Falsa segurança
A pílula
do dia seguinte ganha
terreno entre as adolescentes.
E isso é um perigo
Paula Neiva

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Lançada
no Brasil em 1999, a "pílula do dia seguinte" tem indicações
precisas. Só deve ser tomada em casos de emergência
quando, por exemplo, o preservativo se rompe durante a relação
e há o risco de gravidez. O medicamento é utilizado em duas
doses. A primeira deve ser tomada até três dias depois da
relação e a outra doze horas mais tarde. O uso do contraceptivo,
no entanto, vem sendo desvirtuado por muitas adolescentes de classe média.
É cada vez maior o número de meninas que recorrem à
pílula do dia seguinte como se ela fosse o único método
anticoncepcional existente. A história de Carolina, estudante paulista
de 17 anos, ilustra bem esse abuso. Em dois meses, recorreu aos comprimidos
quatro vezes. O namorado não gostava de usar camisinha e ela se
recusava a tomar a pílula tradicional, que requer um uso contínuo.
"Tinha medo de que meus pais descobrissem que eu tinha uma vida sexual
ativa. Com a pílula do dia seguinte fica mais fácil esconder
isso deles", conta Carolina.
Seguras
de que poderão evitar uma gravidez indesejada, as adolescentes
abrem mão do sexo seguro. Ficam, portanto, mais expostas a doenças
sexualmente transmissíveis, como a Aids. "O uso indiscriminado
da pílula do dia seguinte mostra que a preocupação
das meninas, no momento da relação, não vai muito
além de engravidar", diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital
Albert Einstein, em São Paulo. Há duas semanas, Timerman
atendeu uma jovem aluna de uma escola tradicional da capital paulista.
Durante uma festa, ela conheceu um rapaz e foi para a cama com ele. Tranqüila
porque tomaria a pílula do dia seguinte, deixou a prevenção
de lado. A moça não ficou grávida, mas contraiu sífilis.
O quadro é realmente preocupante. Uma pesquisa com mais de 1 000
adolescentes, coordenada pela Secretaria de Saúde do Estado de
São Paulo, mostra que o medo de engravidar é infinitamente
maior do que o temor de uma infecção contraída durante
o sexo.
Há
ainda outros perigos. A pílula do dia seguinte tem uma quantidade
de hormônios equivalente a oito pílulas convencionais. O
uso rotineiro do medicamento faz com que o organismo se ressinta desse
bombardeio hormonal. Dor de cabeça, inchaço, náuseas
e vômitos são sintomas bastante comuns. "Como se trata
de uma droga relativamente nova, ainda não há estudos suficientes
sobre os perigos a longo prazo", diz o médico Maurício de
Souza Lima, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Um dos
receios é que a alta dosagem hormonal aumente os riscos de câncer
de mama. Para piorar, ao contrário do que a meninada presume, a
pílula do dia seguinte não é infalível. Em
15% dos casos, as pacientes engravidam.
Fotos J. Miranda e divulgação
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