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Falsa segurança

A pílula do dia seguinte ganha
terreno entre as adolescentes.
E isso é um perigo

Paula Neiva


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Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 28/11/2001: "Aborto: uma prática em queda livre"
Reportagem de 2/2/2000: "Sexo sem medo"
Reportagem de 15/12/1999: "Só precisa pedir"
Reportagem de 24/3/1999: "Drágea do medo"

Lançada no Brasil em 1999, a "pílula do dia seguinte" tem indicações precisas. Só deve ser tomada em casos de emergência – quando, por exemplo, o preservativo se rompe durante a relação e há o risco de gravidez. O medicamento é utilizado em duas doses. A primeira deve ser tomada até três dias depois da relação e a outra doze horas mais tarde. O uso do contraceptivo, no entanto, vem sendo desvirtuado por muitas adolescentes de classe média. É cada vez maior o número de meninas que recorrem à pílula do dia seguinte como se ela fosse o único método anticoncepcional existente. A história de Carolina, estudante paulista de 17 anos, ilustra bem esse abuso. Em dois meses, recorreu aos comprimidos quatro vezes. O namorado não gostava de usar camisinha e ela se recusava a tomar a pílula tradicional, que requer um uso contínuo. "Tinha medo de que meus pais descobrissem que eu tinha uma vida sexual ativa. Com a pílula do dia seguinte fica mais fácil esconder isso deles", conta Carolina.

Seguras de que poderão evitar uma gravidez indesejada, as adolescentes abrem mão do sexo seguro. Ficam, portanto, mais expostas a doenças sexualmente transmissíveis, como a Aids. "O uso indiscriminado da pílula do dia seguinte mostra que a preocupação das meninas, no momento da relação, não vai muito além de engravidar", diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Há duas semanas, Timerman atendeu uma jovem aluna de uma escola tradicional da capital paulista. Durante uma festa, ela conheceu um rapaz e foi para a cama com ele. Tranqüila porque tomaria a pílula do dia seguinte, deixou a prevenção de lado. A moça não ficou grávida, mas contraiu sífilis. O quadro é realmente preocupante. Uma pesquisa com mais de 1 000 adolescentes, coordenada pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, mostra que o medo de engravidar é infinitamente maior do que o temor de uma infecção contraída durante o sexo.

Há ainda outros perigos. A pílula do dia seguinte tem uma quantidade de hormônios equivalente a oito pílulas convencionais. O uso rotineiro do medicamento faz com que o organismo se ressinta desse bombardeio hormonal. Dor de cabeça, inchaço, náuseas e vômitos são sintomas bastante comuns. "Como se trata de uma droga relativamente nova, ainda não há estudos suficientes sobre os perigos a longo prazo", diz o médico Maurício de Souza Lima, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um dos receios é que a alta dosagem hormonal aumente os riscos de câncer de mama. Para piorar, ao contrário do que a meninada presume, a pílula do dia seguinte não é infalível. Em 15% dos casos, as pacientes engravidam.

 
Fotos J. Miranda e divulgação



   
 
   
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