão de dólares. "As autoridades quiseram dar uma lição. Algumas pessoas acumularam uma riqueza acima da imaginação e o governo precisa mostrar que controla também os ricos", disse ao jornal The New York Times Liu Huan, economista da Universidade de Finanças e Economia de Pequim. "Os investidores privados têm um status na China bem mais alto que antes, mas também mais obrigações agora."

Analistas políticos que acompanham as mudanças de humor do Partido Comunista chinês acreditam que as prisões foram motivadas por razões bem menos nobres. A atriz Xiaoqing foi acusada de sonegar o equivalente a pouco mais de 1 milhão de dólares. Rong e Bin começaram a ser perseguidos mesmo sem haver um processo formal de acusações contra eles. "Se as autoridades estivessem mesmo decididas a moralizar os negócios na China, teriam mandado prender todos os empresários", diz Wu Guogang, especialista em política chinesa da Universidade de Hong Kong. "Esses súbitos ataques de moralidade têm motivação política e seus alvos são escolhidos seletivamente." No caso das recentes prisões, ao que parece, Pequim decidiu agir porque a popularidade deles entre os jovens chineses vinha crescendo demasiadamente. Seu sucesso é mais venerado na China hoje que os feitos históricos dos heróis revolucionários do país. Os atuais burocratas do governo, mesmo os de mais alta patente, não podem concorrer com as estrelas chinesas listadas pela Forbes.

Xiaoqing publicou uma autobiografia em que exalta as virtudes do individualismo e incentiva os jovens a tentar um dia ser milionários. Rong se vangloriava de ter construído seu império automobilístico "sem 1 centavo do governo chinês". À revelia de Pequim, Bin procurou aproximar-se dos líderes norte-coreanos, aos quais prometeu assistência para uma eventual abertura para o Ocidente. Os três pagaram caro pela desenvoltura. As punições chegaram poucas semanas antes da implementação de mais uma das medidas de abertura adotadas pelos dirigentes chineses, a aceitação de empresários como membros do Comitê Central do Partido Comunista. Na primeira semana de novembro, a inovação introduzida pelo presidente chinês, Jiang Zemin, será colocada em votação durante a realização do 16º Congresso do Partido. A prisão dos bilionários seguiu-se a uma campanha nacional contra a sonegação de impostos. O governo chinês calcula que está arrecadando apenas uma fração do que poderia se todos pagassem o que devem. "Por que quanto mais ricos eles ficam menos impostos pagam?", perguntava recentemente Zhu Rongji, o primeiro-ministro da China. Rongji assegurou que as punições vão acelerar, e não atrasar, a modernização da economia chinesa.

 
 
   
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