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Traficantes usam
o terror como arma de guerra
Bandidos voltam a apavorar o
Rio de Janeiro
em mais uma
demonstração de força e ousadia
Ronaldo França
Otavio Magalhães/AE
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| Armas
em poder dos detentos: arsenal de guerra estava dentro do presídio
|
O
Rio de Janeiro foi, na semana passada, mais uma vez o cenário de
um espetáculo de violência e ousadia dos traficantes. Dessa
vez, a trama se deu em dois atos. O primeiro ocorreu na noite de terça-feira,
no presídio de Bangu III, uma das dezesseis unidades do complexo
penitenciário de Bangu. Numa operação aparentemente
bem planejada, 63 bandidos tentaram resgatar comparsas do traficante Fernandinho
Beira-Mar, todos integrantes da facção criminosa Comando
Vermelho. Usaram caminhonetes disfarçadas de viaturas policiais
e conseguiram chegar muito perto do muro externo da penitenciária.
Enquanto isso, no lado de dentro, os detentos estavam armados com cinco
fuzis, cinco pistolas, duas granadas, 5 quilos de explosivos e muita munição.
Eles alcançaram o mesmo muro através de um túnel
de 14 metros de extensão, aberto no piso de concreto da cadeia.
A fuga só foi evitada pela ação de um policial militar,
que abriu fogo contra os bandidos que vinham pelo lado de fora. O segundo
ato ocorreu uma hora depois, na zona sul da cidade, distante 30 quilômetros
do presídio. Quatro homens a bordo de um táxi passearam
pelas ruas disseminando o terror. Deram tiros de fuzil contra o Palácio
Guanabara, sede do governo estadual, explodiram uma granada militar na
calçada em frente a um dos principais shoppings da cidade, alvejaram
policiais em uma patrulha e atiraram contra uma delegacia. Tudo isso se
deu num intervalo de nove horas. No epílogo da ação,
os bandidos usaram o próprio sistema de rádio da polícia
para ameaçar de morte a governadora, Benedita da Silva.
As ações impressionam pela quantidade, mas principalmente
pela organização e ousadia. Cavar um túnel numa penitenciária
com piso de concreto, colocar um arsenal digno de pelotão de exército
num presídio dito de segurança máxima, passear livremente
pela cidade praticando o terror e entrar na freqüência de rádio
privativa da polícia para ameaçar a mais alta autoridade
do Estado é mais do que uma simples bravata de quem não
teme a lei. Foi uma ação organizada pelos líderes
do tráfico com o objetivo de confrontar o governo do Rio. Resta
esclarecer o motivo. Traficantes de drogas, como se sabe, não são
guerrilheiros e tampouco terroristas movidos por ideologias ou objetivos
políticos. Existem com o único propósito de lucrar
com o comércio ilegal de entorpecentes, um mercado que movimenta,
anualmente, 40 bilhões de reais no país. Para que seu comércio
funcione sem percalços, é preciso que os dependentes de
drogas continuem sua serena romaria em direção às
bocas do tráfico. Isso só ocorre quando a polícia
não está por perto. Por que então provocaram a balbúrdia
da semana passada, que levou 4.000 novos policiais às ruas?
Wilton Junior/AE
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| Furo
de bala de fuzil no Palácio Guanabara, sede do governo: bandidos disseminam
o pânico no Rio com tiros e bombas |
Uma
das explicações possíveis foi dada pelas próprias
autoridades estaduais. "Os bandidos querem politizar sua ação.
Querem causar o terror, porque estão sufocados", afirma a coordenadora
de Segurança Pública, Jacqueline Muniz. Segundo a polícia
do Rio, desde o início do governo de Benedita, 1.800 pessoas ligadas
ao tráfico já foram presas. Neste exato momento, toda a
cúpula do Comando Vermelho, a principal facção criminosa
em atividade no Estado, está atrás das grades Beira-Mar
incluído. Da facção rival, o Terceiro Comando, apenas
dois integrantes de alta estatura estão à solta. Para complicar
ainda mais sua vida, após a rebelião no presídio
de Bangu I, em 11 de setembro passado, os líderes presos tiveram
reduzidas suas possibilidades de comunicação com o exterior.
Os advogados foram proibidos de entrar nas prisões e os celulares
foram retirados. Essa é a explicação da polícia.
Ela tem seu fundamento nos fatos, mas é também um paradoxo
ou seja, os marginais estão agindo com mais ousadia porque
o policiamento está melhor. Afinal, depois de tantas rebeliões
e revistas, como explicar que os bandidos estivessem armados com equipamento
tão pesado no interior de uma penitenciária? As autoridades
apertam de um lado, mas a coisa está frouxa do outro.
O Rio de Janeiro convive há muitas décadas com o tráfico
pesado. Mas foi nos anos 80 que a situação começou
a se agravar. Quando os bicheiros, tradicionais corruptores da polícia,
passaram a fazer seu acerto na cúpula da segurança, os policiais
corruptos foram buscar a propina entre os traficantes. "Foi aí
que o tráfico começou a crescer e esticar seus tentáculos
para dentro da corporação policial", afirma do delegado
Álvaro Lins, ex-chefe da Polícia Civil do Rio. Surgiram
as facções criminosas e as armas importadas. Somente a corrupção
do Estado explica como aqueles cinco fuzis, pistolas, granadas e explosivos
foram parar dentro do presídio e permaneceram ocultos durante seguidas
varreduras. Apenas uma semana antes, o presídio de Bangu III havia
passado por uma fiscalização. Depois do episódio
de 11 de setembro, quando o presídio vizinho foi dominado por Fernandinho
Beira-Mar, as buscas por armas se intensificaram. Se elas não foram
encontradas, só pode ter havido conivência e indisfarçável
ineficiência. "É claro que o governo está pisando
em algum calo, que ainda não se sabe exatamente qual é,
mas seria ingenuidade dizer que estamos vencendo a guerra", afirma o sociólogo
Inácio Cano, especialista em segurança pública. Por
enquanto, no território do medo, os bandidos estão imperando.
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